Ó Mariazinha, o que é isso aí? Manuel, já com sessenta e poucos, arrotando satisfação depois do terceiro copo de bagaço caseiro, de repente estendeu a mão e, com aquela autoridade de quem fiscaliza o pitéu, deu-me um beliscão na anca.
Bem ali por cima do cós da saia, naquele sítio ingrato onde o tecido ganha vida própria quando a gente se senta.
Fez isto assim, à vontade, perante meia sala de convidados. Alto e bom som, com tanta vergonha como quem reclama do preço das sardinhas na praça.
Oh homem, estás bom da cabeça? tentei afastar-lhe a mão com a elegância possível, como se espantasse uma mosca mortiça de outono, mas parecia que lhe deram a chave da feira.
Os dedos de Manuel, gorduchos e massudos, como salsichas demasiado fritas na noite do São João, voltaram a cingir a minha cintura, não magoando como quem bate, mas ferindo o ego daquele jeito luso que dói mais que uma punhalada sorrateira.
Ó Joaquim, vê lá isto chamou ele para o nosso vizinho de campismo, já preparando o garfo para atacar a salada de bacalhau com grão. Eu bem lhe digo: Mariazinha, pára lá de enfardar pão ao deitar! E ela: Ah, isso é da idade, Manuel, são hormonas. Hormonas, pois sim!
Manuel riu-se, a barriga sacudiu-se ao ritmo do riso, esticando o botão da camisa domingueira até ao limite que só o algodão português conhece.
Mas que hormonas? Isso é o sofá, mulher! sentenciou, olhando à roda como quem espera aplausos.
Manuel, chega murmurei pelos dentes, sentindo o rubor a subir traidor pelo pescoço e pelas bochechas, tipo maré cheia em Tavira.
Já o Joaquim soltou uma risadinha tensa, fixado no prato como se a maionese traçasse ali as linhas de Belém. A esposa dele, Amália, fingiu ajustar o guardanapo, olhar para o ar, para nada ver.
Ó que é lá isso de chega? Manuel estava agora lançado, achando-se o epítome do entretenimento. Não se pode dizer a verdade, é? Tens a pele a pendurar!
E toca de me espetar o dedo na anca uma vez mais, se estava a ver se a massa já levedou.
Aqui, olha só, bem aqui, um rolinho mesmo prosseguiu ele, em modo pedagogia da má língua. Parece um Shar Pei, cheia de dobras. Oh Maria, não fica nada bem!
Caiu um silêncio pesado na sala, só interrompido pelas tossidelas do frigorífico antigo na cozinha.
Olha que eu só quero o melhor para ti rematou com ar de mártir, recostado na cadeira, braços cruzados. A mulher tem de se cuidar, para ser agradável à vista do marido, que isso é lei de Deus e do mundo.
Fixei-o.
Olhei-o como se alguém me tivesse dado uns óculos novos após trinta anos de casamento.
Sessenta e dois já lá vão.
Com barriga a agarrar-se às calças tipo nuvem de tempestade sobre o Tejo.
O queixo a dobrar-se para o pescoço e logo para os ombros, contornando qualquer músculo que o destino lhe tenha dado.
A careca reluzente sob a luz da sala, brilhando como uma panqueca bem untada num domingo de Feira Nova.
Queres dizer agradável à vista? repeti eu, com uma calma que até a mim surpreendeu.
Lá dentro, fez-se um clique: o disjuntor da paciência entrou em modo de poupança de energia.
Desapareceu o pudor, o costume de passar paninhos quentes, o treino português do deixa lá, amanhã há mais.
Ficou só uma transparência de quem já viu tudo.
Claro! bateu no peito com satisfação, ressoando a camisa. Olha aqui para mim. Estou em forma!
Que forma? perguntei, sem desviar o olhar.
Forma de homem! empinou-se ele, tanto quanto as vértebras permitiram. Todas as manhãs faço uns exercícios, levanto os halteres cinco minutos, sempre no ativo!
Tentou abocanhar a barriga para dentro, para mostrar o tal vigor. Não convenceu. Todo aquele recheio só se moveu ligeiramente, para depressa voltar a cobrir o cinto justo ao corpo, qual travesseiro de festa.
Um homem deve ser águia, não saco de batatas concluiu, como quem dá conselhos na rádio comercial.
Uma águia, é? levantei-me devagar, para não dar início a uma tourada.
Vais-te embora, ficas sentida? gritou ele, já de novo a encher o copo de bagaço. A verdade não ofende, Maria! Mas tinhas era de emagrecer, não fazer beicinho!
Saí pelo corredor fora. Cheirava a sapatos de pele e cera de chão. Na parede estava o velho espelho do meu avô. Enorme, com uma moldura de madeira pesada, que aguentou décadas de festas, baptizados e funerais.
Arranquei-o do prego robusto. Pesava, pelo menos, cinco quilos, mas parecia leve como uma pena naquele momento.
Voltei à sala, segurando o espelho à frente como se levasse um escudo medieval. Ou um mandado judicial sem direito a recurso.
Os convidados ficaram congelados de garfo no ar; Amália, de boca aberta com meio pepino em conserva à mostra.
Manuel, põe-te de pé murmurei, com uma autoridade que até os anjinhos levam a sério.
Quê? Para quê? Vamos bailar? estranhou, mas ao ver-me o rosto não arriscou discussões. Pronto, já estou. E então?
Não, aproximei-me, sentindo-lhe o hálito a bagaço e cebola. Agora vamos admirar a águia.
Espetei-lhe o espelho mesmo debaixo do nariz, obrigando-o a recuar ligeiro.
Toma.
Agarrou a moldura, surpreendido com o peso.
Mariazinha, o que é que deu em ti agora? e pela primeira vez percebi ali uma pontinha de receio.
Olha ordenei, como se mandasse parar um gato em risco de atirar-se à bacalhoada. Olha bem.
Ele olhou, sem jeito, para a imagem trémula à frente.
Vejo, sou eu. E então?
Agora baixa os olhos apontei bem no vidro, mesmo à zona do tronco, já suado na camisa. Vês bem isto?
Quê? insistiu ele, em esforço para fazer de conta que estava rijo.
Tens a pele a pendurar! disse eu, alto, quase a imitar-lhe o desdém de minutos antes. Nem pendurada, Manuelzinho está mesmo estendida.
Maria! tentou baixar o espelho, já a cara a ganhar tom de camarão cozido.
Não baixes! empurrei a moldura para cima, obrigando-o a encarar-se. Isto aqui por cima do cinto, achas que é o quê? Abdominais à Ronaldo?
Joaquim tossiu para dentro da mão, já a rir-se.
Nada disso, querido, isso é bóia de salvação disse eu, ainda sem misericórdia. Caso te afogues no teu próprio toucinho.
Manuel ficou tão vermelho que parecia um tomate maduro do Ribatejo prestes a rebentar.
E aqui, nas ilhargas? apontei para as abas saltadas das calças. São asas de águia? Ou orelhas, como dizem das barrigas dos leitõezinhos de Natal?
Basta! sibilou ele, sem conseguir evitar os olhares. Estás maluca? Queres humilhar-me à frente de toda a gente!
Que humilhar quê! levantei a voz, abafando-lhe o sussurro de desespero. Não eras tu que pedias a verdade? O expoente da estética cá de casa, não é?
Afastei-me dois passos. Então pronto, vamos destrinçar a tua estética. Vira-te lá para a luz.
Não me viro! mas logo calou-se, já sem fôlego.
Vira-te! berrei, de modo que até os talheres na mesa fizeram eco.
Corou, tropeçou de um lado para o outro, acabando por mostrar o perfil.
No espelho, o reflexo era tudo menos escultura romana.
E aquele pescoço…
Ou melhor, aquele quase-não-pescoço, sobreposto de duas, três dobras.
Vês esta prega tripla na nuca? falei tranquila, como médica a dar dignóstico. Isso é Shar Pei, Manuel, pura raça.
A Amália já nem fingia estava mergulhada no guardanapo a tremer de riso.
Debaixo do queixo, vês? não larguei. Parece papo de pelicano. Guardas aí as sardinhas para o lanche?
Sou homem! piou Manuel, num registo de menino apanhado a copiar no exame.
Ah, então a ti pode-te acontecer tudo, não é? ri-me, mas era já riso agudo, sem calor. Se a mulher tem uma ruga é vergonha, mas tu, com dez anos sem levantar mais que o comando da televisão, és um Adónis em potência?
Arranquei-lhe o espelho, já lhe tremiam os braços de carregar o pecado.
Ficou no meio da sala, amassado, camisola a fugir-lhe do botão de cima, que finalmente, em protesto, saltou para debaixo da mesa.
Todo o ar imperial desapareceu só restava um português de meia-idade, inchado como bexiga de festas, a perceber de repente que o rei ia nu. E bem fornido.
Senta-te, avisei calma, encostando o espelho ao móvel. E come.
Ele caiu na cadeira, que gemeu.
E olha, não quero mais ouvir piada sobre o meu corpo nem meia sílaba despachei, ajeitando o cabelo à frente do velho espelho.
Olhei para ele e acrescentei num sussurro:
Senão coloco este espelho bem à tua frente à mesa, e a cada garfada podes contemplar o teu pelicano.
Joaquim já relinchava, a secar lágrimas de tanto achar graça.
Manuel apunhalou devagar um mísero cogumelo em conserva. Mastigou lento, a mirar para a pratada, como se quisesse encolher.
O ambiente da sala virou leve, como quando se abre a janela de par em par depois de uma tarde pegajosa de calor.
Voltei para o meu lugar de chefona caseira. Peguei na espátula e servi-me de um naco monumentoso, quase criminoso, de torta de natas com bolacha aquela que passei a tarde a preparar, jurando (em falso) que não ia comer para não engordar.
O creme escapou-se voluptuoso de lado, as bolachas estalaram de gosto.
Maria, passa-me também, mas generoso pediu Amália de mansinho, com o prato na mão. Que se lixe a dieta, só cá se vive uma vez.
Também marcho guiñou Joaquim, já com novo copo de sumo de groselha. Acho que também me estão a nascer umas asas, preciso reforçar.
Manuel levantou os olhos um instante.
Olhou-me com uma espécie de respeito desconfiado. Depois, olhou para o bolo. E de seguida, de esguelha, para o espelho, ainda ali encostado, testemunha muda da derrocada do dono da casa.
No reflexo via-se-lhe as pernas debaixo da mesa, cada meia de sua cor: uma preta, outra azul-escura, quase roxa.
Águia, pois sim. Caseira.
Desculpa lá, Maria murmurou ele, olhos fixos na toalha. Saíu-me maldito disparate pela boca fora.
Come, Manuel, come trinquei o bolo com gozo, saboreando o creme como quem saboreia liberdade. Que bem precisas das forças.
Ele ergueu a sobrancelha, intrigado.
Para levantar os halteres, claro sorri. O atleta cá de casa.
A noite continuou no compasso habitual, entre conversas de preços, horta e tempo.
Mas algo mudou para sempre ali naquela mesa. O meu juiz doméstico encolheu e virou mortal, com calos, dúvidas e dobras. E sabem o quê?
Aquele bolo estava dos diabos.
O melhor dos últimos vinte anos.
O espelho nunca mais saiu da sala; deixei-o onde estava.
Desde então, sempre que passa à frente dele, Manuel encolhe a barriga e apruma-se.
E nunca mais falou do meu pneuzinho.
Deve ser medo de acordar o pelicano.






