Helena estava a preparar pimentos em calda quando o marido chegou a casa do trabalho.
Já cheguei, anunciou Manuel, entrando na cozinha e parando de repente. Mas o que é isto?
Como assim? Estou a preparar os pimentos em calda, como me pediste. Helena sorriu, mas Manuel olhou em volta.
Não estou a falar disso, fez um gesto largo na cozinha. Mas afinal o que se passa aqui?
De que falas, amor? Explica-te, disse a mulher, já intrigada.
Não finjas. Sabes bem ao que me refiro, respondeu Manuel, já com a voz a subir de tom, deixando Helena sem perceber.
A cozinha e a sala de jantar estavam num caos.
Helena, voltaste? Que bom ver-te! Manuel falou com alguma esperança ao vê-la entrar.
Não, só vim buscar o resto das minhas coisas. Já te disse que acabou entre nós!
Mas porquê? Eu ainda te amo, e não quero que acabemos. Senti tanto a tua falta estes dias!
Uma semana antes, aconteceu entre eles algo que não deveria acontecer, nem entre casal, nem entre companheiros. Uma discussão feia, onde Manuel perdeu o controlo.
Tudo começou num dia em que ele chegou a casa e achou a cozinha completamente desarrumada.
Helena estava estafada a preparar os pimentos. Por todo o lado havia tigelas, pratos, frascos. Num canto do fogão borbulhava uma panela enorme, com manchas dos tomates rebeldes a escorrerem pelo lado. Alhos, pimentos e outros ingredientes estavam espalhados pela bancada.
Helena, como se nada fosse, picava pimento vermelho.
Tinham começado a viver juntos há apenas quatro meses. Antes disso Manuel vivia sozinho e, para estar com ela, deixou para trás o seu conforto e a sua solidão tranquila. Mas não calculou todos os pequenos detalhes.
Ambos tinham passado já dos quarenta quando se conheceram. Helena tinha uma filha adulta que já trabalhava. Manuel tinha um filho de dez anos do primeiro casamento, que raramente via porque morava noutra cidade.
Parecia quase perfeito. Encontrar alguém com quem o mundo parecia tão aconchegante como na própria solidão.
No início, Helena pensou que Manuel era o homem certo para ela. Deixou o seu pequeno apartamento arrendado quando ele a convidou a viver consigo.
Durante uns tempos, fez tudo para ser a esposa ideal. Esperava ter encontrado um companheiro com quem pudesse ser feliz, talvez até envelhecer juntos, embora sentisse ainda alguma insegurança no coração.
Nos primeiros meses sentia-se leve, quase como se voasse com a felicidade. Dedicava-se a cozinhar delícias para agradar ao companheiro, por vezes arrancando forças não sabia de onde.
É amor, pensava. Só podia ser.
Com o tempo, Manuel começou a mudar. Chegava a casa irritado, maldisposto, e passava as noites a refilar por tudo e por nada. Se a chávena ficava por lavar depois do chá. Se o chão não estava bem limpo. Se a cama não estava bem feita.
Quem liga a esses detalhes? Uma casa quase arrumada, jantar quente pronto na mesa, e carinho ao fim do dia?
Helena também trabalhava. Chegava a casa uma hora antes dele, mas fazia tudo na mesma, incluindo preparar o jantar.
No começo, nem ligou às birras do companheiro. Ignorava as queixas e esperava que fosse temporário, que tudo voltasse ao normal.
Costumava fazer conservas para o inverno, mas tentava sempre despachar isso enquanto Manuel estava fora, a ajudar o cunhado a arranjar o carro passava fins de semana inteiros fora.
Naquele dia, supostamente ele ia passar a tarde fora, mas acabou por regressar de surpresa e deparou-se com o caos da cozinha que, mais tarde, se transformaria em frascos alinhados de pimentos em calda, enrolados numa manta.
Helena não compreendia a indignação dele. Será que alguém é capaz de fazer conservas sem sujar um pouco a cozinha? Era impossível!
Manuel, falta pouco para terminar, já vou arrumar tudo.
Pois sim, já conheço essa história! Acabas e depois deixas tudo como está! gritou ele.
Alguma vez deixei a cozinha desarrumada depois de cozinhar? Porque esse mau humor? questionou ela, cada vez mais frustrada.
Porque está um calor insuportável e o cheiro espalhou-se por toda a casa!
Se não gostas, vai para a sala ver televisão.
Quero jantar! O que há para mim?
Vou aquecer o prato, espera só um pouco. Tentando manter a calma.
O que vais aquecer? As massas com panados de há três dias?
Não é assim tão grave! Não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Foi tu quem pediu os pimentos! Tive de ir duas vezes ao supermercado, os sacos eram pesados, estou exausta. Eu também sinto calor, mas continuas a implicar comigo!
Não me fales assim! protestou Manuel.
És tu que me estás a ralhar! Só te peço calma! Basta!
Estou farto disto tudo!
Desta vez, Helena não aguentou mais.
Farto de quê? De teres jantar quente todos os dias? De dormires em lençóis limpos? De seres recebido com um sorriso, mesmo quando não tens razão? Ou de mim? Diz lá!
Sim, de ti! Nem quero más as tuas refeições, nem os teus lençóis lavados, nem estes pimentos!
Então sabes quê? Também estou farta de ti! Só sabes reclamar e nunca te chega nada! Tu próprio és desarrumado e ainda me culpas da desordem! Nem levaste os legumes quando te pedi, preferiste ir ajudar o teu amigo! És um pessimista! respondeu Helena em voz alta.
Manuel não gostava de ouvir críticas. Talvez o tenha magoado o tom em que ela falou, mas respondeu-lhe de forma indesejável. Helena não esperava aquilo.
Pensou responder-lhe, mas percebeu que não valia a pena. Decidiu não arriscar.
Entre nós acabou. disse por fim e saiu da cozinha.
Helena tentou não chorar mas, com as mãos a tremer de tristeza, começou a empacotar os seus pertences. Em duas malas levou o que conseguiu, vestiu as calças de ganga e saiu pela porta.
Manuel ficou a olhar, sem tentar pedir desculpa, nem detê-la.
Nessa noite, dormiu em casa da amiga Teresa. No dia seguinte arrendou um quarto através de uma agência em Lisboa e mudou-se. Teve de gastar centenas de euros, entre a caução, o pagamento ao agente imobiliário, e artigos que faltavam na nova casa.
Nunca lhe passou pela cabeça voltar. Pelo menos nos primeiros dias. Mas depois veio a melancolia. Recordou a discussão e tudo o que se disseram. Percebeu que tinham exagerado ambos.
Sabia que não deveria perdoar, mas sentia-se magoada.
Manuel não ligou, nem tentou procurá-la. Apenas lhe enviou uma mensagem nessa noite:
O que faço agora aos pimentos?
Faz o que quiseres. Já não me interessa! respondeu, zangada.
Até lamentou pelos pimentos. Gastou dinheiro com eles, e se tivesse esperado mais quarenta minutos já estariam prontos. Foi tudo mesmo muito infeliz.
Tentava não admitir que esperava uma atitude de Manuel uma visita, um pedido de desculpa, um simples telefonema. Nada aconteceu.
Passou uma semana. Helena começou a habituar-se de novo à solidão. Decidiu que era altura de ir buscar o resto das coisas e devolver a chave.
Podia ter ido quando Manuel estava de serviço, mas preferiu enfrentar a situação. Enviou-lhe uma mensagem meia hora antes. Ele abriu a porta, com um ar triste e contrito, mas isso já não lhe tocava. Sentia apenas um peso na alma.
Ele dizia que a amava, que não queria perder a relação, mas as atitudes não correspondiam às palavras.
Se a amasse mesmo, teria feito mais do que ficar calado uma semana. Teria tentado falar, ou procurá-la.
Helena observou-o, a tentar controlar o que sentia. Não podia continuar a acreditar. Quem age assim uma vez, repete.
Manuel, pára de te enganares e de me enganares. Se realmente me quisesses, já terias feito alguma coisa.
Desculpa, por favor! Eu não sei o que me deu nesse dia. Sinto-me mesmo arrependido!
Vive com isso, então. Só vim pelas minhas coisas.
Passou por ele, tirou da mala os sacos preparados e começou a recolher os artigos que faltavam o champô e condicionador da casa de banho, o seu chá favorito que ele nunca tocava, a caneca cor-de-rosa que a filha lhe dera, a manta em croché que a irmã lhe oferecera.
Foi pondo tudo à porta, pronta para levar tudo para o novo lar.
Manuel correu atrás dela a pedir desculpa, mas Helena já não precisava daquelas palavras.
Uma semana de silêncio foi o suficiente para perceber tudo. Se realmente a amasse, já o teria demonstrado.
Quando terminou de arrumar tudo, chamou um táxi. Manuel tentou impedir-lhe a saída:
Por favor, não me deixes! Fico perdido sem ti!
Eu é que me perderia contigo! respondeu Helena, firme, afastando-o para poder abrir a porta.
E saiu. Ele ficou parado, perdido nos seus pensamentos, sem entender o que falhou. Não voltaram a encontrar-se, apesar das promessas de amor de antes.
No táxi, Helena olhou pela janela. Lá fora, era outono. E sentia-se assim por dentro também. Subitamente lembrou-se que outono era a sua estação favorita, e, além disso, o seu aniversário aproximava-se.
Vai correr tudo bem, sussurrou para si mesma e sorriu. Vai correr tudo bem.
E aprendeu que, por vezes, é melhor seguir em frente sozinha, do que ficar onde o amor só existe nas palavras.







