Olga preparava o típico leve de legumes quando o marido regressou do trabalho. – Já cheguei, – anunciou Sérgio ao entrar na cozinha e ficou imóvel de surpresa.

Madalena fechava os frascos de molho de pimentos, enquanto nuvens de vapor se desenrolavam pela cozinha, como se o ar estivesse cheio de pequenos barcos ao sabor do vento. A maçaneta girou e Raul entrou, mais uma sombra do que homem, chamando:
Já cheguei, Madalena!

Ele avançou, parou na soleira e olhou em volta com olhos arregalados:
Mas o que é isto?

O quê, Raul? Estou a preparar o molho que tu me pediste. O aroma do tomate e do pimento invadiu tudo, tão denso que parecia ser preciso um remo para atravessar a cozinha surreal.

Estou a falar disto, Madalena, deste caos. Olha à tua volta e ele faz um gesto largo, como quem dispersa pombos invisíveis.

Não percebo a tua indignação, meu amor. Não se pode fazer conservas e manter a cozinha limpa ao mesmo tempo Só num sonho, talvez. E, no fundo, sabia que aquele momento era como se o chão estivesse coberto de carpetes de areia colorida, onde nada era real.

E ali, naquele cenário sem lógica, começou a última discussão dos dois.

Madalena, voltaste? Senti tanto a tua falta! A voz de Raul vibrava como cordas mal afinadas, enquanto ela entrava, mais sombra do que corpo.

Não voltei, Raul. Só vim buscar o que ainda é meu. Já disse que acabou.

Como assim? Tu sabes que preciso de ti. Esta casa parece um aquário sem peixes quando tu não estás

Há uma semana atrás, algo, talvez vindo das fendas do tempo, irrompeu entre eles como um tufão inesperado. Raul não se conteve, o seu humor negro foi-se espalhando como tinta numa jarra com água.

Tudo começou no meio daquela tempestade de tachos e tigelas, com Madalena de avental e pimentos na mão, enquanto gatos imaginários saltavam sobre o fogão. Raul viu ali não uma cozinha, mas um campo de batalha, cheio de frascos, colheres e o calor sufocante do agosto em Lisboa.

Madalena não entendia como alguém conseguia detestar desordem enquanto o mundo girava numa dança caótica, ela própria um redemoinho de tarefas e esperanças.

Tinham-se juntado havia quatro meses, depois de uma vida inteira de solidão, ambos já com mais de quarenta outonos. Madalena, com uma filha adulta que trabalhava num banco em Almada; Raul, com um filho de dez anos que via talvez só nos sonhos, pois vivia lá longe, no Porto.

Ao início, Madalena acreditou que Raul seria o seu abrigo. Deixou a renda da casa pequena na Amadora e pôs-se a viver com ele, levando consigo uma mala de promessas.

Tentava ser a melhor das companheiras, cozinhava delícias quase místicas pratos de arroz-doce, bacalhau com natas e, claro, o seu molho de pimentos quase ritual. Sentia-se leve, como se andasse de baloiço nos braços do vento.

Mas com o passar das luas, Raul foi-se tornando murcho: irritava-se porque a chávena ficou por lavar quinze minutos, porque a cama não tinha os lençóis esticados como manda a tradição de Vila Real, porque os chinelos estavam debaixo da mesa.

Para Madalena, tudo isto era como pássaros a esvoaçar num quadro, sem sentido real. A casa estava sempre limpa, o jantar pronto quando ele chegava, e ela trabalhava o dia todo como ele.

Primeiro, ignorava. Depois, sentia a irritação a crescer, uma erva-daninha a tomar conta do peito.

Ela continuava as conservas, num ritual antigo. Tentava fazê-las enquanto Raul estava fora, talvez no Fundão a ajudar o cunhado com a velha pick-up, mas naquele dia ele voltou sem aviso, e o viu caos mais exuberante do que nunca, como se as próprias panelas e colheres se multiplicassem em sonhos.

Raul, em meia hora isto está tudo limpo! prometeu ela.

Conheço essa conversa! Vais deixar tudo assim, como sempre! rebentou ele, a voz a tornar-se mais líquida e escorregadia.

Já alguma vez deixei a cozinha desarrumada? Porque tanto azedume? quis saber ela, sem entender o enredo deste sonho.

Porque está um calor danado e este cheiro de vinagre penetra nos ossos!

Então vai para a televisão. Ou salta para o sofá e imagina que estás no Algarve.

Tenho fome! O que há para eu comer? ralhou ele.

Daqui a nada aqueço-te os bifes, como gostas. Só te peço paciência. Ela mal conseguia controlar a irritação que lhe rinchava dentro.

Bifes? De novo? Até já os meus sonhos sabem a bifes frios! Raul sacudiu o braço e salpicou azeite no ar.

Que culpa tenho eu? Não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Pediste o tal molho, esqueceste? Estou estafada. Tive de ir ao mercado do Bolhão duas vezes. Se estou cansada, tu também não ajudas!

Não descarregues em mim!

Uma faísca. O clima de agosto na cozinha converteu-se em tempestade. A discussão explodiu como milho em azeite quente.

Já chega deste jogo! Diz então, o que te farta? Chegar à casa e ter o jantar na mesa? Dormir em lençóis lavados ao cheiro do sol? Queixas-te de quê? Da minha presença, é isso?

Farto de tudo! Da tua comida, das palavras suaves, de ti!

E eu? Também estou farta! Das tuas queixas, do teu jeito sombrio. Pedes ordem mas deixas tudo espalhado. Não lavas um único prato. E a ida à mercearia? Preferiste ir com o teu amigo! Farto sim, exausta!

Raul detestava críticas como as crianças detestam sopa de grelos. Ela percebeu: era o fim, tal como acontece nos sonhos em que de repente nos vemos sem gravidade.

Acabou, Raul! murmurou ela, voz de vidro partido, e saiu.

Com mãos a tremer como folhas ao vento, Madalena enfiou o que pôde em duas malas. Saltou para umas calças de ganga, apanhou a mala ao colo, e saiu sem olhar para trás.

Raul ficou estático, uma estátua de sal português, olhando para o vazio.

Nessa noite, Madalena dormiu em casa da amiga Beatriz, num canto onde cheirava a lavanda e saudade. De manhã, acordou no silêncio. Muitos euros gastos num novo T1 perto da Graça, mais despesas com taxas e coisas pequenas copos, almofadas, uma chaleira. E nem por um segundo pensou em voltar. Não nos primeiros dias. Depois uma tristeza fina instalou-se. Recordava tudo, as palavras, o molhinho por terminar na panela.

Raul nada. Mandou só uma mensagem:

E agora, o que faço com o molho de pimentos?

Faz o que quiseres, Raul. O molho agora é só teu! respondeu ela, com o coração a estalar.

Doía desperdiçar aquele trabalho. Faltava só meia hora para fechar a última tampa. Ficou tudo a pairar na história, como num sonho que se esquece a meio.

Durante a semana, Madalena quase se convenceu de que era melhor assim. Mas decidir regressar para buscar as coisas que ficaram uns xampôs, o seu chá preferido, uma caneca cor-de-rosa que a filha lhe dera no Natal, o xaile de lã da irmã, uns cadernos antigos.

Avisou Raul meia hora antes. Ele abriu a porta, já vincado de culpa. Mas a dureza mantinha-se em Madalena, por dentro e por fora. Se fosse amor, ele tinha-lhe escrito, ido atrás dela, dado asas ao arrependimento.

Raul, para de mentir a ti mesmo (e a mim). Se me amasses mesmo, tinhas feito mais que nada.

Desculpa, Madalena, não sei o que me deu! murmurou ele, voz de quem se afoga.

Vive com isso, Raul. Vim só pelas minhas coisas.

E Madalena foi buscar as pequenas memórias, as coisas simples do quotidiano que ninguém mais conhece.

Enquanto ela punha tudo nos sacos, Raul tentava desculpar-se, arrastando-se pelo apartamento como uma nuvem cinzenta.

Quando tudo estava pronto, ela pediu um táxi através do telemóvel, e Raul, num súbito movimento onírico, quis barrar-lhe o caminho:

Não vás, sem ti fico perdido!

Mas eu, contigo, perco-me para sempre! disse ela, desviando-o suavemente, abrindo as portas para o vento.

Madalena saiu. Ele ficou parado, braços caídos, sem perceber onde errou. Talvez nunca perceba, pois nunca mais se cruzaram, mesmo depois de tantas juras de amor ao luar.

No táxi, Madalena olhava Lisboa a escorrer pelo vidro da janela. Era outono, as folhas encarnadas dançavam pelas ruas, e o coração dela também se vestia de cobre. Por um instante lembrou-se: o outono era a sua estação preferida, e faltavam só duas semanas para o aniversário.

Vai correr tudo bem murmurou, meio a sonhar Vai correr tudo bem. E, por fim, sorriu.

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Olga preparava o típico leve de legumes quando o marido regressou do trabalho. – Já cheguei, – anunciou Sérgio ao entrar na cozinha e ficou imóvel de surpresa.