Filipe casou-se com Benedita só para provar um ponto à sua antiga paixão. Queria mostrar-lhe que não estava propriamente a definhar por ela o ter deixado. Ele e Mariana estiveram juntos quase dois anos. Filipe era tão apaixonado, que qualquer manual de romance pareceria instruções para micro-ondas ao lado da entrega dele: pronto para a carregar ao colo e mover montanhas por ela. Achava mesmo que iam acabar à igreja. Só não lhe agradavam muito aquelas escapadelas de Mariana:
Pra quê casar já agora? Ainda não acabei Economia, tu andas com a tua empresa aos altos e baixos Não tens carro decente, casa tua também não há. A Rita é minha melhor amiga, mas não me apetece tê-la todas as manhãs na cozinha. Se não tivesses vendido a casa, pronto, aí sim
Filipe incomodava-se com isto, mas Mariana tinha alguma razão: ele e a irmã, Olívia, dividiam um T2 herdado dos pais. Na pequena PME da família, Filipe estava quase a descobrir onde ficava o botão de ligar. Quem havia de prever que passava a patrão da noite para o dia, ainda a meio da licenciatura? Era ginástica diária para segurar o negócio e acabar a faculdade.
Venderam a casa numa decisão mais que ponderada com Olívia. Era manter a firma ou acabar a servir bifanas na praia. Em meio ano, antes sequer da partilha, dívidas abriam crateras. Os dois ainda estudantes ele finalista, Olívia ia no terceiro ano. O dinheiro da casa permitiu pagar o essencial, investir no stock da loja e ainda guardar sob a almofada para não apanhar sustos.
Mariana era do vive agora, amanhã logo se vê. Fácil pensar assim com os pais a pagar tudo. Mas quando de repente és tu a esperança da irmã e o pilar da família, a vida parece um episódio menos divertido do Inspector Max. Um dia, quem sabe, teria bom carro, casa, talvez um jardim.
Nada fazia prever a tragédia. Filipe esperava por Mariana à porta do cinema, telemóvel já a indicar planos para verem um filme novo. Ela própria avisou que não fosse buscá-la, Mariana detestava autocarros estranho. Andou com os olhos colados ao 736, mas foi vê-la sair de um Mercedes, ar de quem já não se lembrava do nome dele.
Olha, desculpa, já não podemos continuar. Vou casar, atirou, metendo um livro nas mãos de Filipe e a saltar para o carro.
Filipe ficou estacado a digerir o que ouvira. Três dias fora de Lisboa e tudo virado ao contrário?
Olívia percebeu logo pelo ar dele:
Já sabes?
Acenou em silêncio.
Arranjou um D. Patacas qualquer. O casamento é já dia 25. Queria-me como madrinha, recusei. Uma traidora! Andava contigo e a fazer olhinhos por trás. Olívia chorava, mais por ele que por raiva.
Filipe acariciou-lhe o cabelo como antigamente:
Deixa lá. Vai correr bem para ela, para nós ainda melhor.
Trancou-se no quarto quase um dia inteiro. Olívia não parava junto à porta:
Anda cá comer, fiz panquecas
No fim da tarde, apareceu de olhos faiscantes:
Prepara-te para sair ordenou à irmã.
Que raio andas tu a magicar?
Caso-me com a primeira que aceite. Sem rodeios.
Isso não! Não brinques com vidas, tentava ela convencê-lo.
Mas Filipe estava irredutível.
Se não vais comigo, vou sozinho.
Na Alameda, cruzavam-se centenas. Uma achou que ele tinha bebido de manhã, outra fugiu como doido perigoso. A terceira encarou-lhe os olhos e aceitou.
Como te chamas, minha linda?
Benedita, respondeu a escolhida.
Isto merece celebração disse Filipe, já a arrastar Benedita e Olívia para o café mais remoto.
O silêncio ficou instalado à mesa. Olívia sem palavras, Filipe entretido a planear vinganças. A decisão estava tomada: o casamento teria mesmo de ser a 25, só para irritar.
Deve haver uma razão de peso para pedir uma desconhecida em casamento, quebrou Benedita o gelo. Se for impulso, não levo a mal, vou embora já.
Não desistimos. Palavra dada. Amanhã tratamos já dos papéis Filipe piscou-lhe o olho. Mas podemos começar a tratar-nos por tu, sim?
Durante um mês viram-se todos os dias, conversaram, estudaram-se ao pormenor.
Vais explicar-me esta aventura? perguntou Benedita, um dia.
Todos temos esqueletos no armário, desviou Filipe.
O importante é não tropeçar neles.
E tu? Porque aceitaste logo?
Imaginei-me princesa, despachada pelo rei para o primeiro que passasse. Nessas histórias acaba sempre: foram felizes para sempre. Fiquei para ver se era verdade
A realidade era outra. Grandes amores costumam acabar em corações partidos e contas mais vazias. Mas aprendem-se lições: deixou de aturar parasitas, queria alguém inteligente e independente. Em Filipe viu decisão e mão firme. Se estivesse com os amigos dele, tinha dado meia volta.
Que princesa serás? perguntou Filipe, a filosofar. Inês de Castro, D. Filipa de Lencastre, ou talvez uma rã à espera de beijo?
Experimenta beijar, descobre logo, ironizou ela.
Sem beijos, nem mais além.
Filipe tratou sozinho do casamento. Benedita só tinha de escolher o que ele mostrava. Até o vestido foi ele a escolher.
Vais ser a mais bonita de todas.
No registo civil, cruzaram-se com a Mariana e respectivo noivo. Filipe estampou um sorriso:
Parabéns para ti, beijou a ex na bochecha Sê feliz com o teu mealheiro com rodas!
Não armes barraca, Mariana mordeu o lábio.
Ela mirou Benedita de alto a baixo esguia, bonita, classe de rainha. Mariana sentiu-se segundo prato, a ciúme a morder-lhe o juízo. Nada de felicidade, só o pensamento: Perdi a aposta.
Filipe voltou para Benedita:
Tudo bem, fingiu.
Ainda vais a tempo de parar, murmurou ela.
Não. Jogamos até ao fim.
Só na sala do registo, vendo os olhos tristes da agora mulher, percebeu o disparate.
Vou fazer de ti a mulher mais feliz do mundo, disse, com fé renovada.
E começou a rotina a dois. Olívia e Benedita tornaram-se unha e carne. Olívia, de feitio explosivo, aprendeu a fazer o controlo emocional. Benedita, organizativa, imperceptivelmente tomava conta de tudo.
Como boa economista e craque em contabilidade e fisco, Benedita pôs logo a empresa nos eixos. Em seis meses abriram outra loja; pouco depois, uma equipa para remodelações. Não só vendiam materiais, mas faziam obras. O lucro disparou.
Benedita era a verdadeira rainha da sabedoria: sugeria tudo de forma que Filipe achasse ter sido ideia dele. A vida parecia um conto de fadas fosse só aproveitar. Mas Filipe sentia falta daquele trambolhão de emoções da Mariana. Tudo certinho, tranquilo, igual ao domingo à noite seguro, chatinho. Rotina pensava isto suga mais que os impostos. Não é amor!.
Com a ajuda de Benedita, subiram ainda mais. Agora até construíam moradias chave-na-mão. O primeiro foi o deles.
Quanto melhor corriam as coisas, mais Filipe pensava em Mariana: Não te aguentaste. Devias era ver o carrão em que ando. E a casa? Um palácio!. O e se já se instalava mentalmente.
Benedita percebia o desconsolo. Queria ser mais que companheira, mas coração é terra que ninguém manda. Nem todas as histórias têm final feliz, pensava, mas, com um nome destes, nunca perdia esperança.
Olívia também notava o irmão apático.
Vais perder mais do que alguma vez vais ganhar, atirou ao apanhá-lo no Facebook da Mariana.
Não te metas onde não és chamada!
Olívia lançou-lhe um olhar de raio:
És burro. A Benedita ama-te a sério e tu feito miúdo a jogar!
Só me faltava ouvir lições desta pita, fervia Filipe; mas a saudade de Mariana era mais teimosa ainda acabou por escrever-lhe.
Mariana queixava-se: vida destruída, encostada à caixa, marido pô-la fora, curso nunca acabou, trabalho nem vê-lo, vive a alugar quarto em Coimbra.
Filipe andou uns dias a decidir: Vou? Não vou?. As circunstâncias facilitaram Benedita tinha ido à aldeia cuidar da avó doente.
Foi. Marcou encontro. Até ao Porto, ia acelerado, só faltava voar. Imaginava discursos, roteiros, pratos de risota.
A realidade era um filme de terror.
Olha que bonitão te tornaste! Mariana atirou-se-lhe ao pescoço.
Um bafo a quem não vê duche há semanas fez Filipe recuar, enojado.
Olha que as pessoas estão a ver, murmurou.
Não tô nem aí! Mariana largou uma gargalhada.
Minissaia barata, maquilhagem de saldo, perfume duvidoso uma caricatura da mulher que recordava. Ao lado de Benedita, um zero à esquerda. Sempre foi assim. Como não vi antes?, lamentava-se, enquanto a via enxaguando copos de cerveja.
Dá-me dinheiro, pago-te com jeitinho Mariana piscou-lhe o olho.
Filipe só queria desaparecer.
Olha, desculpa, tenho de ir levantou-se.
Vemo-nos depois?
Dificilmente chamou o empregado A conta, se faz favor.
Ainda queria ficar
Pode a menina ficar à vontade até este montante deixou uma nota gorda na carteira do empregado.
O jovem piscou-lhe o olho, cúmplice.
Foi para casa a abrir.
És um idiota, resmungava Filipe. A Olívia tinha razão! Para que fui meter-me nisto? Ou se calhar serviu para abrir os olhos.
Por que é que nunca chamei à minha mulher Beneditinha? Não há ninguém mais chegado que ela. Parou o carro num recanto, ficou sentado a lembrar os anos desde o casamento.
Via a cara da esposa, os olhos azulíssimos, a forma como Beneditinha sorria ao vê-lo, o carinho ao despentear-lhe o cabelo com aqueles dedos finíssimos.
Prometi fazê-la feliz, pensou. Olhou em redor, acordou do torpor, deu à chave e voltou à estrada rural.
Uma semana é uma eternidade. Em dois dias, já não consegui ficar longe de ti disse, mal Benedita correu dos portões da casa da avó.
Grande maluco! sorriu ela, olhos molhados.
Beneditinha, meu amor, segredou Filipe ao ouvido da mulher, tontinhos de felicidade ambos.






