Oksana e a mãe sentavam-se na velha cama, ambas bem agasalhadas. Era inverno e só agora acendiam o fogão na casa. – Não se preocupe, mãe. Tudo vai correr bem connosco. Não vamos desistir. Agora vou-lhe dar o remédio. Oksana, como podia, tentava acalmar a mãe – que, na verdade, não era sua mãe, mas sim a sogra, e já quase ex-sogra…

Leonor e a mãe sentavam-se na beira de uma cama antiga, em cima de um colcha de retalhos que alguns fios do tempo já puxavam. As duas estavam embrulhadas em casacos de lã grossos, enquanto um frio estranho pairava na casa afinal, era inverno, e só agora a lenha tinha começado a arder na salamandra.

Não te preocupes, mãezinha. Já passou tanto e ainda vamos dar a volta. Fica tranquila, vou buscar-te o remédio murmurava Leonor, pousando uma mão aconchegante sobre o ombro frágil da mulher. Mas, no fundo, não era bem sua mãe. Era a sogra antiga Quase antiga.

E afinal, assim tinham vivido durante anos, uma família a três: mãe, filho e Leonor, que entrara já em idade madura naquele casamento esquisito, com o Luís, o filho da senhora Emília Cândida. Não fora ela quem estragara família nenhuma ele já era separado quando começaram a encontrar-se.

À Emília agradou-lhe a nora mal a conheceu. Parecia-lhe bondosa, próxima, alguém capaz de a escutar nos invernos longos e silenciosos. Para Leonor, órfã desde cedo, embrulhada na solidão, Emília tornara-se enfim família.

Ora, elas andam feitas brincava Luís, lançando um olhar desconfiado sobre o elo entre as duas mulheres.

Foram cinco anos de compreensão, passados num instante. Depois, assim como se virasse o vento no largo da vila, o Luís começou a tornar-se áspero, impaciente. Gritava com Leonor, com a mãe. Tudo à conta de um novo romance. Agora passava noites fora, voltava já com o vinho em cima.

Até que um dia anunciou o divórcio. Mal lhe deu tempo de arrumar malas. E, num rodopio que só em sonhos parece possível, logo a namorada do Luís uma tal de Albina, loira dum exagero operático, pestanas imensas e lábios de caricatura instalou-se na casa. Veio com uma mala que cheirava a verniz.

Leonor não se conteve e achou graça ao cenário.

Trocaste-me por um espantalho de pestanas de vaca? Fica com ela, meu caro. Nem por sombras levo saudades.

Ela é divertida. Vocês duas, tu e a minha mãe, são pior que duas galinhas.

A mim poupa, mas não insultes tua mãe!

Amor, e a tua mãe fica connosco? cantou o aberração, piscando os olhos cobertos de máscara não precisámos dela aqui, pois não, amorzinho?

Está na altura de ir embora também, mãe. Já chega, não achas?

E eu onde fico? Dei-te todo o dinheiro da venda do apartamento, para construíres isto, Luís Emília levou as mãos ao peito, olhos fundos perdidos.

Poupa-me às cenas. Podes ficar, mas não sais do teu quarto. Agora a Albina é a dona da casa.

Gato querido, despachas-te com as duas depressa? miou a criatura de lábios.

Mas é minha mãe!

Queres dizer que fiquei agora com uma sogra destas? Ó que sorte

Farta de escutar agressões, Leonor aproximou-se de Emília.

Querida, vem comigo para a aldeia. Pior do que aqui não será.

Antes aldeia do que com estes aqui suspirou Emília.

Senta-te um instante, vou buscar tuas coisas. Não esqueças os remédios, a caixa, a bolsinha

Leonor rapou do guarda-fatos uma mala grande. Pôs lá tudo à pressa: a caixinha, a bolsa, os medicamentos, documentos, roupa interior, dois casacos. Mal fechou, ouviu bufos: Levem tudo. Não queremos nada que não seja nosso Albina lançou um olhar vacilante a Luís, que, sem palavra, olhava o chão.

Em meia hora estavam já cá fora. Emília recolhia lágrimas no lenço, sentada no banco de trás do carro, nem de soslaio se voltando para o filho.

É difícil acordar assim: dás tudo e ainda assim já não és de ninguém.

E agora, querida, como faremos?

Não te preocupes. Tenho algum guardado. Chega enquanto não arranjo trabalho. Tu tens a reforma. Ninguém morre de fome. Pão e manteiga nunca faltará.

Foram para a aldeia de infância de Leonor, onde as casas se cravam como cubos entre sobreiros. Ainda era dia, frio cortante dentro de casa. Leonor fez lume, foi buscar água à fonte, pôs o chá ao lume.

Pareces nascida para isto. Mexes-te com uma leveza! sorriu Emília.

O avô ensinou-me tudo. E temos comida. Assim não ouvimos mexericos de mercearia.

Pouco a pouco a casa aqueceu.

Amanhã varro isto tudo de uma ponta à outra

Uma batida à porta despertou-as. O tio Manel, vizinho de infância, entrou com voz grave:

Vi o teu carro aí, cheguei a pensar que nunca mais aparecias, rapariga! Que vens cá fazer no inverno? Alguma coisa correu mal?

Tudo bem, tio. Agora sim. Depois conto-te. Fica, bebe um chá connosco.

Olha, vim mesmo ao contrário, para te convidar a ires lá a casa. Mas estás acompanhada?

Apresento: Emília Cândida. E este é o tio Manel, o melhor vizinho da terra.

Se precisares de alguma coisa, apita. Mesmo.

Na semana seguinte, a casa cheirava já a pão e limpeza. Emília sentou-se em frente ao lume.

Sabes, Leonor, também sou gente de aldeia. Casei com homem da cidade, perdeu-se naquela curva com vinte e três anos, o Luís ainda rapaz. Vendi o apartamento, dei tudo ao meu filho para construir, ele prometeu que viveríamos sempre juntos Veja só como as voltas dão.

Não chores. A vida nem sempre afaga, mas também há recomeços. Não sabes se ainda vêm netinhos.

Daquela criatura? Deus me livre E o senhor Manel, vive com quem?

Vive só. A esposa morreu afogada, salvando um miúdo. Nunca mais casou sussurrou Leonor. Era amigo do avô, embora mais novo. Bem, tem quase a tua idade.

Passou um mês sem notícias de Luís. Um dia, no meio da brisa azulada do entardecer, o telefone tocou.

É a Leonor?

Sou.

O seu marido morreu.

Enganou-se.

Não. O Luís foi o Luís. Estava bêbedo, acidente de carro. Ia com uma rapariga. Ela saiu ilesa. Venha reconhecer o corpo.

Meu Deus, como contar isto à Emília? Recorreu ao tio Manel.

Leonor, pareces pálida! Que aconteceu?

Senta-te, mãe. O Luís já cá não está.

Ai minha Nossa Senhora Eu sou a culpada, nunca devia ter saído de lá!

Não, mãe, ele correu contigo

Sim. Mas sou mãe A sorte virou-se.

Tenho de ir fazer o reconhecimento. Tio Manel fica contigo enquanto não venho.

Eu vou contigo disse Emília.

E eu também. Vamos no meu carro, não se fala mais nisso decidiu o tio Manel.

O funeral passou, sulcado de lágrimas. Leonor e Emília resolveram visitar a antiga casa, agora sua por herança o Luís até ao fim evitara papéis de divórcio, sempre ocupado com festas e paixões. Manel foi sempre com elas.

A casa parecia um quadro dissolvido roupa suja por todo o lado, pratos empilhados até ao chão, cheiro acre de álcool e qualquer coisa podre.

Era isto o meu filho? Nunca foi assim, antes de se perder gemeu Emília.

O que fazem aqui? Saiam da minha casa! ribombou Albina à porta do quarto, acompanhada de um homem desgrenhado em cuecas.

Mostra os papéis da casa! gritou Manel.

Papéis? O meu marido morreu, casámo-nos! retorquiu Albina.

Ele nem se chegou a divorciar!

O casamento foi feito antes. Agora tudo é meu! insistiu.

Acabem com o disparate! Fora ambos. Mais alguém cá dentro?

O homem esgueirou-se por trás. Manel vigiou a Albina para que nada fosse roubado.

Leonor, temos de ir ver os papéis todos da casa, pode haver testamentos ou outro dono já. E mudar as fechaduras, ela deve ainda ter chaves.

Estava tudo em ordem. Mudaram os canhões.

Tanta coisa foi pelo lixo. E o tio Manel ajudava com tudo.

Não gosto da ideia de vos ver partir Habituei-me tanto.

Viremos sempre cá. E tu, tio, vens também.

Fazem-me sentir um rapaz outra vez. A Emília é mesmo tão parecida com minha mulher

Bem vejo o teu olhar sobre ela, tio. E ela sobre ti também Olha que aqui cheira a romance!

Vá, Leonor, deixar-te de brincadeiras!

Um ano depois, Maria Emília e Manel casaram-se. E estavam bem. E estavam bem também com Leonor, que era filha para eles. Mas a família era maior. Havia agora netos.

Leonor tornou-se mãe. Não casou mais. Criava dois irmãos, irmãos pelo destino, não pelo sangue. Quis adotar um, ficaram dois não podiam separar-se. Família nova. Porque família, sangue, raiz e abraço às vezes, são o acaso, o inverno ou o pão sobre a mesa que a decidem. E assim o sonho terminava, com a casa cheia de vozes, de riso e lareiras acesas, e um cão a correr sem dono e sem nome pelos corredores de paredes torcidas.

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Oksana e a mãe sentavam-se na velha cama, ambas bem agasalhadas. Era inverno e só agora acendiam o fogão na casa. – Não se preocupe, mãe. Tudo vai correr bem connosco. Não vamos desistir. Agora vou-lhe dar o remédio. Oksana, como podia, tentava acalmar a mãe – que, na verdade, não era sua mãe, mas sim a sogra, e já quase ex-sogra…