A Leonor e a sogra estavam sentadas na cama antiga, as duas bem agasalhadas. Era pleno inverno, e só agora é que tinham acendido o fogão a lenha, por isso a casa continuava gelada.
Não se preocupe, mãezinha. Vamos dar a volta por cima. Não nos vamos perder. Agora vou dar-lhe o remédio, disse Leonor, tentando animar a sogra, naquela altura quase ex-sogra.
Sei que parece estranho, mas a Dona Maria do Carmo era mais mãe para ela do que a própria. Leonor tinha perdido os pais ainda em miúda e ficou sozinha no mundo. Foi com a Maria do Carmo, mãe de Rui, o seu ex-marido, que encontrou o verdadeiro carinho de família.
O Rui e ela moravam juntos com a Dona Maria do Carmo desde o casamento. Leonor casou já perto dos trinta e foi a segunda mulher do Rui, que já estava divorciado quando se conheceram. Nunca destruiu família nenhuma.
Maria do Carmo recebeu-a de braços abertos gostava mesmo dela, e Leonor também rapidamente ganhou um lugar no coração da sogra. Era mulher de bons afetos, sempre pronta para um abraço e uma conversa.
“O que é que vocês as duas conspiram sempre juntas?”, brincava o Rui de vez em quando.
Os primeiros cinco anos de casamento voaram num instante. Mas, de repente, Rui começou a mostrar-se agressivo e mal-humorado gritava com Leonor e com a mãe por tudo e por nada. Andava sempre de cara fechada por causa da amante. Chegava a casa muito tarde e muitas vezes visivelmente embriagado.
Até que um dia decidiu pôr fim ao casamento. Deu-lhe dois dias para arrumar as coisas. Leonor ainda nem tinha uma mala feita, quando a amante apareceu pela casa com a trouxa às costas.
Achou até que ela fez questão de chegar enquanto Leonor lá estava, só para pôr veneno. Mas não resultou. Era uma rapariga toda arranjada, loura, cheias de pestanas e lábios exagerados.
Leonor não se conteve e riu-se, alto e bom som.
Trocas-me por este espantalho com pestanas de vaca? Olha, faz-te bom proveito. Eu não me importo nada.
Ao menos ela diverte-se, não são duas velhas carrancudas como tu e a tua mãe, respondeu-lhe o Rui, num tom irritante.
Comigo podes embirrar, mas porque é que tens de ofender a tua mãe?
A amante interrompeu num tom infantil e agudo:
Ó Rui, e a tua mãe fica cá a viver connosco? Que chatice! Que a leve com ela, pois nós não precisamos dela aqui.
Pois é, mãezinha. Está mesmo na altura de ires, já cá estiveste tempo a mais.
Mas, filho, eu dei-te todo o dinheiro do apartamento, foi com ele que compraste esta casa! a Dona Maria do Carmo levou a mão ao peito, aflita.
Nada de dramas! Pronto, podes cá ficar mas vê lá se não sais do teu quarto. Agora quem manda nesta casa é a Albina!
Ó amor, põe-nas as duas na rua, por favor
É a minha mãe!
Mãe? Ai que amor agora é que vou ter sogra assim! Ui, Rui, que sina!
Leonor fartou-se das discussões.
Mãezinha, vamos as duas para a aldeia. Fica melhor assim.
Antes no campo que com este filho e esta coisa
Fique aqui, que em dois minutos trato de tudo! Leonor foi buscar uma mala extra e foi enchendo à pressa: caixa de recordações, carteira, remédios, documentos, roupa interior, tudo.
Levem lá tudo, não nos faz falta porcaria de ninguém disse Albina, com despeito.
O Rui ficou calado, a assistir a tudo. Sabia que a mãe nunca lhe perdoaria, embora, no fundo, talvez perdoasse por ser mãe.
Meia hora depois, Leonor estava junto ao carro. Dona Maria do Carmo já se tinha sentado atrás, enxugando as lágrimas sem sequer olhar para o filho, só o peito a suspirar fundo.
É duro, quando se deu tudo e, no final, já ninguém precisa de ti.
E agora, filha, como é que vamos viver?
Não se preocupe. Tenho umas poupanças, vai dar para algum tempo até arranjar trabalho. E a sua reforma dá para a gente se desenrascar. Pelo menos pão e manteiga não vai faltar!
Foram para a aldeia onde Leonor cresceu. Ainda bem que chegaram durante o dia, pois a casa estava mesmo fria. Leonor acendeu logo o fogão a lenha, foi buscar água ao poço e pôs a chaleira ao lume.
Fazes tudo com uma facilidade parece que nunca saíste daqui admirou Dona Maria.
O avô é que me ensinou tudo isto! E que bom termos feito as compras antes. Não gosto nada das conversas fiadas da mercearia
Aos poucos a casa aquecia.
Amanhã limpo isto tudo, fica um brinquinho.
Quando bateram à porta, Leonor estranhou. Era o senhor António, o vizinho.
Afinal és tu! Não te via há séculos, mas reparei no carro. E o que é que te traz cá no coração do inverno? Algum problema?
Está tudo bem, senhor António. Depois explico. Sente-se, beba um chá connosco.
Até ia, mas vinha só para convidar-te. Afinal não estás sozinha? reparou, sorrindo.
Esta é a Dona Maria do Carmo, minha sogra. Senhor António do lado. Leonor apresentou-os.
Qualquer coisa, diga.
Para já está tudo bem, obrigada.
O tempo passou. O cheirinho a café espalhou-se pela casa e criou conforto.
Olha, filha, também fui criada na aldeia, imagina, depois casei com o teu sogro e vim para Lisboa. Ele partiu quando o Rui tinha 23. Vendi a casa e dei o dinheiro ao meu filho para construir esta. Prometeu sempre que ficava comigo. Vê lá como acabou
Não chore, Maria. O homem às vezes perde o juízo. E pode ser que ainda venha a ter netos
Netos? Daquela lá? Nem pensar! E esse senhor António, vive só?
Vive. A mulher dele morreu afogada a tentar salvar o filho do vizinho. Já foi há anos nunca mais casou nem teve filhos. Era amigo do meu avô, embora seja um pouco mais novo. Tem mais ou menos a sua idade.
Passou-se mais de um mês sem sinal do Rui. Nunca chegou a telefonar à mãe. Um dia, no entanto, Leonor recebeu uma chamada de um número desconhecido.
Leonor?
Sim, fala
O seu ex-marido faleceu num acidente de carro. Ia com uma rapariga. Ela não ficou ferida, mas ele não resistiu. Sei que isto custa, mas precisava que alguém fosse à identificação.
Coitada da Dona Maria do Carmo. Como é que lhe digo?
Só me ocorria uma coisa: pedir ajuda ao senhor António.
Que aconteceu, Leonor? Estás branca que nem a cal.
Mãezinha, senta-se O Rui morreu.
Ai Deus! Fui eu. Eu abandonei-o!
Foi ele que a pôs fora de casa, Maria.
Sim, mas eu sou a mãe Ai minha Nossa Senhora Isto foi castigo
Eu vou à identificação. Senhor António vai ficar consigo até eu voltar.
Vou consigo.
Vou com as duas disse o senhor António Vamos no meu carro. E pronto, não se fala mais nisso.
A cerimónia foi discreta. Depois decidiram ir à casa do Rui agora legalmente herdada pela mãe e por Leonor, pois o Rui nunca chegou a entregar os papéis do divórcio, tinha mais que fazer entre festas e copos.
O senhor António acompanhou-as sempre.
Vou com vocês. Mulheres sozinhas, nunca se sabe no que dá.
Apenas ao abrir a porta perceberam como a casa se tinha degradado nesse mês. Roupas sujas espalhadas, loiça por lavar, cheiro a álcool, tudo a monte.
O meu filho fez isto Nunca pensei que chegasse a este ponto, chorava Dona Maria.
O que estão vocês aqui a fazer? É a minha casa, rua daqui! gritou Albina, surgindo da cama ensonada, seguida de um homem em cuecas.
Onde estão os papéis da casa? interveio o senhor António, sem cerimónias.
Papéis para quê? O Rui já era. Tivemos até casamento!
Que casamento, se o divórcio nem estava feito?
Mas já estava planeado! Agora é tudo meu!
Olhe, minha senhora, pare com isso e ponha-se na rua antes que me chateie!
O senhor António acompanhou-os, controlando para que não levassem nada que fosse delas.
Depois foi preciso tratar dos papéis todos, mudar os canhões das portas, limpar restos do passado. Atiraram fora muito do que lá estava.
O senhor António nunca as deixou sozinhas.
Custa-me imenso vê-las partirem outra vez. Habituaram-se cá em casa.
Então venha visitar-nos, ou melhor, venha viver connosco, António!
Sabe, dona Maria lembra-me tanto a minha falecida, disse ele, a emocionado.
Eu já reparei como vocês se olham. Daqui a pouco temos romance!
Ora, vá lá, não goze respondeu, corando.
Não é gozo, é verdade!
Um ano depois, António e Maria casaram-se. Fazem um casal lindo. Leonor é como uma filha para eles. E agora têm netos.
Leonor acabou por ser mãe, mesmo sem casar de novo. Adotou dois irmãos que não pôde separar.
E sabes o que te digo? Não é preciso nascer família. Basta que a vida junte as pessoas certas, nos momentos mais improváveis.







