Oksana chegou à entrevista de emprego e ficou paralisada ao ver quem estava sentado no gabinete do diretor

Catarina chegou à entrevista e ficou paralisada ao ver quem estava sentado no gabinete do diretor

Durante vinte anos, Catarina Gonçalves tratou de toda a papelada, atendeu telefonemas, sorriu para visitantes que, francamente, não mereciam, e preparou café para a chefia com tal precisão, que por pouco não foi promovida a responsável pela copa. Ainda assim, foi apanhada na onda de despedimentos. Vida, enfim.

Agora, ali estava ela, prestes a encarar uma entrevista a primeira em vinte anos.

Catarina olhava-se ao espelho no hall de entrada de casa, travando um diálogo sério consigo mesma. O fato estava apresentável. O cabelo também. O rosto, bem rosto é rosto, quarenta e seis anos não disfarçam, mas está-se de pé. O importante é não se deixar vencer pela ansiedade. É só um emprego. Só um novo escritório, nova secretária, novos telefonemas.

A amiga, Emília, insistiu em acompanhá-la até a porta e acabou por deixar o recado no elevador:

Tu tens de te mostrar segura. És uma profissional. Vinte anos de experiência não se deitam ao lixo.

Vinte anos repetiu Catarina. E mesmo assim mandaram-me embora.

Ora, mas levas bagagem, não te esqueças disso.

Emília disse Catarina vai para o trabalho, senão chegas tarde.

O escritório situava-se numa ruazinha discreta de Lisboa. Um prédio de quatro andares com algum requinte: colunas, portas de vidro, segurança de blazer. Catarina endireitou os ombros. Inspirou fundo. Expirou com calma. Entrou.

A recepcionista já sabia e indicou:

O diretor espera por si. Gabinete 302, terceiro andar.

Atravessou o corredor do terceiro piso. Porta com placa.

Catarina bateu antes de entrar.

E ficou imóvel sentado à secretária estava o Leonel.

O antigo amor. Precisamente ele, o mesmo a quem um dia tirou uma farpa do dedo, fez rissóis para as maratonas de estudo, perdoou pecados que não deveriam ser perdoados. Aquele, por culpa de quem passou três anos a perder o sono.

Ele fitava-a. Ela fitava-o.

O silêncio alongou-se tanto que normalmente só há duas saídas: ou se vai embora ou se fica para sempre. Não há meio termo.

Isto sim, pensou Catarina, surpreendida mas estranhamente serena, é o destino a mostrar o seu humor negro.

Leonel estava com boa aparência. E isso era o que mais doía.

A sério nestes últimos oito anos, Catarina imaginou várias versões de um reencontro com o ex-marido, sempre o via desleixado, com o ar de alguém cansado da vida. Talvez de barriga saliente, cabelo mais ralo. Alguma coisa tinha de ter mudado em quem soube magoar tanto.

Nada disso.

Leonel tinha o porte seguro atrás da secretária de diretor, fato bem cortado, cabelo arranjado, a pose de quem há muito se reconciliou com a própria consciência. Um pouco de grisalho nas têmporas. No tampo, um portátil, agenda, e um pequeno cato. Um cato. Claro. Parecia um símbolo.

Catarina chamou ele. Não disse senhora Gonçalves, nem boa tarde, apenas Catarina. Como se tivessem acabado de jantar juntos ontem.

Olá, Leonel respondeu ela.

Leonel apontou-lhe a cadeira. Catarina sentou-se. Pousou a mala no colo, como se fosse essencial segurar em alguma coisa. Nem que fosse uma mala.

Já tenho o teu currículo aqui disse ele, tocando na folha sobre a mesa. Já o li.

Está bem.

Vinte anos como secretária executiva. Belo percurso.

Sim.

Falava num tom neutro. Profissional, sem emoção. Olhava ligeiramente ao lado dela, algures para o ouvido esquerdo. O típico olhar de quem sabe tudo, mas finge que não sabe de nada.

Certo, vamos brincar aos profissionais, percebeu Catarina. Então vamos lá jogar.

Fala-me da tua última experiência pediu Leonel.

E o ritual começou.

Catarina explicou, calma e objetivamente: funções, responsabilidades, quantidade de documentação, programas, equipa sob sua orientação. Mas, na cabeça, conversava consigo própria, admitindo pela milésima vez que estava à frente daquele que lhe disse não me compreendes antes de ir embora com a Inês do departamento financeiro.

Que softwares utilizavas?

Ela listou-os. Mas o pensamento persistia: ali sentado estava quem a fez perder o apetite durante meses e chorar noites sem dormir.

Tinhas de acompanhar reuniões com parceiros?

Sim, no âmbito de contratos e organização de encontros de direção.

Lá estava ele. O tal. De fato de primeira.

Leonel ia acenando, rabiscava qualquer coisa na agenda, ou talvez fingisse que rabiscava. Catarina fixava o movimento da caneta, pensando na ironia. Era uma ironia requintada. Quase cruel.

Lá fora, Lisboa seguia o compasso lento de outubro, folhas secas, brisa morna. Ali dentro, oito anos de separação, dois processos no tribunal, um apartamento disputado, noites mudas ao telefone com Emília quando já não tinha forças para falar.

E ali estava ele. Com o cato.

Porque saíste do emprego anterior? Leonel perguntou, voz impessoal. Profissional a toda a linha.

Cortes no quadro. Fecharam todo o departamento.

Entendi. Pausa. Tinha boas relações com os administradores?

Sim. Relacionamento direto com o diretor-geral e a administração.

Sabes guardar confidencialidade?

Sei.

Leonel olhou-a de frente. Alguns segundos. Catarina não desviou o olhar. Nada de sorrisos ou rancores, apenas firme.

Muito bem Leonel pousou a caneta. Gostava de continuar esta conversa num ambiente menos formal. Um café?

Catarina sentiu algo a prender-se-lhe dentro. Não era medo. Era pressentimento: o diálogo que vinha a seguir seria diferente. Tinha de estar pronta.

Por mim, tudo bem respondeu serena.

Leonel levantou-se, procurou na máquina de café junto à janela. De costas para ela. Catarina fixava-lhe a nuca, adivinhando: ia dizer qualquer coisa. Algo importante, ou algo desconfortável. O motivo do convite ao café.

A máquina zumbia, exalou vapor.

Estás bonita disse Leonel, subitamente na informalidade do tu, sem se virar.

Catarina não respondeu.

Ele pousou a chávena à frente dela, voltou ao lugar.

Falo sério.

Ela fixou a chávena, depois ele.

Obrigada disse, neutra.

Leonel hesitou.

Catarina, queria dizer-te uma coisa. Não como diretor, mas alguém que te conhece.

Agora sim, registou Catarina mentalmente. Algo relevante, talvez perigoso, como quando o piloto surge da cabine no avião pronto para um anúncio decisivo.

Fico feliz por teres vindo disse Leonel.

Pura coincidência respondeu ela.

Talvez. Um esboço de sorriso. Mas estou contente. És uma profissional, nota-se à distância. E preciso exatamente de alguém assim.

Percebo.

Mas gostava pausa. Leonel escolhia as palavras como quem pisa gelo fino gostava que começássemos do zero. Sem histórias antigas. Folha em branco, digamos.

Eis o momento.

Catarina pousou a chávena.

Folha em branco. É assim que se chama a isto. Oito anos e folha em branco. Dois julgamentos: folha em branco. Três meses a sobreviver sem comer, mais um pouco sem dormir folha em branco.

Silêncio. Um, dois segundos. Ela olhava-o como se examinasse algo antes de decidir o que fazer.

Leonel, estás a propor-me este trabalho com a condição de esquecer tudo o que aconteceu?

Sobrancelha dele arqueou-se levemente.

Estou a propor um novo começo. Não é a mesma coisa.

É sim rebateu Catarina. É exatamente igual.

Silêncio. O cato imperturbável.

Sabes continuou Catarina não tenho interesse nenhum em mexer no passado. Não me apetece, nem tenho tempo. Mas não vou fingir que não aconteceu. Porque aconteceu. Está em mim. Não é uma página a arrancar de um livro.

Leonel escutava, calado.

Vim para uma entrevista de emprego, não para uma sessão de memórias. Se procuras uma responsável pelo departamento administrativo com vinte anos de experiência, podemos falar. Se queres alguém que finja que nada passou há oito anos, não sou eu.

Agarrando na chávena, deu um trago. O café estava bom, registou com satisfação quase deslocada.

Leonel limitou-se a fitá-la. Catarina reconheceu a expressão ao fim de uns segundos. Era respeito.

Mudaste ele murmurou.

Sim confirmou Catarina. Oito anos dá para mudar.

Leonel foi até à janela, observou a rua por instantes. Voltou a encará-la.

Catarina a voz saía-lhe baixa eu sei que agi mal. Não é nenhuma folha em branco. Tens razão. Passou-se, e fui injusto.

Não era o que ela esperava. Nada.

Em oito anos, Catarina ensaiou mil versões deste reencontro, sempre o via arrogante, indiferente, até superior. Nunca a pedir desculpa.

Ouvir isso sabe bem admitiu, após breve pausa. Apesar de tardio.

Pois. Ele acenou. Tardio.

O silêncio que se seguiu pareceu natural. Não pesado, apenas silêncio. Daquele que resta ao fim de conversas decisivas.

Quanto à vaga disse Leonel quero oferecer-te a direção do departamento administrativo. É acima da função de secretária executiva. Boas condições. Decisão está do teu lado.

Catarina ficou pensativa.

Preciso de refletir respondeu.

Claro.

Levantou-se. Pegou na mala. Leonel também se ergueu, num gesto mais humano, sem cerimónia diretiva.

Catarina ele chamou, quando ela já se dirigia à porta.

Ela olhou-o por cima do ombro.

Obrigado por não teres ido embora assim que me viste.

Catarina sorriu ligeiramente, sincera.

Também não achei que ficaria. Mas fiquei.

Já no corredor, parou uns segundos em frente à porta de nome gravado.

Cá fora, Emília esperava-a com um café do automóvel junto ao passeio. Ao ver Catarina, leu-lhe o rosto e apressou-se a questionar:

Então?

Ofereceram-me o cargo.

Dos bons?

Sim. Diretora do departamento administrativo.

Uau Emília ficou pensativa. E quem é o diretor?

Leonel.

Demorou-se a fitá-la.

O teu Leonel?

O ex.

E tu?

Disse que ia pensar.

Catarina aceitou o café do automatismo, bebeu um gole. Não era tão bom quanto o outro, mas sabia mais a casa.

Seguiram juntas pela ruela. As folhas secas faziam o som típico de outubro. O sol, tímido, só aquecia de longe.

Mas desta vez sou eu que escolho Catarina esboçou um sorriso. E não ele. Sem dúvida.

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