— Oh, Dona Ala! — exclamou o Matias. — Quem lhe deu permissão para criar um lobo aqui na aldeia?

Ó dona Beatriz! exclamou Martinho. Quem lhe deu autorização para ter um lobo na aldeia?

Beatriz Esteves chorou amargamente ao ver o muro do quintal em escombros. Mais uma vez, tinha tentado escorá-lo com tábuas velhas e remendar os postes podres, na esperança que resistisse até juntar dinheiro suficiente da sua pequena reforma. Mas não houve sorte o muro cedeu nesta manhã.

Há já dez anos que Beatriz geria a casa sozinha, desde que o seu querido marido, Manuel Esteves, falecera. Ele tinha mãos de ouro era carpinteiro e marceneiro de profissão, e enquanto viveu, nada lhe faltava a Beatriz. Manuel fazia tudo sem precisar de chamar ninguém. Era respeitado por toda a aldeia pela sua bondade e vontade de trabalhar. Viveram juntos quarenta anos felizes, apenas não chegaram a celebrar as bodas de rubi por um dia. A casa cuidada, a horta fartamente produzindo, os animais bem tratados tudo fruto do esforço partilhado.

O casal teve um único filho: Gonçalo, o seu orgulho. Desde pequeno habituou-se ao trabalho, nunca era preciso mandar-lhe fazer nada. Quando a mãe chegava cansada da cooperativa, já ele tinha trazido lenha, ido buscar água à fonte, acendido o forno e alimentado os animais.

Quando chegava do serviço, Manuel lavava-se e sentava um pouco à entrada para fumar, enquanto Beatriz preparava o jantar. À noite, reuniam-se à mesa, conversando sobre o dia. Eram tempos felizes.

Mas o tempo passa e só deixa memórias. Gonçalo cresceu, saiu de casa, foi estudar para Lisboa, casou-se com uma citadina chamada Filomena, e acabaram por ficar na capital. Nos primeiros anos, Gonçalo ainda vinha passar férias à aldeia, mas Filomena, com o tempo, convenceu-o a viajar para o estrangeiro. Manuel nunca entendeu a escolha do filho.

Mas onde é que o nosso Gonçalo se cansa tanto para precisar destas viagens? Deve ser a Filomena que lhe mete ideias resmungava, entristecido.

Ao pai, faltava-lhe o filho; à mãe, só restava esperar uma carta. Com o passar dos anos, o contacto foi-se perdendo. Até que um dia Manuel adoeceu, recusava comida, ficava cada vez mais fraco. Os médicos ainda receitaram remédios, mas rapidamente lhe deram alta para passar os últimos dias em casa. Na primavera, quando os rouxinóis enchiam o pinhal de música, Manuel partiu.

Gonçalo veio ao funeral. Chorou muito ao sentir que não se tinha despedido do pai em vida. Ficou uma semana em casa e voltou depois para Lisboa. Ao longo de dez anos, escreveu a Beatriz somente três cartas. E ela ficou só. Vendeu as cabras e as galinhas aos vizinhos. Para quê animais agora? A vaca mugia à porta, como sentisse a tristeza da dona que chorava pelos cantos da casa. Em dias assim, Beatriz refugiava-se na divisão mais afastada e chorava em silêncio.

Sem uma mão masculina, tudo na casa parecia degradar-se: ora pingava o telhado, ora as tábuas da entrada davam de si, ora a água inundava o sótão. Ela fazia o que podia, poupando da reforma para contratar alguém, às vezes desenrascava-se sozinha afinal, fora criada no campo.

Assim foi vivendo, com dificuldades, até que surgiu outro problema: a visão piorou subitamente, operara sempre bem. Num dia, quase não conseguia ler os preços na mercearia; passado uns meses, já nem reconhecia a placa do estabelecimento. A enfermeira que passava insistiu:

Dona Beatriz, quer ficar cega? Precisamos de a levar ao hospital para uma operação ao olho.

Mas ela tinha medo. Recusou-se a ir, e em poucos meses a visão quase desapareceu. No entanto, não se queixava.

Para quê ver? Não vejo televisão, só ouço. O noticiário basta-me. E em casa, oriento-me de cor.

Porém, temia que na aldeia circulassem agora pessoas de má índole. Viam-se assaltos em casas desocupadas, vandalismo. Faltava-lhe um bom cão para afugentar estranhos com o seu latido grave.

Pediu ao caçador local, Simão:

Não sabes se o guarda florestal tem cachorros de rafeiro? Precisava de um, mesmo se pequenino. Crio-o eu…

Simão, sempre desconfiado, respondeu:

Ó dona Beatriz, para que quer um cachorro de rafeiro? São cães para o campo aberto. Eu posso arranjar-lhe um verdadeiro Serra da Estrela, daqueles fortes, direto da cidade.

Mas esses são caríssimos…

Não é isso que importa, dona Beatriz.

Sendo assim, traga-me.

Beatriz contou as suas poupanças e achou que chegavam para o animal. Mas Simão, pouco de confiança e amante da bebida, sempre adiava a promessa. Beatriz ralhava mas, no fundo, compadecia-se dele, solitário, sem família nem filhos, só amigo da pinga.

Simão, da idade de Gonçalo, nunca saíra da aldeia, do campo; só caçar lhe dava prazer e passava dias desaparecido no mato. Quando acabava a época de caça, dedicava-se a trabalhos avulso: cavava batatas, consertava portas, punha tratores a andar. O dinheiro mal ganho desaparecia logo em bagaço.

Após cada bebedeira, envergonhado, ia para o monte. Regressava dias depois, com cestas cheias: cogumelos, frutos silvestres, peixe, pinhas. Vendia por uns trocos e voltava ao costume. Também ajudava dona Beatriz com as lides da casa, a troco de algum pagamento. Agora, com o muro caído, teve de ser ele a prestar serviço.

Parece que o cão terá de esperar suspirou Beatriz. Primeiro o muro, que nem dinheiro tenho que chegue.

Simão apareceu com o seu saco, que mexia misteriosamente. Veio ter com Beatriz, sorrindo:

Veja o que lhe trouxe! E abriu o saco.

A idosa apalpou, surpresa, uma cabecinha felpuda.

Simão, trouxe mesmo um cachorro?

O melhor dos melhores. Um serra da Estrela autêntico, minha senhora.

O cachorro quis logo saltar do saco. Beatriz inquietou-se:

Mas não tenho dinheiro para pagar dois trabalhos! Tudo o que juntei é para o muro

Agora já não o posso levar de volta, dona Beatriz! Imagine o que me custou este animal!

Sem ter como evitar, teve de ir à mercearia pedir cinco garrafas de bagaço a fiado, e a empregada registou a dívida no caderno.

Ao fim do dia, Simão deixou o muro como novo. Beatriz preparou-lhe uma fatia de carne e encheu-lhe um copo de aguardente. Simão, bem disposto, fez pouco do cachorro que dormia ao lado da lareira:

Tem de o alimentar duas vezes ao dia. E compre-lhe uma corrente forte! Vai crescer saudável e valente, conhece estes cães…

E assim chegou à vida de Beatriz um novo amigo o cão Bartolo. Logo tomou-lhe carinho, ele retribuía com lealdade. Cada vez que Beatriz vinha ao quintal alimentá-lo, Bartolo saltava, ansioso, tentando lamber-lhe o rosto. Só uma coisa a inquietava: Bartolo cresceu, chegou a ser quase do seu tamanho, mas nunca latiu. Isso preocupava Beatriz.

Ó Simão! Que aldrabão. Vendeste-me um cão que não presta nem para ladrar!

Mas não podia abandonar um animal tão dócil. Latir? Para quê. Os cães vizinhos mal o viam, nem se atreviam a abrir a boca. Em poucos meses, já estava enorme.

Um dia, Martinho, o caçador, veio à aldeia comprar mantimentos para a temporada de caça do inverno. Ao passar pelo quintal de Beatriz, travou de repente ao ver Bartolo.

Ó dona Beatriz! gritou ele. Como é que permite um lobo na aldeia?

Beatriz, apavorada, apertou o peito.

Ai minha Nossa Senhora, que tola que fui! O trapaceiro do Simão enganou-me! Disse que era puro serra da Estrela…

Martinho foi direto:

Tem de o devolver ao monte, senão qualquer dia acontece uma tragédia.

Os olhos de Beatriz encheram-se de lágrimas. Custava-lhe tanto despedir-se de Bartolo. Era um animal bom, manso, ainda que fosse lobo. Mas ultimamente ficara inquieto, puxava a corrente, tinha saudades da liberdade. Os vizinhos já olhavam de lado. Não houve escolha.

Martinho levou Bartolo de volta à serra. O lobo correu solto e sumiu entre os pinheiros. Nunca mais o viram.

A dor apertava o coração de Beatriz, que amaldiçoava Simão. O próprio Simão lamentava o desfecho, pois não o fizera por mal. Certa vez, na floresta, seguindo pegadas de urso, escutara um ganido triste, diferente do de cachorro. Chegando perto, viu uma toca: a loba morta e as crias destroçadas certamente o urso atacara ali. Só um pequeno lobo sobreviveu, escondido. Simão não resistiu, levou-o consigo e, mais tarde, entregou-o a Beatriz, achando que, ao crescer, Bartolo fugiria para o mato. Prometera substituir por um cão a sério. Mas Martinho estragou os planos.

Dias depois, Simão andava a rondar a casa, sem coragem de entrar. O inverno estava duro. Beatriz mantinha o lume aceso, tentando não gelar à noite.

Certo dia, bateu à porta um estranho.

Boa noite, minha senhora. Pode acolher-me esta noite? Ia para a aldeia ao lado, mas perdi-me com esta ventania.

Como te chamas, rapaz? Não te vejo bem, é da vista…

Bento, minha senhora.

Beatriz estranhou:

Bento? Não conheço nenhum Bento daqui…

Sou novo. Comprei casa recentemente. O carro ficou preso na lama e tive de vir a pé.

Compraste então a casa do falecido amigo Júlio?

Sim, essa mesma.

Beatriz convidou o desconhecido a entrar. Pôs água ao lume, sem reparar como ele olhava gulosamente o velho aparador, onde a aldeia escondia sempre os últimos tostões e recordações.

Enquanto Beatriz preparava uma sopa, o estranho começou a remexer nos armários. O ranger das portas alertou-a.

Que faz aí, Bento?

Foi a reforma das notas! Estou aqui para ajudar, deitar fora as antigas.

De cara fechada, Beatriz corrigiu:

Que mentira. Reforma de dinheiro aqui não houve! Quem és tu?!

O homem sacou dum canivete, apontando-o ao queixo da idosa.

Cala-te. Dá-me o dinheiro, ouro, comida!

Beatriz apavorou-se. Tinha diante de si um malfeitor, provavelmente fugido à polícia. O destino parecia traçado…

Nesse instante, a porta foi violentamente aberta um enorme lobo entrou correndo, lançando-se sobre o ladrão. Ele gritou, mas o cachecol grosso protegeu-o das dentadas. Ainda assim, esfaqueou Bartolo no ombro. O lobo saltou de lado e o assaltante aproveitou para escapar.

Nessa hora, Simão vinha ao portão, decidido a pedir desculpa. Viu um homem a fugir com uma faca e correu a socorrer Beatriz. Encontrou Bartolo estendido no chão, ferido. Percebendo tudo, depressa chamou o guarda da freguesia.

O criminoso foi preso, condenado de novo. E Bartolo tornou-se herói da aldeia. Trouxeram-lhe comida, cumprimentavam-no. Já não ficou preso, era livre. Mas todos os dias voltava para Beatriz, muitas vezes chegando a casa com Simão depois das caçadas.

Certo dia, chegaram ao portão e viram um jipe preto na rua. Alguém cortava lenha no quintal: era Gonçalo, o filho. Ao ver o velho amigo, abriu-lhe os braços.

Jantaram juntos nesse serão cheio de calor humano, e Beatriz sorriu como nunca. Gonçalo convenceu-a a ir à cidade fazer a operação aos olhos.

Se assim tem de ser… suspirou Beatriz. No verão, o neto vem cá, quero poder vê-lo! Simão, fica a cuidar da casa e de Bartolo, está bem?

Simão assentiu. Bartolo, satisfeito, deitou-se junto ao lume. Ali era o seu lar, entre amigos.

Na vida, aprendemos que, mesmo depois de muita solidão e provações, a lealdade e a bondade acabam por trazer luz e calor onde menos se espera. Tudo pode recomeçar quando nos deixamos guiar pelo coração.

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— Oh, Dona Ala! — exclamou o Matias. — Quem lhe deu permissão para criar um lobo aqui na aldeia?