O meu vizinho amava ouvir rock às duas da manhã. Comprei uma viola para o meu filho, e começámos a ensaiar escalas rigorosamente às oito horas, no momento em que o vizinho adormecia.
Sempre no meio da noite, o teto do meu quarto tornava-se inquieto, como se tivesse vida própria. Primeiro vinha um zumbido apagado, lembrando uma trovoada distante; depois, frequências graves, e os baixos faziam o cristal do aparador tremelicar numa dança nervosa ao ritmo da bateria.
O vizinho do andar de cima chamava-se Luís. Era um grande admirador de bandas como Xutos & Pontapés e Moonspell, curando eternos maratonas sonoras regadas a cerveja Sagres de duvidosa qualidade, a qualquer hora e sem restrição.
Sou de natureza pacífica. Trabalho como contabilista e crio sozinha o meu filho Manuel, de sete anos, o meu maior sonho é dormir em paz. Mas quando acordamos com uma sensação que Tim dos Xutos está a berrar mesmo ao ouvido, o pacifismo interior desmorona-se de imediato.
A primeira vez subi à porta dele por volta das duas, de robe e chinelos. Luís abriu a porta, uns trinta anos, despenteado e olhar enevoado. O cheiro a tabaco misturava-se com o rock pesado que saía do seu apartamento.
Luís, tenha um pouco de consideração disse-lhe, esforçando-me por manter o tom sereno É noite, amanhã tenho de ir trabalhar, o Manuel tem escola.
Mas qual é o problema? respondeu, genuinamente espantado, encostando-se ao vão da porta Não está alto, o som é porreiro, os baixos são suaves.
O meu candeeiro balança, retorqui.
Está bem, diminuo resmungou ele, batendo com a porta.
O silêncio durou apenas dez minutos. Depois voltou tudo ao seu normal.
No dia seguinte decidi seguir as regras: chamei a polícia. Só apareceram hora e meia depois, quando o festival já tinha acabado e Luís roncava como se estivesse em transe. Os agentes limitaram-se a encolher os ombros: Agora não há barulho. Fale com o delegado da Junta, ele conversa com ele.
O delegado apareceu mesmo, mas uma semana mais tarde.
Já falei com o rapaz informou-me ao telefone Prometeu ser mais discreto, mas sabe, as multas são simbólicas, ele não está preocupado.
E tudo continuou. Todas as noites, o mesmo ritmo de bum-bum-bum abalava os meus nervos. Comecei a tomar chá de tília, ia para o escritório com cara cinzenta e odiava aquele prédio, o Luís, e a minha impotência.
Talento precisa de incentivo
Num sábado de manhã, a ideia surgiu como um raio. Sentada na cozinha com o café, olhava as olheiras do Manuel. Também ele não dormia bem.
Mãe, posso aprender a tocar viola? perguntou, a deslizar pelo telemóvel.
Já ouviram uma viola nas mãos de um principiante? Não é música. O som é tão agudo que parece rasgar o tecido do espaço, um grito capaz de criar fissuras na realidade.
Claro, filho respondi, e pela primeira vez em semanas sorri com um instinto predador Vamos comprar a melhor viola.
Fomos à loja de música nesse mesmo dia. O vendedor, um senhor educado e de bigode grisalho, insistiu em encontrar-nos uma daquelas um quarto.
O rapaz tem ouvido? quis saber.
Tem uma motivação excelente garanti.
Estudei, em paralelo, o Regulamento do Ruído local. Nos dias de semana era permitido fazer barulho das oito da manhã, nos fins de semana um pouco mais tarde.
Luís desacelerava por volta das quatro. Mas às oito, dormia profundamente.
Segunda-feira. Oito horas. Eu e o Manuel ao centro da sala.
Vamos, filho, dó maior. Com força. E sentimento!
O que se seguiu foi indescritível: um som entre o uivo de um gato esmagado pela porta e o arranhar de unhas num quadro. A viola em modo livre ressoava pelo betão, saudando o vizinho de cima.
Após dez minutos, ouviu-se um estrondo: provavelmente Luís. Cinco minutos depois, pancadas na canalização. Mas nós não parámos: estávamos cobertos pela lei.
Às 08:20 tocou a campainha. Abri a porta. Luís em t-shirt e boxers, olhos vermelhos, rosto de quem passou por um desastre.
O que é isto?! balbuciou Oito da manhã! As pessoas dormem!
Bom dia, Luís! disse alegremente Estamos a ensaiar. O Manuel tem talento, o professor recomendou uma hora de prática diária, antes da escola.
Estão a gozar comigo? Tenho a cabeça a explodir!
Estranho retorqui, fingindo surpresa Não está alto. E o A minha casinha ontem à noite? Achei que os baixos estavam um bocadinho fracos.
Luís olhou para mim, depois para o Manuel, que segurava a viola com a determinação de um pequeno soldado.
Fazem de propósito?
É arte, Luís. Requer sacrifícios.
Paz em tom de sol maior
Durante uma semana, ensaiámos todas as manhãs, sem falhar. Ao terceiro dia, os concertos nocturnos cessaram; Luís apostava que se fosse silencioso, nós também desistiríamos. Mas o processo de aprendizagem não pode ser interrompido.
Na sexta-feira à noite, desceu ele próprio. Sóbrio, de calças de ganga e camisa.
Olha, vizinha disse cansado Vamos negociar. Não aguento mais. O som da viola ficou-me na cabeça dia e noite.
Estou a ouvir, convidei-o para a cozinha.
Sobre a mesa coloquei uma folha de papel e uma caneta.
As condições são simples. Silêncio absoluto após as 22:00.
E se tiver amigos? tentou barganhar.
E se o Manuel sentir inspiração às sete de domingo? respondi descontraída.
Ele estremeceu.
Pronto. Depois das dez, silêncio. Fechado. A viola… vendem-na?
Não. Vai continuar garanti Fica em cima do armário, sempre pronta, carregada.
Assinámos o pacto da paz sonora. E já funciona há meio ano. O Manuel já largou a viola agora dedica-se ao xadrez.
O prédio ficou tranquilo. Às vezes cruzo-me com Luís no elevador; olha para o meu filho com reverência, para mim com admiração. Ele percebeu: uma mulher contabilista, educada e discreta, com um filho disciplinado, pode ser bem mais assustadora que qualquer roqueiro rebelde.






