Ontem fui ao apartamento do meu vizinho para pedir-lhe uma furadeira. Abriu-me a porta em calças de fato de treino e t-shirt:
Entra, acabei agora o jantar.
Entrei. A casa cheirava a frango assado e estava mais limpa do que seria de esperar num sonho reluzente, até as jarras tinham flores de papel que sorriam de lado para mim. Ao centro da cozinha, no tampo da mesa, um portátil aberto e um copo de vinho tinto à meia-luz.
O meu vizinho chama-se Vasco Paiva, 51 anos, engenheiro de profissão, divorciado há doze. Vive só. Ganha uns dois mil euros líquidos.
Conhecemo-nos há uns cinco anos, desde que me mudei para este prédio em Lisboa. Nunca lhe conheci namorada nem sequer uma visita feminina à porta. Houve tempos em que pensei que era invenção minha pessoas intocadas habitando apartamentos silenciosos , mas desde então tenho-lhe reparado nos gestos: sempre só.
Devolveu-me a furadeira, despejou whisky em dois copos largos:
Já que vieste, senta-te. Há séculos que não falamos.
Sentados frente a frente, o tempo parecia abrandar, o relógio parado como numa pintura.
Perguntei-lhe, meio envergonhado:
Vasco, porque vives sozinho? Nunca procuraste ninguém?
Ele riu-se, com um sorriso envelhecido:
Procurei… à minha maneira. Mas, sabes, Leonor, doze anos sozinho ensinaram-me que assim sou mais feliz.
Como assim?
Encheu novamente, encostou-se à cadeira como se o encosto fosse um jardim, e disse:
Escuta, há seis razões. Seis pesos de chumbo no bolso. Vou-te contar.
Primeira razão o risco de se perder tudo ao separar-se
Divorciei-me há doze anos. Estive casado dezoito, com a Filomena. Temos uma filha, a Catarina, vinte e oito anos, vive no Porto.
Bebeu um gole:
A Filomena traiu-me. Descobri tudo, divorciei-me.
O tribunal dividiu o apartamento ao meio, apesar de ter sido eu a pagar quase toda a hipoteca. Resultado: vendemos a casa a deitar lágrimas, repartimos o dinheiro. Comprei este T1 que vês.
Olhou para mim com olhos de sombra:
Leonor, por causa de uma traição, perdi metade do que era meu. A lei acha normal, percebes? Trinta anos a trabalhar, e no fim, por causa da infidelidade de alguém, perdes metade da vida.
É assim o divórcio…
Exato. Agora responde-me: para quê arriscar outra vez? Suponho que conheço alguém, mudamo-nos para cá, três anos, casamos, talvez compramos um carro. E depois, se ela quiser ir-se embora? Para quê arriscar tudo de novo?
Fiquei calado. Ele continuou.
Segunda razão ninguém apoia os meus sonhos
Sabes, Leonor, tenho um desejo antigo quero comprar uma motorizada antiga, restaurá-la eu mesmo e passear pelo Alentejo ao fim de semana.
Isso é giro.
Já poupo há um ano. Mais uns meses e compro uma Zundapp dos anos 70.
Bebeu um gole de água, como para aclarar memórias:
Enquanto era casado, sonhava aprender guitarra. Até comprei uma, inscrevi-me numa escola. A Filomena disse-me: Para quê isso? Já tens quarenta anos, não vais ser o Rui Veloso. Desisti logo. Quis ir às arribas do Minho de caiaque. Ela: Tu não tens juízo! A casa ao banco e queres aventuras. Fiquei por casa.
Fitou a noite pela janela, onde autocarros corriam sem fim:
As mulheres não levam a sério os sonhos dos homens. Acham sempre coisa de criança. Agora, sozinho, faço o que quero. Quando comprar a motorizada, ninguém me vai chamar maluco.
Terceira razão autoimagem inflacionada das mulheres
Prosseguiu:
Há uns três anos, tentei um desses sites de encontros. Preenchi tudo direitinho: idade, profissão, ordenado, até o gosto pelas plantas.
E então?
Conheci meia dúzia por mensagens. Uma Teresa, quarenta e seis anos, gerente de cabeleireiro. Ganha mil e tal euros. Respondeu: É simpático, Vasco. Mas só namoro quem ganhe acima de três mil.
Riu-se, um riso agudo:
Escrevi-lhe: E você, quanto ganha? Ficou ofendida, bloqueou-me logo.
Agora é assim?
Totalmente. Muitas acham-se princesas. Vivem em casas arrendadas, ganham menos que eu, mas exigem um homem com fortuna, carro, casa, viagens às Maldivas. E depois dizem que trazem energia feminina como dote.
Acabou o whisky:
Vivo no meu espaço, pago as minhas contas. Para algumas mulheres, não valho nada por não ser rico. Para que perder tempo com quem não me respeita?
Quarta razão o lar faço eu
Perguntei-lhe:
E o lado doméstico? Não sentes falta do conforto, do cheirinho de pão quente?
Vasco gargalhou:
Leonor, olha à volta. Limpeza? Faço ao sábado uma hora chega. Hoje fiz frango e legumes, meia-hora está feito. Roupa? Lava a máquina, eu só carrego.
Levantou-se, mostrou-me orgulhosamente a cozinha:
Não preciso de mulher para o lar. Sei cozinhar, limpar, organizar contas. Sabias que muitas mulheres hoje nem cozinham? Metade só pede entregas ou come comida pronta.
Mas há boas donas de casa…
Há. Mas raras. E quando existem, querem que nós lhes paguemos tudo. Prefiro ser o meu próprio chefe de casa.
Quinta razão receio de manipulação e mentira
Deitou mais whisky:
Depois do divórcio, tive dois relacionamentos curtos. Ambas mentiram.
O quê, mentiram em quê?
A primeira, Amélia, jurava que era divorciada. Um mês depois, descubro que ainda era casada e só queria distrair-se de um marido sem dinheiro.
Bebeu:
A segunda, Graça, disse não ter filhos. Dois meses depois, afinal tinha dois, só não quis assustar-me logo.
Que filme…
Pois é. Cansaço de histórias, de joguinhos. Às vezes nem sabem que mentem acham que é proteger-se, mas para mim é cansativo. Depois admiram-se de ninguém confiar.
Sexta razão a punição por iniciativa
Vasco encostou a cadeira à parede, com um suspiro:
Há um ano tentei conhecer alguém numa livraria, em frente aos clássicos portugueses. Quarenta e poucos, bem vestida.
E?
Disse-lhe: Boa tarde. Vejo que gosta de Eça. Posso recomendar-lhe o Cidades e as Serras? Ela olhou-me como se eu fosse um assaltante, respondeu fria: Obrigada, mas sei escolher. Virou-me as costas.
Sorriu:
Hoje, qualquer iniciativa masculina é vista como assédio. Dizes olá és lunático. Mandas mensagem és perseguidor. Ofereces café és interesseiro.
Nem todas são assim…
Nem todas. Mas a maioria. Cansado de portas fechadas, já nem tento. Se uma mulher se interessar, que o diga. Não vou humilhar-me.
A minha insónia e o peso das palavras dele
Vasco acabou o copo, olhou-me de lado:
Leonor, não são todas más pessoas. Mas encontrar alguém decente é como procurar uma agulha no feno. O risco é perder tudo: dinheiro, paz, tempo.
Ergueu-se com o ar tranquilo de quem já não sofre:
Tenho cinquenta e um anos. Trabalho estável. T1 de meu. Carro. Os meus hobbies. Amigos, um prato preferido. Assim, sou feliz. Que necessidade tenho de arriscar esta calma por um amor possível que pode arrebentar-me a vida outra vez?
Vim para casa, deitei-me. No sonho, as suas frases rodopiavam como folhas empurradas pelo vento, as ruas de Lisboa tortuosas e sem saída. Tenho quarenta e nove, casado há vinte e três. Com a minha Maria tudo vai bem. Mas se estivesse sozinho… talvez seguisse o mesmo caminho do Vasco.
Talvez sim.
Será que ele tem razão viver só para ser livre das perdas? Ou é apenas medo, cobardia de evitar o desconhecido?
Será mesmo que o divórcio destrói o homem mesmo com adultério dela? Ou é exagero de quem não esquece?
Será legítimo, após os cinquenta, recusar os riscos das relações ou é só egoísmo, medo de viver?
Será verdade que não há quem apoie os sonhos dos homens ou que só escolhem as pessoas erradas?
Naquele sonho sem respostas, as perguntas ficaram a girar, como as luzes do elétrico à noite.







