Olha, tenho de te contar uma cena que me aconteceu há uns tempos, digna de filme, acredita. Então, eu ia de carrinha destas mais antigas, sabes? pela estrada nacional, perto de uma aldeia aqui no Alentejo, já de noite. No ar, aquele cheirinho bom a pastéis de batata que a minha mãe fez para o almoço e que eu levei para comer na viagem. Um mimo mesmo, nesta vida de entregas, com o país a meio de celebrar feriado e eu a trabalhar, porque havia mercadoria importante para entregar.
Ia a cantarolar, com a rádio a tocar música animada, quando, chegando perto de uma paragem de autocarro no meio do nada, vejo uma rapariga, ali parada, esticando o braço à passagem das poucas viaturas que ainda andavam por ali. Parecia gelada, tadinha. Parei logo, abri-lhe a porta.
Dá-me boleia? perguntou-me ela, quase a tremer.
Claro, então entra. Aqui já não passa ninguém a estas horas. Já estás aí há muito?
Estou, sim disse ela, e desatou a chorar, sem conseguir segurar as lágrimas.
Fiquei um bocado aparvalhado com a situação.
Aconteceu-te alguma coisa? perguntei-lhe, sem saber bem o que se passava.
Ela lá conseguiu ir contando, entre soluços:
Chamo-me Marlene. Hoje é dia de Reis e uma colega do trabalho convidou-me a ir à terra dela, ali numa aldeia perto. Ia haver jantarada, o marido dela ia assar carne e tudo isso. Disse-me para, quando chegasse, ir ao minimercado que ela vinha logo ter comigo.
Aceitei porque tinha-me separado do namorado há pouco e ela não queria que eu passasse o dia sozinha a carpir mágoas.
Lá apanhei o autocarro, convencida que ia parar em São Martinho, mas acabei por me enganar e saí numa aldeia chamada São Jorge, que era do outro lado. Dei por isso quando vi no letreiro do autocarro, mas ele já estava a arrancar. Telefonei à minha amiga e ela respondeu para eu esperar no minimercado que já vinha. Só que ali, pá, era só campo, nenhuma vivalma e a aldeia ficava longe, no meio das oliveiras. Passado bocado percebi que apanhei o último autocarro do dia… gritei para ver se ele parava, nada feito.
O tempo foi passando, ninguém passava, pensei ainda em ir a pé até à aldeia, mas decidi fazer-me à sorte e tentar boleia. Fiquei ali quase três horas à espera Se não fosses tu, nem sei
Agradeceu-me, mesmo emocionada.
Olha, tratamos-nos por tu, sim? disse-lhe a sorrir, para quebrar o gelo.
Ela acenou, com um sorriso de volta. A Marlene era mesmo simpática, nada de peneiras, genuína. Baixei a temperatura da carrinha, ofereci-lhe uns pastéis de batata da minha mãe e dividimos o jantar ela até tinha umas fatias de presunto, queijo e um pouco de chocolate preto na mala. Falámos da vida, descontraídos. Quando chegou a hora de dormir, improvisámos: ela deitou-se na parte de trás sobre as embalagens e eu reclinei os bancos da frente. Quase a adormecer, ela perguntou-me:
Ó Diogo, és casado?
Não.
Então porquê?
Olha, acabei de conhecer uma rapariga que gostei muito, mas ainda não tive coragem de lhe dizer.
Ela percebeu a piada, riu-se. Pronto, vamos dormir, que amanhã tens que fazer a entrega.
No dia seguinte, fomos na conversa, a rir ela dizia que nunca tinha tido uma aventura assim, que, no fundo, ainda bem que correu tudo mal naquele dia, porque lhe correu bem depois. E eu cada vez mais convencido de que tinha encontrado alguém especial.
Quando chegámos à cidade, antes de a deixar, pedi-lhe o número de telefone.
E aquela rapariga de quem gostaste, já lhe disseste?
Estava a falar de ti! disse-lhe a rir. Gostei mesmo de te conhecer. Gostava de combinar algo contigo, se quiseres, claro.
Claro que sim! respondeu-me ela. Foste incrível. Não me deixaste ali sozinha, foste mesmo um cavalheiro.
E imagina, em abril casámo-nos, eu e a Marlene. É das tais reviravoltas que só a vida sabe dar, parece mesmo coisa de destino.







