O Taxista que Guardava Silêncio

O taxista que permaneceu em silêncio

Tu nunca me ouves!

Atirei o prato para dentro do lava-loiça, tão forte que os salpicos chegaram ao teto. Onze anos. As mesmas palavras, as mesmas paredes. E ele, sempre, a começar com aquela frase como se a culpa fosse minha, só minha, de tudo isto.

Miguel estava encostado ao batente da porta da cozinha, braços cruzados e ar de quem, prestes a fazer quarenta, ainda discutia como um miúdo teimoso, duro, até ao fim. Eu já sabia de cor aquele rosto. Mandíbula cerrada. Olhar perdido algures. Virou-se para a janela, pronto para dizer: acabou o assunto.

Mas para mim, só agora começava.

Esqueceste-te de ligar à minha mãe a voz a tremer . Tem sessenta e três anos. Ficou o dia todo à espera. Era só uma chamada, Miguel, três minutos. Tu não conseguiste.

Esqueci-me, acontece. Estás a fazer um drama?

Acontece? Tu esqueces sempre. O aniversário dela, o nosso aniversário, até o meu, o ano passado também esqueceste?

Isso já foi discutido mil vezes. Pedi desculpa naquela altura.

Pediste, e repetiste tudo outra vez! Sou eu a lembrar-te sempre? Sou o quê, teu despertador?

Ele virou-se para mim. Olhos duros, cansados.

Tu nunca me ouves repetiu, agora mais baixo. Falo, ouves outra coisa. Cansei-me de me explicar.

Peguei no casaco do bengaleiro e procurei o telemóvel no bolso.

Onde vais?

À minha mãe.

Outra vez? Sempre para a tua mãe.

Já não o ouvi. A porta bateu atrás de mim, e o átrio do prédio recebeu-me com aquele frio húmido das noites de março em Lisboa. Os meus dedos tremiam no ecrã longos, ossudos, cheios de tensão. Chamei um táxi para Setúbal. Pagamento por multibanco. Três minutos de espera.

Esperei à porta do prédio, gola do casaco erguida, olhos presos às janelas do segundo andar. Estava gelada. E magoada. E zangada comigo, por outra vez ter deixado chegar ao grito. A luz da cozinha permanecia acesa. Ele devia continuar lá braços cruzados, à espera que eu voltasse.

Mas eu não voltava. Não esta noite.

Um carro escuro aproximou-se discretamente do passeio. Abri a porta de trás e caí no banco, sem olhar para o condutor. O ar cheirava a pinheiro um cheiro real, não daqueles ambientadores baratos. E estava tão silencioso. Nem rádio, nem GPS a falar, nem música. Só o ecrã do navegador a brilhar com o caminho traçado a azul pálido.

O condutor assentiu e arrancou.

Recostei-me à janela, olhos fechados. Só queria, pelo menos, um minuto de sossego. Não consegui. Por dentro, tudo estava a borbulhar, palavras a rebentar cá dentro. Acabara de bater com a porta. Acabara de deixar o meu marido a meio de uma discussão para ir para casa da mãe, como já o fizera umas dez vezes nos últimos três anos. E todas as vezes prometia: chega, é a última. Todas as vezes, repetia.

Será que vamos ficar sempre nisto? Até ao fim?

Desculpe disse, para o vazio do carro . Vou desabafar. Pode ser? Preciso mesmo de pôr isto cá fora. Nem que seja com um estranho.

Silêncio. Ele não respondeu. Mas também não protestou. Tomei isso como consentimento.

Estamos casados há onze anos comecei, a voz já a falhar ao segundo verso. Casei com ele aos vinte e cinco, achava que era finalmente aquilo. Que tinha encontrado alguém que me entendia. Alguém que me ouvia quando eu falava. Que não me virava as costas quando me sentia mal.

Os candeeiros de Almada passavam na janela e eu reconhecia cada um. Eram indiferentes, como todo este serão. O carro entrou suavemente num desvio e eu balancei devagar com o movimento.

E depois, tudo ficou igual. Está a ver? Cada discussão, parece fotocópia. Ele diz que eu não o ouço. Eu digo que ele não me escuta. E ambos temos razão. E ambos não temos. E não sabemos o que fazer já tentámos tudo. Falar com calma tentámos. Calarmo-nos também. Fomos a uma psicóloga o Miguel desistiu à terceira sessão. Disse: Não vou pagar para um estranho me ensinar a viver. E pronto.

Apanhei o olhar do condutor no retrovisor. Olhos afastados, castanhos-mel, tranquilos mas atentos. Olhava a estrada, mas por segundos notou-me pelo retrovisor. Sem julgar, só reparando: eu estava ali.

Continuei. Precisava de falar.

***

Sabe o que mais magoa? já nem lhe falava diretamente. Falava para o escuro, para as luzes a passar pelo carro. O que mais dói é que, na verdade, ele é bom. O Miguel. Mesmo bom. Não bebe, não sai, sempre trouxe o ordenado para casa. Quando estive doente, há três anos bronquite que virou pneumonia , não saiu do meu lado duas semanas seguidas. Fazia-me caldo de galinha mal feito, salgado, mas fazia.

O carro mudou de faixa suavemente. O GPS alterou o percurso devia haver trânsito à frente. E reparei: o GPS nunca deu som. Nunca disse vira à direita em trezentos metros. Nada. Se calhar, gostava de silêncio. Eu compreendia.

Mas ele não me ouve disse isto baixo. Não é de propósito. Ele não sabe, simplesmente. Digo: estou cansada, estou sozinha, só preciso que acenes ou percebas. E ele responde: o que queres mais, temos casa, temos o carro, trabalho.

O silêncio do carro era diferente. Não pesado nem indiferente. Era como um quarto vazio onde se pode berrar sem que as paredes julguem. Pensei: que pensamento estranho. Comparar um táxi a um quarto vazio. Talvez estivesse de rastos.

Mas sentia-me mais leve. Muito mais leve.

Discutimos com coisas ridículas. Hoje porque se esqueceu dos anos da mãe. Na semana passada, porque deixou a toalha molhada em cima da cama. Toalha molhada! Gritei como se ele tivesse vendido a casa. E ele gritou de volta: que só implico com tudo. E ambos tínhamos razão. E nenhum.

Passei a mão pelos olhos, e a maquilhagem deve ter borrado tudo, não interessa. Ia para casa da minha mãe. Ela já me viu sem maquilhagem, com a cara inchada de chorar. Ela só quer que eu apareça.

Não posso ligar à amiga. A Mariana está na terra, mal apanha rede. A Andreia o marido dela ainda está no hospital, não lhe vou ligar agora. E ligar à mãe a chorar, ia assustá-la. Fica sem dormir, acorda de hora em hora a ver o telefone. Por isso vou pessoalmente, para ver ela que estou inteira. A mãe vê-me, percebe tudo por minha cara. E não diz nada. Só põe água a ferver.

Olhei para o retrovisor. As mãos do condutor firmes no volante dedos grossos, tronco sólido. Homem forte, devia aproximar-se dos sessenta. Acenou de leve, como a concordar com algo invisível. Ou talvez a estrada o obrigasse a esse gesto.

Mas para mim, foi um continua. E continuei. Nem pensei que estava a falar com um estranho. Falava como com o espelho.

Também sou culpada. Sei disso. Eu também grito. Também digo coisas que não se apagam. Ontem disse: se calhar nunca devíamos ter casado. E vi-lhe o rosto torcer-se por dentro. E não consegui parar. Sabe, quando está a ser levado por dentro, e ouve-se a dizer barbaridades, e não consegue calar-se?

Passámos por uma bomba de gasolina. O néon dançou no interior e morreu. Lembrei-me: já lá fomos de madrugada, eu e o Miguel, buscar café à máquina, só porque sim. Só porque gostávamos de passear juntos.

Ontem, ele disse-me: Tu nunca me ouves. E dei por mim a admitir: tem razão. Só espero que ele acabe, para eu dizer a minha. Isso não é ouvir. É só esperar a própria vez. É tão diferente

Já nem chorava. As lágrimas tinham ficado algures no último cruzamento. Falava regular, quase tranquila. Cada palavra dita levava consigo um bocado do peso. E eu ficava mais leve.

E penso: talvez tenhamos medo de o outro ir embora. Por isso gritamos como se fosse impedir o outro de sair primeiro. Um método estranho de manter alguém: gritar até cansar, calar até doer, recomeçar a gritar. Um ciclo fechado. E já nem sei sair dele.

O condutor encostou-se à esquerda. Apanhei-lhe o olhar cálido, de mel. Olhou só um segundo depois voltou à estrada. Não havia pena, nem enfado, nem impaciência. Só: estou aqui.

Foi o necessário. Faltava-me isso alguém presente, só isso.

***

Sabe com o que sonhei aos vinte e cinco? sorri de forma torta. Sonhei chegar a casa e ouvir: como correu o teu dia? E queria acreditar que era sincero. Não por obrigação, nem só porque sim. Mas porque lhe importava. Porque queria saber o que penso, o que sinto, do que tenho medo. Será pedir demasiado?

O carro saiu do IC em direção a uma estrada entre pinhais. De repente tudo ficou mais escuro. Só via o vulto largo do condutor e o ecrã do GPS sempre mudo, sempre só a mostrar a linha.

Mas ele só dizia: o que é o jantar? E eu pensava: são os homens, é normal. Vai melhorar. Mas ficou pior. Devagarinho. Como a água do banho: no princípio quente, depois morna, acaba fria. E já não sabes quando esfriou.

Fiquei calada. Dez, quinze segundos. Ouvi meu coração bater forte no silêncio. Não era medo. Era alívio. Tinha contado a um estranho o que nunca contara, não à mãe, nem à Mariana. E não me envergonhava. Senti-me aliviada.

Porque ele calou-se. Calou-se mesmo. Sem tu percebes, sem conselhos, sem olhos revirados. Só ali sem interferir.

Pensei em divórcio disse, quase sussurrando. Três vezes em dois anos. Primeiro, quando se esqueceu do nosso aniversário. De manhã preparei a mesa, vesti-me, comprei vinho. Ele chegou: O que festejamos? Fugi para a casa de banho, fiquei meia hora sentada no chão.

O condutor acenou outra vez. Suave, ou parecia-me.

O segundo quando estive doente e ele ficou duas semanas a cuidar de mim, mas depois ficou seis meses a cobrar isso sempre que lhe pedia algo: Lembras-te do que fiz por ti? Fiz-te sopa! E tu nem agradeceste direito. Eu agradeci, várias vezes. Mas ele não ouviu. Ou não quis ouvir.

A terceira hoje. Quando ele repetiu: Tu nunca me ouves. E percebi que essas palavras não querem dizer nada. Como bater numa parede: dói, mas não resolve.

Mas também percebi: não me vou divorciar. Sabe porquê? Não é pela casa, nem pelo hábito. É porque me lembro de como ele pode ser. Quando não está zangado ou cansado ou ocupado, é exatamente quem eu escolhi. Sorri com os olhos. Traz-me chá à cama ao domingo. Endireita-me a gola do casaco sem eu ver.

O carro parou num semáforo. A luz vermelha iluminou o perfil do condutor. Rosto calmo, centrado, nem sombra de impaciência. Tinha a paz de quem já não precisa de pressa.

Acho que nunca aprendemos a falar. Talvez ninguém tenha ensinado. Os meus pais também gritavam. O meu pai foi-se embora quando eu tinha catorze anos. A minha mãe ficou sozinha e criou-me. Jurei que faria diferente. Que teria família. Paciência. Que seria mais sábia.

O semáforo mudou de cor. O carro seguiu. E eu pensei: pronto, outra vez a chorar.

Mas ter paciência não é calar. Paciência é ouvir e não explodir. Eu calo, calo, calo, até que rebento e tudo treme. Ao fim de tantos anos, não é paciência, só acumulação.

Olhei para o GPS. Sete minutos para Setúbal. Quase a chegar.

Não queria sair dali. Não por não querer a minha mãe. Mas porque nunca, em tanto tempo, aquele silêncio me soube tão bem. Ninguém discutia. Ninguém interrompia. Ninguém dizia: tu também tens culpa.

Só silêncio. E isso cura. Sentia-o fisicamente, como uma tensão a dissolver-se.

Acho que disse agora, em meia hora, mais do que a qualquer pessoa nos últimos anos surpreendi-me com a constatação. E não interrompeu uma única vez. Não deu conselhos. Não repetiu tentaste conversar com calma? Toda a gente diz isso, como se eu nunca tentasse. Como se eu fosse burra.

Silêncio. E fez-me bem. Deixei finalmente os ombros cair, como quem se livra de um peso.

Obrigada disse. Provavelmente está farto de passageiras como eu, que desabafam logo. Mas, de qualquer forma… obrigada.

***

O carro encostou à rua da minha mãe. Reconheci o portão de madeira pintado de verde, o poste de luz junto à porta, a janela da cozinha acesa. Ultimamente, a mãe já não se deitava cedo, dizia que gostava de ler à noite. Eu sabia: era para ficar à minha espera. Todas as sextas.

É aqui, faz favor.

O condutor travou suavemente.

Peguei no telemóvel o pagamento foi automático. Olhei para ele.

Obrigada repeti, com toda a força que pude pôr naquela palavra. Obrigada por ouvir. Sei que não tem de o fazer. Nem lhe pagam para isto. Mas acabou por fazer por mim mais do que o meu marido em três anos. Juro.

Pela primeira vez, ele virou-se de frente. Vi-lhe o rosto largo, tranquilo, olhos cor de mel. Sorriu quente. Levantou a mão, encostou-a aos lábios e apontou para mim.

Obrigada. Em língua gestual.

Fiquei estática. Ele estendeu-me um cartãozinho. Branco, letras grandes. Peguei quase sem pensar.

Condutor Tomás. Surdo-mudo. Se precisar de falar outra vez, ligue. Não conto a ninguém. Mesmo.

Olhei dele para o cartão.

Ele não ouvira. Nada, nem uma sílaba daquela hora de confissão. Nem sobre o Miguel, nem os anos juntos, nem o caldo. Nem sobre querer o divórcio. Nada.

Só guiou. E calou-se porque não podia falar. E acenava porque via os meus olhos no espelho e percebia: esta mulher precisava de companhia.

O GPS agora percebia o porquê de estar sem som. Não precisava de indicação falada. Lia tudo.

Dei uma gargalhada. Pela primeira vez em todo aquele dia a sério. Não histérica, nem entre lágrimas. Ria de espanto: a vida dá surpresas ridículas e lindas ao mesmo tempo.

Tomás sorriu e mostrou-me o polegar. Depois colocou a mão ao peito não sei o que significa em gestos, mas senti: era algo sincero e caloroso.

Saí do carro. Fiquei uns segundos junto ao portão, a apertar o cartão. Voltei-me ele ainda ali, não partira. Esperava que eu entrasse. Acenei-lhe. Ele piscou os faróis. Fiquei com um nó de gratidão, daqueles que fazem arder o nariz de tão verdadeiros.

A minha mãe abriu logo a porta, antes sequer de eu tocar.

Despacha-te, o chá está feito disse ela.

Descalcei-me, pendurei o casaco, sentei-me à mesa da cozinha aquela de toalha florida, onde fiz os trabalhos da escola e onde chorei o meu primeiro desgosto.

Outra vez? perguntou a mãe. Sem censura. Só a querer confirmar.

Outra vez, respondi.

Ela pousou uma caneca à minha frente, trouxe um frasquinho de doce de groselha do verão passado. Segurei a caneca com as duas mãos. Quente. Era só o que precisava.

Mãe, vou contar-te uma coisa que nem acreditas.

Vou tentar disse, sentando-se à minha frente.

E contei. Do táxi. Do silêncio. De como falei uma hora sem parar e ele não ouviu nada. Do cartão.

A mãe ficou só a ouvir, serena, sem comentários nem pois, nem tens razão. Só existe. Depois serviu-se de chá.

Sabes disse ela , quando o teu pai se foi embora, passei seis meses a falar para o frigorífico. A sério. Chegava do trabalho, abria a porta e falava-lhe de tudo. Salário, chefe, telhado a pingar. Ele roncava, eu falava. Isso ajudava-me.

Mãe, era o frigorífico!

O teu taxista, surdo-mudo. Que diferença? O que importa não é quem ouve. É o facto de finalmente dizeres. Enquanto está na cabeça, é como abelhas num pote: fazem barulho e não deixam sossegar. Quando contas, vai embora.

Provei o chá. Queimei o lábio. Soprei.

Disse-lhe que pensei no divórcio.

Ao Miguel?

Não. Ao taxista.

A esse podes contar. Literalmente, não conta a ninguém.

Rimos. Ali, na cozinha da casa onde cresci, rimo-nos da vida. Que o melhor ouvinte dos últimos anos não ouviu nada. E foi isso que me tirou o peso. Às vezes, a vida dá o que precisamos, mas de forma inesperada.

Agora diz-me ficou séria , pensas mesmo em separar-te?

Fiquei calada. Rodopiei a caneca nas mãos.

Não sei, mãe. Às vezes. Mas depois lembro-me de como ele me ajeita o casaco, convencido que não vejo. E percebo que não, que não quero sem ele.

Então pára de gritar e começa a ouvir disse devagar. Eu nunca soube. Perdi o teu pai por isso. Não por ser mau. Mas porque ambos fomos surdos. Não como o teu taxista, mas por escolha. Isso é pior.

Olhei para ela. Ela desviou para a janela aquele gesto de esconder sentimentos, herdado dela.

Penso nisto há vinte anos continuou. E ainda arrependo de não lhe ter dito: Fala comigo, sem gritos, sem culpas, só diz-me o que sentes. Talvez ele tivesse ficado. Talvez não. Mas eu teria tentado.

Estive calada. Não saiu nada de inteligente.

Vai dormir ao teu quarto disse com outra voz, mais leve. Já preparei a cama. Sabia que vinhas.

Como?

Sexta à noite, lua cheia. Vocês discutem sempre nessas noites.

Ia discordar, mas lembrei-me das últimas discussões. Talvez tivesse razão.

Deitei-me na cama antiga, colchão de molas aninhado. Fiquei a olhar o teto. O cartão do Tomás na mesinha. O retângulo branco, à meia-luz.

O melhor ouvinte da minha vida não ouviu uma sílaba. E a ele contei tudo o que guardei. Porque estava em silêncio. Naquele silêncio não havia julgamento, nem conselhos, nem tu tens culpa. Era só espaço. E por fim disse tudo.

Talvez não precise de resposta nenhuma. Precisava só de me ouvir.

Gostei disso. Virei-me de lado, adormeci.

***

De manhã acordei com o toque do telemóvel. Vibrou na mesa de cabeceira. No ecrã: Miguel.

Olhei o nome três segundos. Normalmente, atendo logo para ser eu a falar primeiro, tomar a dianteira, impedir que ele se justifique antes de eu dizer tudo.

Hoje atendi, em silêncio.

Leonor disse ele. Voz rouca, baixa. Não dormi. Leonor, desculpa-me.

Eu calada. E esperei.

Devia ter ligado à tua mãe. Lembrei-me o dia todo. Depois, no trabalho, distraí-me e esqueci. Não é por falta de importância. Esqueci porque sou burro. E aquilo que disse que tu não me ouves era de mim que falava. Eu é que não ouço. Tu falas, vejo só quando vais acabar para poder responder… Não é o mesmo.

Calou-se. Esperava pela minha reação. Esperava que eu relembrasse as mágoas. Ou que perdoasse. Ou atirasse algo cruel. O guião de sempre.

Mas eu sentei-me na cama, pernas cruzadas, só a ouvir. Não preparava discurso, não suspirava para falar. Só ouvia.

E ouvi. Talvez pela primeira vez em muito tempo.

Ainda estás aí? perguntou, cauteloso.

Sim respondi. Estou a ouvir-te.

Silêncio do outro lado. Depois:

É a primeira vez que respondes assim. Normalmente, falas logo. Agora estás a ouvir. É estranho, mas é bom.

Sorri. Ele não viu, mas sorri.

Vem para casa pediu. Por favor.

Venho. Mas não já. Daqui a umas horas. Quero acabar o chá.

Ele riu-se. Breve, sincero.

Está bem. Espero. Vou ligar à tua mãe, dar-lhe os parabéns, mesmo atrasado.

Desliguei. Fiquei mais um minuto a olhar o jardim ainda nu, sem folhas. Mas os botões já inchados. Março. Ainda vai tudo rebentar.

Agarrei o casaco do bengaleiro e procurei o cartão no bolso. Li de novo.

Condutor Tomás. Surdo-mudo. Se precisar, ligue.

Abri o WhatsApp e escrevi para o número do cartão: Tomás, é a passageira de ontem. Aquela que falou sem parar uma hora. Só queria dizer foi o melhor ouvinte que já tive. Não faz mal que não tenha ouvido. Obrigada.

Demorou um minuto. Três emojis: sorriso, táxi, mão aberta. E texto: Disponível para ouvir sempre. A tarifa do silêncio é gratuita.

Soltei outra gargalhada. Terceira vez em vinte e quatro horas. Muito engraçado: passas anos a gritar para seres ouvida. Depois, entras num táxi, falas uma hora, e ninguém te ouve. E é isso que te salva.

Porque, às vezes, não importa se ouvem. Importa dizer.

A mãe apareceu à porta da cozinha.

Vais tomar o pequeno-almoço?

Vou.

Fui direto à cozinha. O cartão ficou no bolso não como contacto. Como lembrete.

De que a melhor conversa da minha vida foi com alguém que não ouviu nada. Que a voz mais importante é a nossa. E que às vezes só temos mesmo de calar, esperar e deixar o outro falar. Como o Tomás fez. Como fiz hoje, ao atender o Miguel.

Tu nunca me ouves disse ele ontem.

E hoje, eu finalmente ouvi.

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