O Segredo da Felicidade… Todo o prédio espreitava pela janela enquanto uma nova família se mudava …

Receita da felicidade…

Todo o prédio observa atento enquanto a família de novos inquilinos se muda para o segundo andar. São os Soares, família do chefe de uma fábrica importante cá da nossa pequena cidade alentejana.

Mas por que é que foram escolher um prédio antigo? pergunta a dona Hermínia, reformada, às amigas no banco à sombra do plátano. Com as ligações que ele tem, bem podiam ter apanhado um apartamento novo lá para as avenidas.

Oh, mãe, não sejas assim rebate-lhe a Filipa, trinta anos, solteira, maquilhagem sempre perfeita, para quê irem gastar rios de dinheiro num T2 novo, se aqui têm uma casa de traça antiga, com pé direito alto, quartos grandes separados, uma entrada espaçosa e uma varanda fechada do tamanho de um quarto? E logo lhes puseram linha telefónica cá no prédio só há telefones em três dos sete apartamentos!

Contigo era sempre o telefone, Filipa bufa a mãe dela. Andas sempre a incomodar a vizinhança! Nem te atrevas a ir meter conversa a estes, que são pessoas de outra estirpe e ocupadas…

Deixe lá, mãe, não são assim tão inacessíveis. Eles são jovens. A filha deles, Matilde, tem só nove anos Pisca-lhe o olho, meio ofendida, são quase da minha geração, vá, ou então uns anos mais velhos.

Rapidamente todos percebem que os novos vizinhos são simpáticos e educados. A Sofia trabalha na biblioteca da escola, o Joaquim já leva uma década de experiência na fábrica.

A Filipa conta estes pormenores à mãe e às vizinhas quando se sentam à conversa no pátio ao fim da tarde.

Como é que tu já sabes isso tudo, rapariga? admiram-se as outras velhas. És uma detetive.

Simples: vou lá telefonar. Eles deixam, ao contrário de algumas pessoas de cá atira Filipa, numa alfinetada às vezes em que lhe fecham a porta na cara, pois sabem o quanto pode demorar à conversa.

Assim, Filipa ganha confiança para entrar na casa dos novos vizinhos para telefonar, seja às amigas, seja às colegas do hospital, e já não se constrange em ocupar a linha durante meia hora. Às vezes aparece de roupão, outras toda aprumada e parece realmente ansiosa por fazer amizade.

Certo dia, nota como Joaquim fecha a porta da sala onde vê a televisão quando ela chega, e isso repete-se depois. Mesmo assim, a Filipa sorri educadamente à Sofia e agradece-lhe, espreitando pela cozinha depois das chamadas, mas a Sofia só acena e pede que feche bem a porta ao sair.

Não posso fechar, estou com as mãos cobertas de farinha diz Sofia, mostrando as mãos, e a nossa porta tranca-se logo, é francesa.

Está a fazer bolos outra vez? Tanta doçaria nessa casa Eu não sei fazer nada disso comenta, meio invejosa.

São queijadas com requeijão para o pequeno-almoço. De manhã não há tempo para massas, por isso faço agora… explica Sofia, virando-se para a massa.

Filipa amua e vai-se embora, incomodada por não quererem conversar mais com ela.

Ouve, Sofia, já vi que te sentes mal a dizer-lhe que não comenta Joaquim, afinal de contas a nossa linha fica sempre bloqueada à noite com esta moça. Os meus amigos já se queixam! Isto não pode ser.

Nota-se que ela entra cá em casa como se fosse dela concorda Sofia.

Nessa noite, Filipa aparece, penteada, maquilhada, senta-se no puff do hall e tagarela ao telefone com uma amiga.

Filipa, termina a chamada, sim? Estamos à espera de um telefonema pede Sofia, ao fim de dez minutos.

Filipa acena e lá desliga, mas, logo de seguida, tira um chocolatinho do bolso: Hoje trago um miminho! Vamos lanchar juntas, para celebrar!

Dirige-se sorridente à cozinha, pousa o chocolate na mesa.

Tire daí, por favor diz logo Sofia, se a Matilde vê, perde a cabeça e ela não pode com doces: alergia. Por isso, nada de lanchinhos. Desculpe lá, mas nessa questão somos rigorosos cá em casa.

Ai, tanto faz eu só queria agradecer cora, Filipa.

Não precisa de agradecer responde Sofia, mas peço-lhe que não venha cá com frequência só para telefonar. Se for urgente, um médico, bombeiros, estamos cá. Mas de resto, percebe?

Filipa guarda o chocolate e sai sem dizer palavra. Fica a achar que a vizinha é despeitada, com ciúmes dela perante o marido.

Ela vê-se mesmo que me inveja por eu ser mais nova e parecer-se com menos idade desabafa à mãe depois, eu só queria ser amigável.

Filipa, anda cá ouvir suspira Hermínia, não se mete o nariz onde não se é chamada. Eles não querem as tuas chamadas. Ai, esta juventude… Guia-te por ti, casa-te, põe telefone próprio, talvez assim tens vizinhas a virem cá bater à tua porta.

Filipa faz mais uma tentativa de amizade: leva um caderninho e pede o famoso receita das queijadas à Sofia.

Sofia, se não se importar, podia passar a receita das queijadas? Quero mesmo aprender!

Pergunte à sua mãe, Filipa. As nossas mães sabem muita coisa. Eu cá faço tudo a olho, nunca medi nada para receitas já está automatizado. Agora não posso mesmo, vou sair. Questione a sua mãe! sorri Sofia, a despachar já.

Filipa volta a casa. Sabe muito bem do velho caderno de cozinha da mãe, folha amarelada, escrita miudinha: receitas de saladas, bifes de cebolada, canja, até bacalhau à Brás. E bolos não faltam.

Mas Filipa nunca teve gosto pela cozinha e Hermínia deixou de fazer doces por causa do colesterol e da tensão alta.

Ainda assim, Filipa pega no caderno e, sem muito interesse, acaba por dar com a receita que quer, para espanto da mãe.

Vais mesmo fazer bolos? pasma Hermínia.

Por que te gera tamanha surpresa? retruca a filha, marcando a receita.

Ora, deve andar alguma coisa com o Pedro a evoluir brinca a mãe, pensei que já tinhas acabado com ele, como com todos os outros.

Não acabámos nada. Se eu quisesse, voltava já responde, meio aborrecida.

Então volta! Já era tempo de assentar. Queres ajuda com as receitas?

Não, mãe. Estou só a mentalizar-me diz Filipa.

Poucos dias passam, e ao regressar de uma volta, Hermínia sente no ar aquele aroma quente de forno.

Que maravilha! Cheira-me a bolo aqui em casa! exclama, olha, filha, enamorada só pode ser! Nem pareces tu…

Sossega, mãe! Vem lá provar primeiro. E não é bolo, são mesmo queijadas de requeijão. À moda antiga.

Na cozinha, o bule ferve, a mesa está posta com chávenas, um prato de queijadas louras e quentinhas.

Lá jeito tens, Filipa. Pensava que tudo tinhas esquecido. Mas está óptimo! elogia a mãe.

Mas está mesmo bom ou estás só a animar-me?

Prova por ti! Isto está é delicioso responde a mãe, rindo. Filipa recorda o pai, que usava sempre essa expressão: está para comer.

Então olha, mãe, logo convido o Pedro para estas queijadas. Achas que ele vai gostar?

Vai adorar! O teu pai não podia ver queijadas que ficava logo derretido por mim ri-se Hermínia, assa, convida! Enquanto isso vou ao lado ver novela com a Deolinda. Finalmente aprendeste: os homens não se agarram só com vestidos e cabelos bonitos!

Pedro começa a ir lá jantar mais vezes. Discutem menos, Hermínia já nem estranha Filipa sempre na cozinha, e até ajuda. O riso deles preenche a casa.

Até que um dia, Filipa anuncia que ela e Pedro foram ao registo marcar o casamento. Hermínia emociona-se: finalmente…

Filipa muda: emagrece para o vestido. Pedro comenta: Já não fazes queijadas? Vais fazer empadas para o casamento?

Na véspera, preparam tudo em família: Filipa, Hermínia, e a tia Maria. Duas tardes de trabalho, mesmo esperando só uns vinte familiares.

No fim, os noivos ficam num quarto grande dos três disponíveis. Um ano depois, instalam telefone em todos os apartamentos e Filipa já só faz chamadas curtas.

Ó Madalena, não posso, tenho massa a levedar e o Pedro já vem aí despede-se no telefone.

Corre para a cozinha, onde a massa cresce no alguidar. Filipa está grávida e entra em licença dentro de semanas, mas não descansa: cozinha e faz queijadas para agradar ao marido e porque adora estas coisas feitas com requeijão caseiro, delicioso! E Pedro cada vez mais apaixonado: há lá receita melhor para a felicidade?

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