— O que é que vocês estão a fazer na minha casa de campo? Eu não vos dei as chaves, — disse a dona, surpresa à porta, ao ver a família reunida à mesa

O que é que vocês estão a fazer na minha casa de campo? Eu não vos dei as chaves, a dona ficou parada à porta, olhando para o festim da família.

Nina Antunes poupou durante doze anos para comprar a sua casinha de campo. Cada euro era guardado com cautela ora cortava gastos na reforma, ora economizava na alimentação, ora fazia uns trabalhos extra. Quando finalmente conseguiu juntar o suficiente para comprar uma casa antiga numa pequena aldeia da região de Leiria, nem acreditava que o seu sonho se tornara realidade.

A casinha precisava de muitos arranjos. O alpendre abanava a cada passo, a tinta estava toda descascada e havia montes de tralha velha deixada pelos antigos donos.

Ó mãe, tu sabes que agora estou com um projeto urgente no trabalho, disse-lhe o filho Rui, quando timidamente pediu ajuda para as obras. Talvez lá para o outono consiga.

A filha, Inês, também arranjou desculpa: Mãe, temos o nosso apartamento todo em obras e ainda tenho de levar o Tomás aos treinos, não sobra tempo nenhum. Vê lá se te safas, ou então contrata alguém.

O sobrinho Miguel nem atendeu rejeitou e mandou mensagem: «Estou ocupado, ligo depois». Nem ligou.

Nina não ficou ressentida. Já se habituara a contar consigo própria. A vizinha, Dona Mariana, sugeriu-lhe dois homens da terra o Vasco e o Sérgio que faziam qualquer trabalho por um valor simpático.

Dona Nina, disse o Vasco, examinando o terreno, a casa é boa, só está maltratada. Deixe connosco, nós pomos isto como novo.

E assim foi. Os dois trabalharam com afinco, sem preguiças. Reforçaram o alpendre com tábuas novas, pintaram toda a casa num tom alegre de azul, levaram o lixo ao eco-ponto. Nina cozinhava-lhes almoços deliciosos, oferecia chá com broas os homens trabalhavam ainda mais contentes.

Uma dona assim já há poucas, dizia o Sérgio à mulher. Dá comida, paga direitinho, ainda agradece no fim.

Depois das obras, Nina montou uma pequena estufa, comprou luzes para pendurar pela varanda, distribuiu vasos de petúnias e tagetes. Ficou um encanto, um verdadeiro refúgio. À noite, sentava-se no alpendre com uma chávena de chá, ouvindo o chilrear dos pássaros e deixando-se descansar da confusão citadina.

Os vizinhos eram pessoas simples e generosas. Mariana vinha muitas vezes beber um chá, oferecia-lhe sementes e dicas para a horta. Às vezes, o Vasco e o Sérgio apareciam só para dois dedos de conversa.

Aqui criaste mesmo um cantinho do paraíso, elogiava Mariana. Que sossego e beleza!

Mal as fotos da casa apareceram no grupo da família, a parentela entusiasmou-se.

Mãe, então quando é a inauguração? perguntou logo o Rui.

Tia Nina, podemos ir com os miúdos ao fim de semana? escreveu a nora, Patrícia.

Nina, que sítio fantástico! Isto merece uma bela celebração! não se calava o Miguel.

Na inauguração, vieram todos em alegre comitiva, a elogiar as obras, maravilhados com o aconchego. O Rui até admitiu: Mãe, foste incrível em fazeres tudo sozinha. Nós não teríamos conseguido.

Verdade, tia, está digno de revista, disse a Patrícia, tirando fotos a cada canto para o Instagram.

Depois disso, os pedidos só aumentaram.

Mãe, achas que podemos vir todos os fins de semana? Os miúdos adoram o campo, insinuou o Rui.

Oh Nina, e se viermos com uns amigos? O espaço não falta, acrescentou o Miguel.

Mas Nina recusava delicadamente. Aquela casa era o seu retiro, o lugar onde gostava de estar só, de pensar na vida. Não queria vê-la transformar-se num clube de campo familiar.

Compreendam, às vezes preciso mesmo de paz e da natureza só para mim. É a minha felicidade dizia.

A família foi aceitando, de má vontade, ainda que de vez em quando surgissem rumores no grupo: «É avarenta», «Podia partilhar isto connosco».

No início do verão, chegou a triste notícia: a tia Olinda, prima da mãe, que vivia em Santarém, estava gravemente doente. Tinha noventa anos, estava sozinha, não queria ir para o hospital.

Tenho de ir vê-la, disse Nina à filha.

Ó mãe, para quê esse sacrifício? Já nem falam há vinte anos, tentou demovê-la a Inês.

O Rui também não aprovou: Mãe, já não tens idade para essas canseiras. Vai ser só chatices.

Ainda assim, Nina foi. Encontrou a tia Olinda magrinha, muito fraca, mas de cabeça fresca. Ficou feliz da vida com a visita da sobrinha.

Ó Nininha, vieste mesmo… Eu já pensava que toda a gente se tinha esquecido de mim.

Nina cuidou dela duas semanas. Cozinhou, limpou, lia-lhe em voz alta. Olinda falava do passado, da família, das agruras do pós-guerra.

Tu és a única com coração nesta família, dizia a velhinha. Os outros só ligam quando calha e nem todos.

Quando a tia partiu, descobriu-se que Nina era a única herdeira no testamento. Era só um T2 pequenino, mas bem situado em Santarém, e algum dinheiro na conta.

Porque foste a única que veio por ela, não pelo que tinha, explicou o notário as palavras da falecida.

Nina voltou do funeral exausta e com o coração pesado. Só queria ir para o seu refúgio, recordar a tia Olinda em silêncio.

Quando chegou à casa de campo, deparou-se com gargalhadas e música. Na varanda, as luzes acesas e todos a festejar. Nina subiu devagar a escada e espreitou pela porta.

À mesa, toda a família o Rui e mulher e filhos, Inês com o marido, Miguel com a namorada. Tábua de queijos, vinho do Dão, bolo caseiro. A festa no auge.

O que estão a fazer na minha casa de campo? Eu não vos dei as chaves, perguntou Nina, gelada.

Silêncio. O Rui levantou-se, envergonhado: Mãe, estávamos… a celebrar a herança da tia Olinda. Pensámos que não te importavas.

E as chaves? interrogou, séria.

Os vizinhos deram, murmurou Inês. Dissemos que estava tudo autorizado.

Tia Nina, não fiques zangada, tentou Miguel. Somos família! Quando há alegria assim, é para todos!

Como assim para todos? sentiu a indignação a crescer dentro de si. Quando a tia Olinda precisou, onde estavam? Quando morreu sozinha, quem lá esteve? Só eu cuidei dela, só eu fui ao funeral!

Mas mãe, não sabíamos que era assim tão grave, tentou justificar-se o Rui.

Não sabiam? Disse a todos que ela estava muito mal! Mas cada um arranjou as suas desculpas: projetos, obras, afazeres… Agora, lembraram-se da família por causa da herança?

A nora, Patrícia, tentou intervir: Ó Nina, só queríamos festejar contigo…

Festejar o quê? Uma morte é alegria para vocês?

Não era isso, mãe… balbuciou a Inês.

Então era o quê? Acham que o que herdei é de todos? Que têm direito a entrar aqui sem pedir permissão?

Olharam uns para os outros sem resposta. O ambiente esfriou em segundos.

Chega, disse Nina, com toda a firmeza. Arrumem tudo e saiam. Agora.

Oh mãe, vá lá…

Agora! Ou chamo a polícia.

Saiam!

A família começou a juntar os pertences, as sobras de comida, os brinquedos das crianças. Murmuravam sobre «reação exagerada» e «ficou mesmo ofendida».

Mal a última carrinha desapareceu na estrada, Nina sentou-se no degrau do alpendre e chorou. De cansaço, tristeza, e desgosto com quem devia cuidar dela.

Meia hora depois, apareceu a Dona Mariana.

Então que aconteceu? Ouvimos barulho…

Não foi nada de especial, disse Nina, enxugando as lágrimas. Só família a visitar.

Olha, disseram-nos que tinhas autorizado as chaves. Nós, claro, acreditámos. Desculpa, Nina, não devíamos…

Mariana, não te preocupes. O erro foi deles, não o vosso.

Gente sem vergonha! indignou-se a vizinha. Aproveitaram-se da nossa boa fé!

O Vasco e o Sérgio também vieram saber o que se passava.

Se precisares, estamos por perto, disse o Vasco. Nunca fiando, esses ainda voltam.

Não voltam, respondeu Nina, agora calma. Nunca mais lhes abro a porta.

Faz muito bem, apoiou o Sérgio. Família verdadeira não é só de sangue, é a que está presente nas dificuldades.

Nina olhou para os amigos da aldeia gente honesta, que a apoiava mais que os filhos. E entendeu o que a tia Olinda quis ensinar: família é quem se importa, não quem espera bens ou dinheiro.

No dia seguinte, mudou a fechadura da cancela e pediu à vizinha para nunca mais dar chaves a ninguém da família. O seu pequeno paraíso era para continuar assim: refúgio de paz e verdadeira amizade.

Nessa noite, fez um chá forte, pegou nas fotos da tia Olinda e permaneceu na varanda, recordando a bondade daquela senhora que lhe ensinou o maior segredo da vida: a riqueza está nas pessoas que nos valorizam, não nas coisas que possuímos.

O telefone não parava de apitar com mensagens dos familiares melindrados. Nina nem quis abrir. Para quê? Tudo já estava dito.

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— O que é que vocês estão a fazer na minha casa de campo? Eu não vos dei as chaves, — disse a dona, surpresa à porta, ao ver a família reunida à mesa