O PRESENTE: Uma Noite Antes do Ano Novo, Uma Família Lisboeta, Um Menino Chamado André, Um Pai Chama…

O PRESENTE

Diz lá, filho, como foi o teu dia, como te sentes?

O pai, Augusto, que acabava de chegar do trabalho, pegou ao colo a pequena Dulcineia, a filha de cinco anos, e sentou-a no sofá ao seu lado, dando-lhe uma leve bagunçada no cabelo castanho-claro, macio como pão quente. Enquanto a mãe, Graça, preparava o jantar, Augusto conversava animadamente com a sua menina, até agora filha única e adorada. O apartamento estava cheio de um calor suave, um conforto acolhedor e português; sobre um aparador, entre a televisão a murmurar notícias e o velho armário escuro, uma pequena árvore de Natal resplandecia com luzes tricolores e penduricalhos de vidro. Faltava precisamente um dia para o Ano Novo.

Estou bem! anunciou Dulcineia com aquela convicção de quem acredita muito. Mas a minha amiga Basilia não está nada feliz.

O que aconteceu à Basilia? perguntou Augusto com atenção. Aquela que mora no rés-do-chão, certo?

Sim, essa mesmo acenou a menina com a cabeça.

No lanche de Natal no jardim-escola não lhe deram o presente informou Graça, surgindo da cozinha envolta numa nuvem de aromas de frango assado com tomilho. Coitada da rapariga… Ora, lavem as mãos, que está tudo pronto para jantar.

Não lhe deram? exclamou Augusto, surpreendido, levantando-se do sofá. Deram a todos menos à Basilia? Isso não me soa bem.

Pois, deram a todos, só à Basilia não confirmou Dulcineia, escorregando atrás do pai. A Fada do Gelo e o Pai Natal distribuíram presentes a todos, menos a ela. E ela só esperava, cabisbaixa.

Que Pai Natal e Fada do Gelo são esses que magoam uma criança? irritou-se Augusto, puxando uma cadeira para se sentar à mesa.

Não é bem culpa deles, sabes… encolheu os ombros Graça. Provavelmente a mãe da Basilia esqueceu-se de pagar a contribuição para o presente ou não tinha dinheiro nessa semana. Coisas da vida. Dulcineia, já lavaste as mãos?

Lavei, lavei, o pai estava comigo na casa de banho disse Augusto, cortando cuidadosamente o frango dourado e pondo um pedaço em cada prato. Pronto, digamos que não pagaram. Mas e a directora do jardim, aquela… como se chama agora? Dona Rita? Como é que Dona Rita deixou que a Fada do Gelo e o Pai Natal deixassem a Basilia sem presente, mesmo à frente de todos?

A Dona Rita foi a própria Fada do Gelo esclareceu Dulcineia. E o Pai Natal era o senhor Manuel da limpeza.

Mais grave então! indignou-se ainda mais Augusto. Não tinham uma prenda extra para a miúda? Nem que fosse para depois acertarem as contas. Onde se perdeu a generosidade?

Pelos vistos não tinham suspirou Graça. Eu, no lugar deles, arranjava sempre maneira de dar um presente à rapariga.

E a mãe da Basilia? insistiu Augusto. Como é que deixou aquilo acontecer, o que sentiu ela quando viu a filha ficar de mãos vazias?

Bem… começou Graça, limpando a boca Vive sozinha, o marido saiu há tempos, ou então foi ela que o pôs na rua, nunca se sabe. O nome dela é Adelaide.

Como sabes? sorriu Augusto.

Ora, a minha amiga Amália sabe tudo e todos! respondeu Graça, risonha. Ela está sempre metida nas coisas do condomínio, por isso apanha todas as novidades do prédio.

Boa, então já temos a morada continuou Augusto. Dulcineia, já comeste todo o teu presente do jardim?

Ainda não… lamentou a miúda. A mãe disse-me para não abusar dos doces.

Ela tem razão aprovou o pai. Muito açúcar não faz bem. E o saco do presente ainda está inteiro?

Está, abri com muito cuidado!

Óptimo! disse Augusto, acariciando-lhe a carapinha. Podes guardar o que sobrou noutro saco e dar-me esse, o bonito. Serve-me para uma coisa

Para quê? perguntou Dulcineia meio desconfiada, mas foi ao quarto, voltou com o saco colorido, esvaziando no tampo da mesa repleto de rebuçados brilhantes, bolachinhas com papel dourado e uns chocolates em forma de estrela.

Graça observou em silêncio e só depois falou:

Então, meus senhores, querem mesmo oferecer um presente à Basilia? E quem vai lá entregar?

É melhor tratar disso já hoje! decidiu Augusto. Concordas, Dulcineia?

Sim, sim, hoje mesmo! exclamou a menina, empolgada com a ideia. Posso pôr alguns dos meus doces para ela?

Só se não te fizer falta elogiou o pai, sorrindo.

Podemos ir juntos? perguntou Dulcineia, guardando alguns doces no saco bonito.

Já tentaste dar-lhe hoje e recusou, não foi? ponderou Augusto. Ela é, parece, muito orgulhosa. Talvez seja melhor fazer diferente

Augusto saiu do quarto e, uns minutos depois, regressou… transformado em Pai Natal! O autêntico: botas de feltro branco, casaca vermelha de brocado com renda de neve, gorro com pompom, barba farta, ceptro e um saco vermelho bordado a estrelas douradas embora vazio.

Dulcineia fitou-o em completo espanto:

És tu o Pai Natal do ano passado? E do anterior?

É verdade admitiu Augusto. Só agora te contei. Foi lá no trabalho, pediram-me para fazer de Pai Natal, e gostei tanto que repeti nos últimos três Natais. Sempre aproveito para nos alegrar aqui em casa. Gostaste tu do Pai Natal do ano passado?

Muito! exclamou a menina, apertando-se ao pai.

Graça juntou mais uns chocolates ao saco, amarrou uma fita brilhante no pescoço do embrulho, e Augusto meteu o presente no saco.

Ajeitou a barba e disse:

Então, posso ir visitar a menina Basilia?

Siiiim! responderam em coro Graça e Dulcineia.

Posso ir contigo, pai? pediu Dulcineia.

Vais de Fada da Neve? brincou o pai.

De Coelhinha! gritou a filha e correu ao quarto. Voltou mascarada de Coelhinha: fato branco, orelhas de feltro e um rabinho de pompom. Ainda tinha uma máscara de cartolina desenhada a lápis.

Ok, vamos, mas veste o casaco que está frio na rua, ainda que sejas Coelhinha do mato!

Saíram juntos, Graça quase desatava a rir ao ver o alto Pai Natal ao lado da pequenina Coelha de capuz e orelhas, arrastando o saco quase maior que ela.

Dez minutos depois, Augusto entrou sozinho, com ar atrapalhado.

Onde está a Dulcineia? preocupou-se Graça.

Descansa, ficou a brincar com a Basilia, estão animadas. Daqui a bocadinho trago-a disse Augusto, limpando o suor atrás da barba.

Sentou-se no sofá ainda vestido e desfiou o que acontecera:

Naquela noite, foram já… os sextos a levar presentes à Basilia! E, pelo jeito, não eram os últimos. Antes deles, a directora Rita dos jardins saiu da casa, visivelmente aflita, já sem disfarce de Fada do Gelo.

Pediu mil desculpas à mãe e à rapariga, queria compensar o erro contou Augusto, tirando o casaco. Alguém filmou a festa, e já puseram o vídeo no site da cidade. Em poucas horas, milhares de visualizações e comentários sentidos.

A sério? Tenho de ver isso! admirou-se Graça.

Mas o importante continuou Augusto foi que a mãe da Basilia só conseguiu pagar com atraso, por estar apertada de dinheiro…

Pois, também tem culpa, mas a vida não é fácil para quem está sozinha ponderou Graça. Podiam ter arranjado solução para a criança.

Resolveram tudo com burocracia, tiraram-lhe o presente sem pensar… lamentou Augusto. Pobre miúda, ficou humilhada à toa.

Se eu mandasse na Dona Rita, era despedida! indignou-se Graça. Gente assim não devia tratar de crianças…

Talvez até seja despedida. Ou se arrependa e mude… Não devia acontecer algo destes a quem trabalha com miúdos.

Augusto ficou pensativo, coçando a barba. Depois olhou para Graça.

Mais uma coisa: apareceu o pai da Basilia! Com presentes e ar de arrependido, quase chorava…

A sério? Que bom! animou-se Graça.

A campainha tocou Dulcineia chegou.

Então, já vens sozinha? surpreendeu-se Augusto. Eu ia buscar-te…

Que ideia, pai? Já sou crescida! protestou ela. Fiquei sem vontade de brincar.

Porquê? quis saber o pai.

Porque a mãe e o pai da Basilia andavam aos gritos, depois a chorar. Eu e a Basilia fomos ver, estavam abraçados e a chorar todos em conjunto. Pareciam doidos! Nem deram por mim a sair…

Graça e Augusto trocaram um olhar e riram-se suavemente.

Bem, vamos beber chá propôs Graça. Logo, quem não dormir vem esperar o Ano Novo. Que traga felicidade a toda a gente!

Que assim seja! desejou Dulcineia, generosa.

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