O Prazo de Validade Ainda Não Expirou

O prazo não prescreveu

Senhora, a senhora faz ideia de quem eu sou?

Cecília Maria não levantou a cabeça de imediato. Terminou de preencher o registo no livro, pôs delicadamente um ponto final e só depois olhou para a mulher que estava do outro lado do balcão da portaria.

Era uma mulher jovem ainda, talvez trinta e cinco anos ou menos. Cabelos loiros, penteados com a precisão de quem acabou de sair do cabeleireiro e talvez tivesse mesmo saído, já que o aroma forte de perfume pairava no ar e quase lhe fez lacrimejar os olhos. O casaco, de caxemira, tom camel, deixava claro o valor, visível mesmo à distância; a mala no antebraço, provavelmente custava mais do que Cecília Maria ganhava em meio ano.

Estou a ouvi-la respondeu Cecília Maria, serena.

Então porque é que não me deixa entrar? Estou à espera há três minutos.

Não tem credencial explicou Cecília Maria. Já expliquei ao seu motorista ao telefone. Estas credenciais têm de ser tratadas antecipadamente.

O meu marido aluga metade do oitavo andar! subiu o tom a mulher. A empresa chama-se Vitórias & Cia. Tem noção de quem está a falar?

Tenho sim, acenou Cecília Maria. Mas não tem credencial. Telefone ao seu marido, peça-lhe para descer ou para ligar cá abaixo, e resolvemos imediatamente.

Não vou ligar a ninguém! Sou a esposa do locatário e é OBRIGAÇÃO deixarem-me entrar!

Cecília Maria semicerrava os olhos. Observava aquela senhora sem hostilidade, apenas com a calma de quem já viu muitas situações semelhantes e se tornou imune ao incómodo.

As regras são para todos declarou, sem alterar o tom.

A mulher deu um passo à frente e, inclinando-se, disse baixinho mas de forma muito clara:

Ouça, minha senhora. Está você aqui na portaria a receber uns tostões e acha que me pode dizer o que tenho ou não tenho de fazer? Ligue a quem for preciso e abra-me a porta. Ou garanto-lhe que desaparece daqui rapidinho.

Cecília Maria esperou um segundo.

Está bem disse, estendendo a mão para o telefone.

A mulher endireitou-se, satisfeita.

Cecília Maria marcou um número, aguardou e depois disse em voz tranquila:

Senhor André Augusto, aqui é o posto um. Tem aqui uma senhora sem credencial, diz ser esposa do Dr. Vítor Moura, do oitavo andar. Fico a aguardar.

Colocou o telefone no descanso e voltou ao seu registo.

Vai demorar? perguntou a mulher.

Assim que responderem, pode entrar.

A mulher bufou, pegou no seu telemóvel e começou a escrever irritadamente, mostrando o quanto a situação a desagrava. Passaram uns dois minutos até que, vindo da zona dos elevadores, se ouviu passos. Aproximou-se um homem alto, de fato elegante, com um ar apreensivo.

Anaísa murmurou ele, com voz baixa. O que se passa?

A tua porteira não me deixa subir.

Isso é o procedimento normal, já te tinha avisado que tinhas de avisar antes…

Vítor, não tenho de avisar ninguém para visitar o meu próprio marido no trabalho.

O homem olhou para Cecília Maria. Ela limitou-se a devolver o olhar.

Bom dia cumprimentou. Esta é a minha esposa, Anaísa Moura. Pode passar-lhe uma credencial provisória?

Com certeza, respondeu Cecília Maria, abrindo o formulário necessário.

Enquanto introduzia os dados, Anaísa afastou-se ligeiramente e ficou ao telefone. Ao passar pelo torniquete, lançou por cima do ombro um seco:

Isto é uma verdadeira parvoíce.

O marido seguiu-a, desviando o olhar de Cecília Maria.

Ela observou-os seguir caminho, fechou o livro e serviu-se de um pouco de chá do seu termo. Já ia morno.

Não pensou em Anaísa Moura não diretamente. Pensou, isso sim, no facto do apelido Moura não lhe ser indiferente. Deveria ter antecipado isto.

Vítor Augusto Moura.

Cecília Maria fechou os olhos só por um momento.

Vinte e dois anos, uma vida. As pessoas mudam, envelhecem, criam famílias e negócios em andares altos. Mas certas coisas não mudam. Sabia disso bem demais.

O Centro de Escritórios Horizonte já estava na Avenida dos Construtores fazia oito anos. Vidro cinza, degraus de granito, estacionamento com segurança, cafetaria no rés-do-chão com sandes caríssimas, cerca de cinco euros cada uma. Tudo no seu devido lugar. Havia vinte e quatro arrendatários desde pequenas sociedades de advogados até grandes empresas de importação. A Vitórias & Cia ocupava quase todo o oitavo andar, pagava sempre a horas e era das melhores no edifício.

Cecília Maria sabia-o por ler todos os contratos. Lia-os por hábito: todos os contratos, atas, relatórios. Só porque sim.

Já estava há sete meses naquela portaria.

Os colegas tratavam-na bem, com o paternalismo habitual dado à senhora reformada que veio ganhar um extra. Ajudaram-na com o novo sistema informático, traziam-lhe bolos, ocasionalmente substituíam-na sem perguntas. Cecília Maria aceitava tudo com gratidão e nunca tentava convencer ninguém do contrário.

O administrador do edifício, André Augusto Simões, homem de cinquenta e dois anos, era metódico e um pouco ansioso. Cumpridor, assertivo, sabia manter os inquilinos na linha e nunca gritava. Cecília Maria observava-o com genuíno interesse. Gostava da postura dele.

Ninguém sabia no Horizonte que Cecília Maria era a verdadeira dona da empresa que geria o prédio. E não só aquele prédio, mas isso agora não vem ao caso.

Decidira assumir o posto de portaria em outubro do ano anterior, depois de uma conversa com a filha.

Mãe, tu não percebes o que se passa no terreno, dissera-lhe a filha, diretora financeira numa das empresas do grupo e sempre muito franca, como Cecília admirava. Olhas para números, tomas decisões. Mas percebes quem são estas pessoas realmente? Não vês como se comportam quando pensam que ninguém as observa.

Cecília tinha-se calado, depois perguntou:

Acreditas mesmo que não sei o que é a natureza humana?

Acredito que há muito tempo não vês isso de perto.

Na verdade, ela tinha razão, e Cecília admitiu-o, como sempre aceitava o óbvio.

Sete meses na portaria deram-lhe muito. Viu como os arrendatários tratavam as senhoras da limpeza, quem cumprimentava os seguranças e quem os ignorava. Pequenas maldades, pequenas gentilezas a vida decifrada nos seus detalhes.

Agora, o caso de Anaísa Moura.

Cecília Maria não era de decisões impulsivas. Deu-se uma semana.

Nessa semana, Anaísa Moura apareceu mais duas vezes no Horizonte. Da primeira vez, voltou sem avisar e discutiu exaltada com o jovem segurança, Eduardo, que a informou de que não constava credencial. Afinal, tinha deixado a credencial em casa. Eduardo foi sempre educado, Anaísa cada vez mais azeda. No fim, Vítor teve de descer. Cecília observou tudo do outro posto, fingindo estar atenta ao monitor.

Da segunda vez foi numa sexta-feira, ao fim do dia, enquanto a dona Judite lavava o chão junto aos elevadores. Anaísa passou por cima do chão molhado; dona Judite pediu-lhe para esperar um pouco, Anaísa virou-se e disse algo que Cecília não conseguiu ouvir, mas a expressão em rosto da empregada disse tudo.

Dona Judite trabalhava no Horizonte há seis anos, tinha sessenta e três, criava netos, nunca se queixava.

No domingo à noite, Cecília terminou a semana sentada à mesa da cozinha, chá quente e uma pasta fina de documentos à frente.

Depois ligou a André Augusto Simões.

Boa noite, André Augusto disse. Desculpe incomodar fora de horas. Pode vir amanhã uma hora mais cedo?

Dona Cecília? o espanto era visível no tom. Claro. Há algum problema?

Está tudo bem. Há só um assunto para conversarmos.

Estarei aí às oito.

Dormiu bem essa noite, sem ansiedade. Antes de fechar os olhos, ficou uns minutos a olhar o teto, pensando que vinte e dois anos pode ser muito tempo, mas algumas dívidas nunca prescrevem não juridicamente, mas humanamente.

Na manhã seguinte, subiu ao gabinete do administrador.

Simões estava sentado, expectante. Talvez pensasse que Cecília lhe viesse pedir para trocar de turno, ou que tinha alguma reclamação. Estava preparado para tudo, menos para o que ouviu.

Cecília Maria pôs-lhe a pasta à frente.

O que é isto? inquiriu.

Veja, por favor respondeu.

Dentro, uma procuração, uma certidão da empresa e vários documentos internos assinados por ela.

Leu devagar, depois olhou-a, voltou a olhar para a pasta.

Então… gaguejou. É a senhora?

Sou, sim.

E esteve estes meses na portaria.

Estive.

Houve um silêncio. Depois, muito cuidadoso, perguntou:

Posso perguntar porquê?

Pode. Queria ver com os meus olhos como tudo funciona. Não pelos relatórios, mas pessoalmente.

Simões assentiu devagar. Não havia mágoa no olhar, Cecília apreciou isso. Surpresa, respeito, talvez até admiração.

Está satisfeita com o que viu? quis saber.

No geral, sim. Faz um bom trabalho e a equipa também. Mas preciso da sua colaboração num assunto.

Estou a ouvir.

Vitórias & Cia, oitavo andar. Preciso rescindir o contrato de arrendamento.

Simões voltou a olhar para os papéis.

O contrato deles vai até março do ano que vem. Não há infração. Vai ser litigioso. Eles podem…

André Augusto, interrompeu sei bem como funciona. Quero que prepare um aviso formal de não renovação e um convite para rescisão amigável, com compensação. Damos boas condições. Mas têm de sair.

Ele entendeu. Assentiu.

Faço isso. Prazo?

Uma semana para o aviso, três meses para desocupar. Mais que suficiente.

Vão pedir explicações.

Diga que é decisão estratégica da proprietária para redefinição do espaço. Até é verdade estou a ponderar transformar em salas de reuniões.

Simões levantou-se, apertaram as mãos. Antes de ela sair:

Vai continuar na portaria?

Pensou um pouco.

Mais uns tempos, até encerrar o que comecei.

Vítor Moura recebeu o aviso na quarta. Na quinta Cecília viu-o sair do elevador, com cara de quem acabou de levar uma bofetada, e ir a correr para o parque, ao telemóvel. Na sexta, teve uma reunião longa com Simões.

Depois, o administrador relatou-lhe:

Quer explicações, diz que sempre pagou a tempo, que tem clientes e parceiros, que não consegue mudar-se em três meses. Propôs até aumentar a renda em vinte por cento.

Não respondeu Cecília.

Eu disse isso mesmo.

Boa decisão.

Imaginou que terminava ali. Moura iria encontrar outro escritório e seguir a vida, com algum transtorno mas nada de dramático.

Mas na terça seguinte, ele veio até ela. Não a Simões.

Cecília viu-o ao longe: não vinha como um homem de negócios apressado, mas como alguém que tomou uma decisão difícil.

Dona Cecília…

Ela levantou a cabeça, calma.

Olá, Dr. Vítor.

Parou. O seu sossego intimidou-o.

Posso falar? pediu.

Diga.

Olhou à volta. O átrio praticamente vazio.

Descobri quem é disse em voz baixa.

Já percebi.

Disseram-me. Não interessa quem. Quero explicar uma coisa.

O quê?

O que se passou em 1999.

Cecília pôs a caneta de lado.

Tinha quarenta e três na altura. O marido, António, ainda era vivo. Haviam começado juntos o que viria a ser o negócio de uma vida. Um armazém, dívidas, esperança. E um sócio jovem, promissor, em quem confiaram.

Vítor então era um rapaz de vinte e sete, inteligente e correto. Trabalhou um ano e meio com eles. Ensinavam-no, António tratava-o como filho.

Depois, Vítor saiu. Levou a lista de clientes, que copiou em segredo, transferiu um contrato para si enquanto António esteve no hospital após um enfarte não fatal, mas o primeiro. O segundo, mortal, veio três anos depois.

Cecília nunca ligou o falecimento diretamente à traição. Seria injusto. António já era doente, o coração fraco. Mas lembrava-se dele, depois de sair do hospital e saber o que se passara, a dizer baixinho: Não percebo, Cecília. Era como um filho.

Ela nunca esqueceu.

Diga murmurou Cecília.

Ele falou. Voz regular, discurso preparado. Admitiu ter errado por juventude, explicou que viveu com o peso da culpa desde então. Depois, hesitante:

Tenho algo que pertence à sua família. O António confiou-mas, talvez se lembre… um relógio de bolso.

Lembrava-se. Era uma peça antiga, do avô de António, que atravessou a guerra com ele. António estimava-a muito. Um dia, emprestou-a ao Vítor para o mostrar a um relojoeiro, e depois as coisas precipitaram-se hospital, separação, e o relógio ficou com ele.

Quero devolvê-lo disse Vítor. E peço-lhe que reconsidere a decisão sobre o arrendamento.

Foi direto.

Cecília olhou para ele. Para o rosto, o casaco caro, as mãos entrelaçadas. Já não jovem quase cinquenta anos, cabelos grisalhos. A vida correra-lhe bem: esposa elegante, escritório, bom carro no parque subterrâneo.

Pensou se o remorso era genuíno.

Nem ele próprio devia saber. Podia ser vergonha; podia ser só o medo de perder o espaço. Somos assim: nem sempre percebemos o que realmente nos move.

Traga o relógio limitou-se a pedir.

Ele suspirou de alívio.

Quando preferir…

Traga-o. Deixe-o na portaria. Vou buscar.

Mas quanto ao contrato…

Já está decidido.

Ficou ali parado.

Percebe para mim o que isto representa? Investi tanto naquele escritório.

Cecília respondeu com tranquilidade:

O António também investiu. Em si. Recorda-se?

Calou-se.

Traga o relógio repetiu. E não volte a tratar deste assunto comigo.

Ficou ainda uns segundos. Virou costas e saiu.

No dia seguinte, o relógio chegou. Bem embrulhado, entregue pelo segurança Eduardo. Vítor não estava.

No fim do turno, Cecília abriu o embrulho. Era mesmo aquele relógio, conhecia-o bem. A tampa arranhada, mas intacto. O mecanismo parecia funcionar.

Ficou com ele nas mãos durante muito tempo.

Depois guardou-o na mala e foi para casa.

Nas semanas seguintes, o ambiente no Horizonte esteve tenso. No oitavo andar todos começaram a comentar o boato. Uns quantos perguntaram a Eduardo e aos outros se era verdade, mas ninguém sabia ao certo.

Uma semana depois do encontro com o marido, Anaísa Moura apareceu. Quinta-feira, pouco depois do meio-dia. Cecília estava na portaria.

Desta vez, Anaísa aproximou-se devagar. O casaco era azul-escuro, o semblante também sem superioridade.

Bom dia disse.

Bom dia devolveu Cecília.

Gostava de falar.

Passe pelo torniquete, abro já.

Não. Anaísa abanou a cabeça. Quero falar consigo.

Cecília levantou uma sobrancelha, surpresa.

Estou a ouvir.

Hesitou. Via-se que não sabia pedir desculpa, mas estava ali.

Fui estúpida consigo conseguiu dizer. Daquela vez, quando vim sem credencial. Fui grosseira. Não devia.

Chamou-me de velha, disse Cecília, sem ódio.

Anaísa olhou para o lado antes de encarar de novo.

Sim. Peço-lhe desculpa.

Cecília estudou-a. Mulher crescida num mundo onde o dinheiro tudo compra. Para quem a portaria é paisagem, não pessoas.

Aceito o seu pedido, afirmou.

Anaísa acenou. Depois, baixo:

Vai mudar de ideias sobre o escritório?

Não.

Percebo.

Preparava-se para sair quando Cecília a travou:

Anaísa, espere.

Virou-se. Cecília olhou-a demoradamente.

Trabalha?

Desculpe?

Trabalha. Por conta própria, digo.

Eu… não. Trato da casa. E do meu filho.

Que idade tem ele?

Oito. Está na escola.

Então, tem disponibilidade durante o dia.

Anaísa olhava-a, sem perceber.

Tenho uma vaga no arquivo. O trabalho não é difícil, mas é importante: organizar documentos, digitalizar. Não é o que está habituada, fique já sabendo.

Silêncio.

Propõe-me um trabalho?

Proponho.

Porquê?

Cecília pensou uns segundos.

Porque veio cá, disse o que disse e não fugiu logo.

Isso é o mínimo, Anaísa enrijeceu o tom, é só educação.

Tem razão, respondeu Cecília, calma. Mas não o fez da primeira vez. Nem da segunda. Só agora que não tinha nada a perder. Isso é significativo.

Anaísa calou-se. Depois perguntou:

Salário?

O mínimo. Mas com tudo regularizado.

Longa pausa.

Vou pensar.

Fale com o senhor Simões, ele trata disso.

Voltou ao seu registo. A conversa terminou.

Em março, a Vitórias & Cia mudou-se silenciosamente do oitavo andar. Aceitaram a compensação, encontraram local na periferia, mais pequeno e barato. Diziam que perderam alguns contratos devido à mudança e ao ambiente dos últimos meses, mas Cecília nem sabia nem se importava.

Viu a mudança do terceiro andar, a pretexto de tratar de um assunto. Dois homens empurravam carrinhos com caixas, outro carregava um compartimento de vidro. O fim de um capítulo, início de outro.

Cecília tirou os óculos, limpou-os à camisola e tornou a pô-los.

Vinte e dois anos. Muito tempo.

Não sentia triunfo. Talvez esperasse sentir, mas não. Algo pesado, estranho. Como quando algo muito comprimido finalmente se solta.

António morreu em 2002, tinha cinquenta e seis anos. Ela manteve tudo, sozinha. Sem sócios, sem confiar em ninguém, devagar. Cansativo, mas rendeu-lhe muito.

Não lamentava nada, só guardava memória.

O arquivo era num prédio ao lado, também seu, um centro mais simples, sem granito. Cerca de trinta funcionários, ambiente calmo. Havia mesmo vaga, não a tinha inventado para Anaísa.

Quatro dias depois do convite, Simões informou-a:

Ela aceitou. Começa na próxima semana. Já tratei de tudo.

Obrigada.

Dona Cecília, hesitou Simões. Vai manter-se na portaria?

Cecília olhou pela janela. Avenida, céu cinzento, últimos vestígios de neve nos jardins, poucos transeuntes.

Não, disse. Já chega. Aprendi o que queria.

Que pena. Vamo-nos habituar.

Dê um abraço por mim a todos. E especialmente ao Eduardo. É um bom rapaz.

Dou sim.

Saiu discretamente do posto ao fim da semana. Deixou no fundo da gaveta o termo, uma boa caneta e um pequeno cacto. Escreveu num papel: Basta regar o cacto de quinze em quinze dias. Não quer mais nada.

Dona Judite cruzou-a junto ao elevador, já de casaco vestido.

Vai embora? perguntou.

Vou.

É pena. Calou-se. A senhora cumprimentava sempre. Todos os dias. Há quem fique cá um ano e nunca diga bom dia. A senhora, sempre.

Cecília olhou para ela.

Não é nenhuma façanha, Judite. É só normal.

Pois, devia ser normal. Mas nem todos sabem.

Despediram-se.

Cecília saiu para a rua. Havia frio, final de março hesitava em aquecer. E apertou o casaco e caminhou até ao carro, a uns quarteirões, de propósito longe: hábito, parte do que quis viver.

E soube-lhe bem ir a pé.

Pensava em Anaísa. No que dali podia sair. Nunca se iludiu: um pedido de desculpa junto à portaria não muda uma pessoa. Trabalho no arquivo também não transforma. A vida é bem menos simples do que se diz nas histórias.

Mas ela foi ter com Cecília. Disse o que disse. Um pequeno grão de mudança, talvez, ou talvez nada. Depende da pessoa.

Cecília deu-lhe uma oportunidade. Só isso.

Não lhe competia mais nada.

Chegou ao carro, entrou, pôs a mala no banco ao lado. Lá dentro, o relógio. Depois de uns meses, levou-o até ao relojoeiro. Funcionava perfeito.

Bom relógio. Robusto.

Ficou uns minutos sentada, sem ligar o motor. Observava o edifício pela janela. Reflexos cinzentos espelhavam as nuvens.

Sete meses a observar pessoas, livros, telefonemas, chá. E neles aprendeu mais sobre o ser humano, sobre o seu trabalho e sobre si própria do que nos anos de gabinete e relatórios.

A filha tinha razão.

Pegou no motor.

Ia para casa, pensando que o que é ético raramente é agradável, muito menos desenhado como nos livros. Moura devolveu o relógio porque queria o escritório. Anaísa pediu desculpa porque soube finalmente a quem se dirigira naquele dia. Haveria algum fundo verdadeiro por trás do cálculo? Talvez. As pessoas são assim: misturam sentimentos, medo e culpa, e muitas vezes nem sabem ao certo o que pesa mais.

Isso não as faz más. Faz delas pessoas.

Ela própria nunca foi anjo. Rescindiu o contrato não só pelo que Anaísa dissera à dona Judite. Também por serem os Moura e porque 1999 nunca lhe saíra da memória.

Perdoar é deixar ir. E deixou. Mas lembrar também é humano.

Em casa, calma e calor, a filha telefonou ao final do dia. Conversaram longamente, sobre coisas do dia, planos para o verão, o neto que daqui a dois anos iria para a escola.

Como está o turno? perguntou a filha no fim.

Já terminou respondeu Cecília. Fiz o que tinha a fazer.

Então, o que aprendeu?

Cecília pensou.

Que as pessoas são como parecem. Nem melhores, nem piores. Que a dignidade não depende do dinheiro ou do cargo. Já sabia, mas tinha-me esquecido.

Mãe, às vezes pareces um livro riu a filha.

É da idade brincou Cecília. Já mereço.

Despediram-se.

Cecília guardou o telefone, foi até à janela. A cidade seguia o seu curso: luzes nas janelas, gente a passar com sacos das compras, um autocarro. As grandes verdades da vida aparecem assim, sem brilho: só uma noite, uma janela aberta, um pensamento tranquilo de que se fez o certo.

Não o perfeito, mas o certo.

São coisas diferentes, e aprendeu a não as confundir.

Na terça, Anaísa começou no arquivo.

Simões enviou-lhe um recado: Começou. Por agora, tudo calmo. Respondeu: “Obrigada”.

O que seria feito de Anaísa, não sabia. Talvez aguentasse uma semana e desistisse; talvez um mês e percebesse algo de si; ou nada aprendesse mas, pelo menos, começasse a cumprimentar quem ganha menos.

Cecília não esperava milagres. Deu-lhe uma chance, simples, sem garantias, nem promessas. O resto não era consigo.

Nunca mais viu Vítor Moura.

O relógio ficou na estante da sala, junto à fotografia de António. Era o lugar deles.

Foi esse o destino de uma mulher, começado há muito num pequeno armazém com telhado a pingar marcado por perdas, superações, traições e solidão. E ali estava, aos setenta, na sua casa, com uma chávena de chá, observando o entardecer. O neto prestes a entrar para a escola, a vida a avançar ao ritmo normal.

Chama-se vida.

Não é parábola de bem e mal, nem conto de vingança ou lição. É vida, cheia de imperfeições, contas, débitos; com quem comete erros e paga, e com quem faz o bem e recebe em troca coisas diferentes.

Cecília Maria bebeu o chá, afastou-se da janela, foi para a cozinha preparar o jantar.

Tinha uma reunião no dia seguinte sobre o novo projeto. O oitavo andar estava vazio e pensava fazer lá salas de reunião com bom isolamento e café decente. Era importante, era o correto, e tinha energia e planos para isso.

Enquanto cortava cebola, pensava como as verdades mais simples parecem óbvias, mas só até ver como tanta gente passa a vida a tratar porteiras como móvel, faxineiras como se fossem invisíveis, e gente humilde só como cenário.

E chega o custo, mais cedo ou mais tarde às vezes discretamente, numa carta, às vezes numa conversa que nos persegue dias inteiros.

A cebola fazia arder os olhos.

Cecília Maria limpou discretamente uma lágrima e continuou a cortar.

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