O Novo Começo de Rute e Jorge: Como o Amor e a Esperança Floresceram Entre Azulejos, Solidão e as Du…

Oh senhor, não se empurre, sim? Credo. Esse cheiro vem de si?
Desculpe murmurou o homem, afastando-se um pouco.
Ainda segredou qualquer coisa, com ar aborrecido e triste. Estava ali parado, contando moedas pequenas na palma da mão. Se calhar faltava-lhe para comprar uma mini. A Margarida olhou-lhe para a cara com mais atenção. Que estranho… Não parecia bêbado.
Senhor, desculpe, não era minha intenção falar assim por algum motivo, não conseguia simplesmente virar costas e ir-se embora.
Está tudo bem.
Levantou os olhos para ela, azuis, intensos, como há muito não via em ninguém. E parecia ter a idade dela, pelo menos mais ou menos. Fogo… olhares daqueles nem na juventude cruzava.
A Margarida pegou-lhe com a mão pelo braço e puxou-o para um canto, fora da pequena fila para a caixa do supermercado.
Passa-se alguma coisa consigo? Precisa de ajuda? perguntou, esforçando-se por não franzir o nariz.
Finalmente percebeu de onde vinha o cheiro: era só suor velho, daqueles que já se entranharam na roupa. Ele ficou calado, meteu as moedas no bolso e não sabia como lhe dizer a VERDADEIRA razão de ali estar. Era estranho aquilo… contar tamanha coisa a uma mulher, desconhecida, tão composta e vestida com tanto gosto.
Chamo-me Margarida. E o senhor, como se chama?
António.
Precisa mesmo de ajuda? disse ela, sentindo-se quase a impor-se ao homem.
Afinal, estava ali a meter-se com um sem-abrigo qualquer… E ele, sério, olhou para ela de relance, só com aqueles olhos de mar, depois evitou encará-la. Pronto, podia ir à vida dela, já tinha feito a boa ação do dia… Estava prestes a sair dali quando ele, finalmente, arriscou:
Preciso de trabalho. Não sabe de nada aqui no bairro? Coisa de obras, ou de ajudar em casa, sei fazer um pouco de tudo, mas não conheço ninguém aqui desculpe incomodar.
A Margarida ficou calada, ouviu-o até ao fim. António começou a falar para o chão, quase envergonhado. Ela pensou se valia ou não a pena deixar entrar um estranho em casa Por acaso estava mesmo a precisar de substituir o mosaico da casa de banho. O filho tinha prometido tratar disso, dizia sempre que não era para contratar operários manhosos, só que nunca tinha tempo, o trabalho não dava tréguas…
Sabe assentar mosaico? perguntou ela, de repente.
Sei.
Quanto é que pede pelo WC, são 10 metros quadrados.
O homem ficou calado por um instante, parecia assustado com o tamanho da casa-de-banho.
Tinha de ver mas, sinceramente, pago o que quiser.
O António fez o trabalho com um cuidado e precisão que a Margarida nunca imaginara. Antes de começar, perguntou se podia tomar um duche ela até agradeceu ele ter pensado nisso. Só esperava é que não lhe deixasse lá nenhuma doença estranha. Deu-lhe umas roupas do falecido marido, as dele pôs a lavar. E durante o fim de semana inteiro, António trabalhou sem descanso: arrancou a velha azulejaria e limpou tudo, deixou as ferramentas arrumadas e limpas como mandava o bom senso. Usava um talhador e um alinhador como quem já sabe do ofício. No domingo à noite, a nova casa-de-banho brilhava. A Margarida estava nervosa; sentia-se desconfortável com a ideia de o António ser sem-abrigo, mas também não o queria pôr na rua de noite. Não fazia ideia o que era correto fazer.
No sábado mal conseguiu dormir, fechou-se no quarto e ficou de ouvido à escuta, mas ele, exausto, dormia no sofá da sala.
Venha cá ver, Dona Margarida! chamou ele.
E, de facto, o trabalho estava irrepreensível.
António, e o senhor é o quê, de profissão? perguntou ela, admirando a casa-de-banho.
Professor de física. Licenciei-me em Coimbra.
Ai sim? Física? E o mosaico?
Um homem que se preze tem de saber fazer estas coisas. Ao menos eu acho isso…
A Margarida assentiu, tirou do bolso a quantia que tinha separado para o pedreiro. Não foi forreta pagou aquilo que já tinha aceite pagar a outra empresa. O António aceitou o dinheiro, nem olhou, meteu ao bolso e começou a calçar-se. Já trazia as próprias roupas vestidas, que secaram entretanto.
Espere! Então, vai embora assim, sem mais nem menos? disse ela, quase indignada.
Porquê? e voltou-lhe a olhar com aqueles olhos azuis incríveis.
Ao menos venha comer. Trabalhou o dia inteiro, só quis chá, nem sequer parou para comer.
António hesitou, bateu com o pé no chão.
Olhe, não digo que não. Muito obrigado.
O jantar foi um bacalhauzinho à brás, que ela aquecera só para ela, porque raramente comia depois das seis. Mas, com ele, a conversa era tão leve que nem deu pelo tempo passar. António era simpático, boa pessoa, com um brilhantismo discreto, mas estava de alguma forma… perdido. Aquele ar de quem estava fora do lugar nunca o abandonava, nem depois do banho, nem na conversa. Talvez só o tempo mudasse isso.
António posso perguntar, afinal, o que se passou consigo?
Ele hesitou antes de responder:
Olhe, se começar a contar vai soar heroico, pateta, forçado. Há oito anos ouvi histórias assim, muitas. Só que a minha foi mesmo real. Para quê contar-lhe isso?
Só estranho, sabe um homem como o senhor, estar nesta situação
António olhou-a muito sério e, um pouco atrapalhados, levantaram-se ao mesmo tempo da mesa. Tropeçaram um no outro, e o resto Bom, acontece. Margarida nunca pensou, aos cinquenta e três, sentir uma coisa assim. Achava que a paixão era coisa de jovens. Mas era uma paixão séria, avassaladora.
Depois explicou-lhe, com tempo, que há oito anos se metera a ajudar um aluno, um miúdo inteligente mas de família problemática, que se deixou arrastar por más companhias. O rapaz queria sair daquela vida, mas não conseguia. E então, o professor António tentou negociar com o cabecilha da má companhia, um tipo de vinte e dois anos sem escrúpulos. Nem tempo de falar houve atiraram-se logo a ele. Mas António, que sempre fez judo, varreu metade deles facilmente. Só que, numa dessas, o pior de todos bateu com força contra uma parede e partiu a coluna. Morreu. António ligou ao INEM e à polícia, convencido de que o máximo que lhe podiam acusar era excesso de legítima defesa. Mas deram-lhe doze anos de cadeia.
E lá dentro também há gente a viver disse, apenas.
Saído da prisão dois anos antes do tempo, pela boa conduta, não encontrou ninguém à espera. A mãe morrera e vendera a casa antes, tendo ido viver para casa de um irmão. A cunhada avisou logo:
Aqui em casa não quero ex-reclusos.
A mulher já se tinha divorciado dele e voltado a casar. António tinha tentado a sorte em Lisboa, mas nada lhe corria bem. Queria um emprego a sério, mas ninguém o queria com aquele cadastro. Ia oferecendo-se para pequenas obras entre os vizinhos, mas era sempre recebido com desconfiança e algum nojo. Chegou a dormir na rua porque um conhecido lhe pediu para não abusar mais da hospitalidade.
Já faz muito? perguntou a Margarida, enquanto via a ponta do cigarro a brilhar.
Ah vai para duas semanas.
O tabaco era dela; tinha comprado aquele maço porque, de cinco em cinco anos, dava-lhe para fumar uns cigarros. António até quis ir comprar dos dele, mas ela não deixou. Pensava agora, ali na penumbra, o que seria andar na rua duas semanas inteiras.
Na intimidade daquela noite, António sincerou-se. Acabou por partilhar a cama com ela. Não valia a pena esconder.
E tens documentos?
Tenho, claro. Falta é a morada, o resto dos problemas vêm disso.
António ficou. Tudo correu melhor do que ela podia imaginar. A Margarida arranjou-lhe uma morada provisória para se inscrever, ele conseguiu logo trabalho não como queria, mas para início era bom: vendedor numa casa de ferramentas funcionava. Aos fins de semana, com o horário em turnos, começou a dar explicações de física e até foi ganhando mais alunos. Assim passaram dois meses e meio, no meio da paz e até alegria, até que o filho da Margarida veio visitá-la. E, ao perceber, chamou-a para fora de casa:
Tu despacha-te e manda embora o homem, está bem?
O quê? apanhou-a completamente desprevenida.
Nunca se tinham metido assim na vida um do outro.
Ouviste. Não precisas de um pobretanas desses. Não vês porque é que ele anda contigo? É porque está à rasca. És uma ingénua!
A Margarida, sem pensar, deu-lhe uma bofetada.
Não te atrevas! Não te metas na minha vida.
Mãe, não te esqueças. Eu sou o teu herdeiro. E não quero dividir nada com homem nenhum. E se te casas com ele? Se te acontece algo ele fica com tudo.
Então já me estás a enterrar? perguntou Margarida, magoada. E tu pensas herdar o quê? Eu ainda sou rija!
Mãe, não me forces a agir mal. Não vos vou dar descanso. Tenho de defender os meus interesses. Se tivesses arranjado um homem decente e com dinheiro, não te dizia nada. Agora
Então para ti um homem decente é só pelo dinheiro? Foste assim tão mal educado por mim?
Eu já disse tudo. Daqui a uma semana venho cá, não quero esse senhor aqui. Depois não te queixes, foste avisada.
A Margarida entrou em casa, a engolir as lágrimas.
Ele é polícia, não é? perguntou António.
Desculpa não te ter dito
Não tinhas de o fazer. Não te preocupes.
É investigador no Ministério Público. É bom rapaz, mas muito desconfiado. E preocupa-se comigo.
E agora? perguntou António, atento.
A Margarida sentou-se à mesa. E agora? Não sabia. Sabia só que o filho era capaz do que disse. Até de o António meter outra vez na cadeia, se fosse preciso. Não queria acreditar que o filho era capaz, mas já não conhecia totalmente o homem em que se tinha tornado.
Olha primavera está aí disse António. Não pensaste ainda? Deixa então eu sugerir.
Ela assentiu, cheia de lágrimas nos olhos. Não queria despedir-se de António, mas também não queria arriscar o futuro dos dois, pelo confronto com o filho.
Juntei uns trocos. Não chega para um terreno aqui, mas a uns vinte quilómetros já dá. Montamos uma casinha provisória, e começamos a construir devagar. O meu trabalho de explicador continua, e com jeitinho trato de tudo. Eu próprio construo a nossa casa. O que dizes?
Margarida ficou sem fala. Ele ficou ansioso.
Eu sei que estás habituada a outra vida, mas é só temporário. A seguir construo-te uma casa com todo o conforto.
Olha, eu também tenho umas poupanças. Posso ajudar na construção disse, pensativa.
Não me atrevo a pedir-te isso.
Nem pedes. Ofereço eu. É para nós.
O António chegou-se a ela, sentada na cadeira, abraçou-lhe a cabeça e deu-lhe um beijo carinhoso na testa. Margarida sentiu-se protegida, amada como nunca. Quem diria que esse sentimento chegava nesta idade
Trataram logo das papeladas, compraram o terreno. O António insistiu que a casa ficasse no nome dela, ela recusou.
Eu já tenho bens, não quero que aches que te estou a usar. E tu não tens nada, não aceito, tenho um herdeiro, lembra-te? disse, gozando com as palavras do filho.
Montaram o pré-fabricado, meteram eletricidade, e António arregaçou as mangas para começar a casa. As poupanças da Margarida não chegaram, e ele lançou-se ainda com mais afinco nas explicações de física. Arranjou um cantinho onde ninguém via que o professor dava aulas desde uma pré-fabricada. Todo o dinheiro investiram ali, pedra sobre pedra. Nas noites quentes de verão, deitavam-se na relva, de olhos postos nas estrelas.
O que é que estás a sentir? perguntava o António, abraçando-a.
Sinto um novo fôlego de vida respondia ela.
Quem sente um novo fôlego sou eu! Tu tens é de sentir o meu amor.
Ela sentia. Sentia sim.
Um dia foi buscar coisas a casa, já era outono, precisava de roupa quente, cobertores, alguma loiça. Quando chegou, encontrou o Dinis, o filho, sentado na cozinha, a fumar.
Olá filho. Vim só buscar umas coisas. Está tudo bem?
Ele olhou de lado para ela, espantado com a mãe: bronzeada, elegante, feliz.
Mãe, o que é que se passa? Não atendes o telemóvel.
Pois… tu nunca telefonas, estás sempre ocupado, ligo eu para quê?
E porque é que deixei de te encontrar por casa?
Não vivo aqui agora. Só vim buscar umas coisas, posso?
O Dinis ficou sem resposta. A mãe estava diferente. Não só por fora. Parecia… mais leve, feliz.
Olha, quando acabarmos a casa, claro que te convido. Por agora, desculpa, não tenho tempo.
A Margarida já enfiava roupa nas malas, às voltas com as coisas dela. Beijou o filho na cara e apressou-se.
Mãe… mas o que tens?
A Margarida virou-se à porta, sorriu-lhe e respondeu:
Fôlego novo, Dinis. E amor, claro. Muito amor! Até logo, filho e saiu a rir de casa.
Nem tempo havia para mais, que nesse dia iam montar o alpendre.

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