O Natal Surpresa de Oksana: Uma Viagem de Comboio, Sonhos Misteriosos, um Encontro Inesperado e o Re…

Recordo como se fosse ontem, embora já tenham passado tantos anos. Naquele Natal, Lourdes decidiu ir visitar a mãe e a irmã mais nova em Coimbra. Quis surpreendê-las e, por isso, não disse nada a ninguém sobre a sua chegada. Caminhou com passos leves até à antiga casa da infância e bateu à porta, com o coração acelerado. Nem bem uns segundos se passaram, a porta abriu-se de rompante e a pequena Rosa, a sua maninha, saltou-lhe para os braços, os olhos brilhando de alegria. O dia voou, tão natural, repleto daquele frenesim que só os preparativos natalícios podem trazer. Enquanto Lourdes e Rosa cortavam legumes para as saladas típicas, Dona Maria, a mãe, punha no forno o tão adorado lombo com batatas, receita que Lourdes amava desde menina.

Já pressentia que ias aparecer sorriu Maria, olhando para Lourdes por cima dos óculos. Ontem, nem sei bem porquê, trouxe mais ovos do mercado. E até um bolinho extra, como quem espera mais um lugar à mesa. Julguei que vinhas acompanhada. Depois do episódio com o Daniel, nunca mais te ouvi falar de ninguém disse, com aquela voz doce, mas cheia de curiosidade materna.

Não, mãe Por favor, não vamos por aí respondeu Lourdes, fugindo ao assunto. Nesse instante, o seu telemóvel tocou, rompendo o silêncio com uma vibração inesperada.

Como era difícil gostar do Natal! Pensava nisso recostada na cadeira do escritório, a terminar o relatório anual. Por um lado o Natal aquecia-lhe o coração; por outro, só trazia stress: contas, orçamentos, fechos, revisões Amanhã seria finalmente o último dia de trabalho e Lourdes suspirava só de imaginar poder descansar duas semanas seguidas. Sentia-se esgotada pelo esforço daquele mês.

O chefe prometera que, se o parecer da fiscalização estivesse impecável, ela poderia sair de férias até Dia de Reis, sem mais preocupações. Por isso aplicara-se mais do que nunca: queria mesmo mimar a mãe e a Rosa. Amanhã ainda precisava passar na Baixa para comprar o presente de Dona Maria. Para Rosa já tinha um telemóvel novo, guardado no fundo de uma gaveta.

Comprara o bilhete de comboio logo no início do mês, para não arriscar. Lugar em baixo no compartimento, só para prevenir. Se o chefe não me der folga, vendo pensou, rindo-se para si mesma.

Nessa noite, Lourdes sonhou com uma cena estranha. Estava num bosque perto de Viseu e ali, sentada num tronco, via uma menina de cinco ou seis anos, sozinha, a folhear um velho livro de histórias. Lourdes aproximava-se e perguntava:

Perdeste-te? Onde estão os teus pais?

E a menina respondia:

Não, eu ainda não me encontrei. Mas levanta-te, não percas o destino que vais encontrar ao entardecer. Vai, despacha-te, tens um relatório para entregar!

Lourdes acordou sobressaltada, os olhos abrindo-se antes mesmo do despertador tocar.

Valha-me Deus! Estava quase a adormecer demais, hoje logo hoje! exclamou levantando-se num pulo. Era a manhã agitada da última fiscalização, à qual não podia faltar por nada deste mundo.

Voou pela casa, em poucos minutos já preparava as últimas pinceladas de maquilhagem leve. O café ficou para tomar no escritório; vestiu o sobretudo, pegou na pasta e foi a correr para a paragem, feliz por o autocarro ter lugar livre logo nas primeiras paragens.

Sentou-se, ajeitou os pensamentos e, de repente, viu à frente uma menina tal como a do seu sonho, sorrindo-lhe e piscando-lhe o olho. No mesmo instante, alguém tropeçou nela um rapaz de mochila ao ombro, apressado.

Olhe o caminho! ralhou Lourdes, mas ao erguer os olhos de novo, a menina já não estava lá.

Ora, devo estar mesmo cansada para começar a ver coisas pensou, balançando a cabeça e ajeitando a mala.

O escritório já fervilhava de movimento. Lourdes mergulhou no trabalho e, perto da hora de almoço, finalmente entregou o relatório, impecável, sem uma única nota do chefe. Ele chamou-a ao gabinete.

Uma mulher de palavra, Lourdes. Cumpriste o prometido. Estás de férias até ao Dia de Reis. E, para premiar o teu esforço disse ele, entregando-lhe um envelope fica aqui um pequeno extra. Boas festas.

Obrigada, Sr. Manuel, Festas Felizes também para si! respondeu ela, emocionada.

Com o bónus, Lourdes comprou uma linda echarpe à mãe e para Rosa uma blusinha nova. Arranjou ainda umas iguarias, um vinho do Porto, e às sete e meia já corria, de mala em punho, pelo corredor do comboio. Ao entrar no compartimento, tropeçou numa mochila esquecida e caiu no corredor, estatelando-se ao comprido. Continha o pranto de vergonha, mas sentiu mãos amáveis a ajudá-la a levantar-se.

Peço imensa desculpa. Fui eu quem deixou a mochila fora do lugar disse um jovem com voz simpática e sorriso aberto.

Não se preocupe murmurou Lourdes, atrapalhada, sentindo o rosto afogueado.

Ao instalarem-se, percebeu que ele era o seu companheiro de viagem no compartimento. Era alto, simpático. Lembrou-se das palavras da menina do sonho: Ao entardecer encontrarás o teu destino…

Será ele? Não recusaria um destino assim pensou, sem se atrever a dizer em voz alta.

Ele prontificou-se a ajudar, arrumou-lhe a mala e convidou-a a sentar-se. Chamava-se Frederico e, por acaso, viajaria também para Coimbra, em negócios, apenas para uma reunião.

Uma noite de comboio, amanhã volto para Lisboa a tempo de festejar o Natal. E você, se não se importa de perguntar?

Vou para casa, ver a mãe e a irmã. Deram-me uns dias de férias no trabalho. Já tinha saudades.

Marido? Namorado? perguntou ele, a sorrir.

Nada disso. Ainda não encontrei quem me fizesse perder a cabeça a tempo de virar o ano e ficar para a vida gracejou Lourdes.

O mesmo comigo respondeu Frederico. Também procuro alguém que caiba para sempre na vida.

Por pouco Lourdes não disse: “És tu o meu destino, a menina do sonho avisou-me!” E corou logo de seguida ante as suas próprias ideias.

Quando cora, torna-se ainda mais encantadora comentou Frederico. Parece uma maçã do outono, daquelas bem vermelhas.

Ora, não diga disparates, fico sempre embaraçada nestas ocasiões… disse Lourdes.

Bem, que tal um chá? A minha mãe fez-me bolo de maçã e pediu que o partilhasse com os vizinhos de viagem.

Nesse instante entrou uma senhora idosa com um neto e, para eles se instalarem, Lourdes e Frederico saíram para o corredor. Dona Elvira levava o neto a passar o Natal com a filha noutra cidade, porque o trabalho não lhe permitira tirar férias. Mais tarde, todos juntos, partilharam chá, bolo e bolachinhas, histórias e risos.

Quando a noite se fez mais cerrada, Lourdes e Frederico foram apreciar, pela janela do comboio, as luzes natalícias das aldeias a passar. Frederico perguntou, encostando-se ao vidro:

Posso pedir o seu número? Se não se importar, claro…

Não me importo nada sorriu Lourdes.

E volta quando?

No dia dez. Vou ficar um bom tempinho

Que bom. Sabe? É curioso Falámos como se já nos conhecêssemos há anos. É tão fácil estar consigo…

Talvez seja isso a magia das viagens. Encontramo-nos, partilhamos sonhos, e seguimos caminhos diferentes respondeu Lourdes.

Talvez Então, vamos dormir?

Lourdes assentiu, sorrindo.

O comboio chegou a Coimbra às dez da manhã. Lourdes, sempre dada a surpresas, não avisara ninguém. Sabia bem onde estavam escondidas as chaves suplentes, caso a casa estivesse vazia. Despediu-se de Frederico já no táxi, desejando-lhe um Feliz Natal. Ele devolveu a gentileza, desejando-lhe que encontrasse alguém com quem quisesse ficar para sempre.

Sorriam ainda, quando o táxi arrancou em direções contrárias. Lourdes ficou a pensar nele. Sim, gostara mesmo de Frederico. Mas nunca foi rapariga de se impor a alguém, por mais que lhe apetecesse pedir-lhe que ficasse: “Fica, celebra o Natal connosco, e depois vemos o que o destino nos reserva”, queria ter dito. Mas afastou esses pensamentos, com a leveza de uma criança que afasta uma mosca.

Preparava-se já para entrar de surpresa em casa, com o coração aos pulos. Aproximou-se da porta, tocou devagar e, de repente, a Rosa apareceu com um enorme sorriso. O dia foi um reboliço: entre conversas, brincadeiras e a mãe confecionando o lombo tão especial, era quase como se o tempo tivesse parado.

Nem imaginas, Lourdes! Ontem comprei ovos a mais, só por intuição Senti que vinhas. Só achei que podias trazer companhia. Desde Daniel, nunca mais te vi com ninguém.

Mãe deixa estar isso para lá.

De repente, o telemóvel de Lourdes vibrou. Ela olhou para o visor e quase deixou cair o aparelho de espanto. Frederico.

Olá, já chegaste bem? perguntou, tentando disfarçar a ansiedade.

Ora, como te hei de dizer não, não cheguei ainda. Só te queria perguntar o único contacto que tenho nesta cidade és tu. Achas que podias acolher um viajante solitário na tua Ceia?

Lourdes soltou uma gargalhada.

Ó rapaz, deixe ver com a dona da casa! Mãe, aceitas que o meu amigo venha cear connosco? Ficou retido por cá sem bilhetes

Claro! Um cavalheiro vai animar esta casa de mulheres!

Então vem, Frederico! Aponta o endereço! disse Lourdes, piscando o olho à mãe.

A menina do sonho, afinal, tinha razão: acordou-a na hora certa para entregar o relatório, e naquela noite, Lourdes encontrou o seu destinoMeia hora depois, soou uma nova campainha. Frederico, de cachecol ao pescoço e uma caixinha de bombons na mão, apareceu à soleira, os olhos brilhando com um misto de nervosismo e esperança. Dona Maria abriu-lhe a porta com um sorriso aberto e um abraço caloroso, como se o conhecesse de sempre, enquanto Rosa ria às gargalhadas, já a puxá-lo para mostrar a árvore decorada a preceito.

Lourdes, no meio da cozinha cheia de sons e cheiros, olhou de relance para a janela, como se esperasse ver a menina do sonho acenando-lhe do quintal. Mas apenas a noite se avizinhava, calma e cheia de promessas. Um arrepio bom percorreu-lhe o corpo. Talvez, pensou, não fossem precisos grandes sinais: bastava estar de coração aberto, a caminho de casa, para o destino fazer o resto.

À mesa, entre brindes e partidas, Lourdes sentiu-se leve como não se recordava há anos. Risos cruzaram-se com canções de Natal, e cada prato servido era também uma partilha de histórias e esperanças renovadas. Lá fora, pequenas luzes piscavam nas varandas vizinhas, e o mundo parecia, por instantes, suspenso naquela casa aconchegada, num presente perfeito.

No final do serão, Maria espreitou Lourdes com um olhar traquinas e sussurrou:
Viste, filha? Às vezes quem esperamos chega mesmo quando menos contamos.
Lourdes apertou-lhe a mão e sorriu, sentindo uma felicidade tranquila a crescer por dentro, como se aquela noite fosse um ponto de partida para muito mais.

Mais tarde, no silêncio do quarto, Lourdes enviou uma mensagem curta a Frederico, já instalado no sofá-cama da sala:
“Obrigada por teres encontrado o caminho até nós. Às vezes, o destino só precisava que alguém tropeçasse para ser certeiro.”

Do outro lado da porta, Frederico respondeu apenas:
“Feliz Natal, Lourdes. Que este seja apenas o primeiro de muitos juntos.”

E pela primeira vez em muito tempo, Lourdes adormeceu a sorrir, certa de que, naquele Natal tão simples, a magia tinha voltado a acontecer exatamente onde ela mais precisava: dentro de casa, e dentro do coração.

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