O meu nome é Elias. Sou o responsável pelo balcão de achados e perdidos e pelas malas na Estação Central de Lisboa há vinte anos, mais ano menos ano. Aquilo é sempre uma barulheira pegada: gente apressada, altifalantes a desafinar com anúncios, o cheiro a gasóleo e pastéis de nata a pairar no ar.
Mas há quem eu chame de Encalhados. Não apanham comboio nenhum. Sentam-se nos bancos com três ou quatro sacos de viagem gigantes. Arrastam-nos para a casa de banho, levam-nos ao bar do lado, andam sempre de volta à bagagem. São pessoas sem-abrigo ou em transição, e trazem a vida inteira nos ombros, em sacos. Arranjar trabalho? Difícil, porque não se entra numa entrevista de emprego com um saco-cama debaixo do braço. Arrendar casa? Nem pensar, porque não podem largar a tralha para irem ver um T1. As cacifos da estação custam vinte euros ao dia. É como se fossem um milhão.
No inverno passado, apareceu por lá um miúdo chamado Tomás. Tinha a barba feita, camisa decente, mas deambulava com duas malas monstruosas e uma mochila de montanhismo. Estacionava-se todos os dias na zona do meu balcão. Via-se-lhe o desespero estampado na cara. Tenho uma entrevista às duas, disse-me numa terça-feira, óbvio no tom que estava à beira de entrar em pânico. Na zona industrial do Prior Velho. Mas não posso levar… isto tudo. E dá um pontapé na mala. Se deixo, roubam-me. Se levo, percebem logo que sou sem-abrigo e não me dão o trabalho.
Olhei para o armazém de Achados e Perdidos atrás de mim que devia ser só para chapéus-de-chuva esquecidos e casacos sem dono. Dá-me os sacos, disse eu. O quê? Meto-lhes uma etiqueta de Achado Reclamação Pendente. Tens 24 horas. Vai à entrevista, volta cá antes de eu sair. Olhou para mim como se lhe estivesse a doar um rim. Mandou-me logo as malas para o balcão. Endireitou-se todo, parecia até mais alto sem aquele peso às costas. E zás, desata a correr para a rua. Quando regressou às cinco da tarde vinha a sorrir como quem tinha ganho o Euromilhões. Deram-me segunda entrevista, disse ele.
A partir daí, comecei a fazer o mesmo por outros. Criei um sistema só meu. Sempre que apanhava alguém a tentar lavar a cara no espelho da casa de banho a arrastar malas atrás, fazia-lhes sinal. Etiqueta, murmurava baixinho. Fui criando um livro de registos especial. O Livro dos Encalhados.” Não estava a guardar chapéus ou cachecóis perdidos, só a aparcar o passado deles por umas horas, para serem livres.
Três meses depois, a chefia apanhou-me. O senhor Sousa, o supervisor, apanhou seis malas clandestinas no armazém. Elias, estás a gerir um depósito grátis, bufou. Isto é um risco do caraças. Não é depósito, atirei. É um incentivo ao emprego! Aquela mala vermelha? É de uma senhora que está agora mesmo em entrevista no restaurante ao lado. A azul? O dono está a fazer o exame de equivalência ao secundário neste momento.
Tirei o livro de registos do bolso. O Tomás voltou cá a semana passada. Já não precisava de guardar malas. Veio comprar bilhete para visitar a mãe, porque arranjou casa própria.
O Sousa olha para as malas, depois para mim. Não me despediu. Em vez disso, mandou esvaziar um velho armário ao pé da entrada. Meteu um cartaz: “Cacifos Solidários. Gratuito para quem procura trabalho. Falar com Elias.”
Agora temos parceria com o centro de abrigo de Arroios. Quem tem entrevista recebe uma ficha para cacifo. Eu cá já conto 62 voltas ao sol. Continuo a etiquetar malas. Mas percebi que ninguém segue em frente às costas com o passado inteiro. Às vezes, o melhor que se pode dar a alguém não são uns trocos. É só um sítio seguro para pousar o fardo, de modo a entrar numa sala, de peito feito.







