O meu marido detesta ser apanhado em situações embaraçosas, afinal ele é o macho alfa cá de casa. Por isso, hoje espreitei de mansinho para a casa de banho, deliciei-me com o espetáculo e acabei por me encostar à parede Acho que vou ficar com soluços de tanto rir:
«Se és um bom gatinho, diz miau!
Se és um gatinho espetacular, diz miau!
Se és o gatinho mais amado, diz miau!»
O meu marido, o Pedro, cantava baixinho enquanto lavava o nosso gato. Normalmente, a fera revolta-se, arranha, morde e mia a altos berros, mas desta vez ou o bicho estava a gostar da cantoria, ou estava em choque.
«Vamos lavar a tua barriguinha, diz miau…
Vamos lavar as patinhas, diz miau…
Vamos lavar o rabinho, diz miau…»
Miau ouvi um miadinho tímido do Tobias.
Desatei a rir sozinha, encostada à parede. Ainda hoje lamento não ter gravado essa obra-prima, mas confesso que talvez nem sobrevivesse se tivesse esse trunfo na manga.
«Não estás a gostar? Queres que cante outra coisa?», pergunta o Pedro.
Miau responde o Tobias.
O Pedro faz uma pausa, suspira e recomeça a ensaboar o gato num tom baixinho:
«Cai a chuva suave no vidro do teu olhar
Me desenhas no reflexo, Maria…»
As lágrimas corriam-me pelo rosto de tanto me rir. E, de repente, percebi uma coisa engraçada: o meu marido nunca me cantou músicas. Não é o exemplo máximo do romantismo, tem outros encantos, é certo. Mas ali estava ele, a dar serenatas ao gato. Acho que até ficaria magoada, não fosse o riso imparável.
Entretanto, a Maria (o meu gato é macho, mas pronto!) voltou a miar baixinho, e o Pedro até cantou «As árvores dão frutos, balançam ao vento…».
Eu não aguentei mais: era agora ou nunca, tive de fugir antes que desse muito nas vistas, porque o banho estava a acabar e o Pedro já procurava a toalha para secar o Tobias. Quase recomposta, mas…
«Plic ploc televisão,
Plic ploc televisão,
Plic ploc televisão…»
E não consegui evitar e juntei-me à música:
E dois bonequinhos dentro!
Fui a rir desalmadamente, quase a rastejar em direção ao sofá da sala.
Nem sei se continuaram a cantar, porque não aguentava mais, ria-me até às lágrimas e já tinha soluços. Uns minutos depois, lá apareceram dois machões embirrados, olharam para mim de lado, ofendidos, e saíram com a sua dignidade para a cozinha.
Preferi enfiar a cara na almofada e rir em silêncio. O Pedro e o Tobias lançaram-me um olhar altivo e lá foram à sua vida.







