Olha, depois de ter o meu filho, engordei um bocadinho. Não foi grande coisa, nem a balança mudou muito, mas… O meu marido começou a reclamar do meu corpo, dessas pequenas mudanças, percebes?
Em vez de me dizer: Não faz mal, querida, és a melhor do mundo, e esperar com paciência que eu voltasse ao que era, ele virou costas. Foi tão repentino que, num dia qualquer, simplesmente já não voltou para casa. Fiquei sozinha com o bebé nos braços. Não preciso de te explicar muito mais, sabes bem como é.
No início afundei-me, mas depois fartei-me de andar triste, decidi agarrar-me à vida outra vez. Adotei um cão, e todos os dias começava a correr com ele, logo pela manhã. Comecei a tratar do meu abdómen, a mexer-me mais. Custou-me psicologicamente, claro, mas ao menos distraía-me das ideias negras. Habituei-me ao desporto e, quando arranjei trabalho, inscrevi-me finalmente num ginásio.
Diferente do treinador antigo, o professor do clube era mesmo atento e super paciente. Foram anos de treino regular, e não só recuperei a boa forma, como até fiquei melhor nalgumas áreas, acredita, parece que fiquei uma vez e meia mais em forma! Aprendi a gostar de mim outra vez, ganhei uma relação nova com o meu corpo.
Um dia, já habitual, a ir para casa de mochila às costas e fato de treino, deparei-me com o meu ex-marido à porta do prédio. Trazia flores e uma caixa de bombons, imagina. Vi que estava a tocar à campainha, mas o meu filho nem abriu a porta. Foi ali que percebi que tinha mesmo a sorte de realizar um daqueles sonhos de quem já foi deixado para trás…
De fazer o outro chorar de arrependimento. Fiz aquele movimento de braços para trás, agachei-me uns cinco segundos para arranjar o peito e caminhei até ele…
Sabes o que ele me disse? Desculpe, menina, mora mesmo neste prédio? Consegue abrir-me a porta?
Só consegui rir, com aquele sabor amargo, tapei a cara com as mãos e, sentindo uma satisfação difícil de explicar, afastei-me lentamente… Ele irritou-se, nitidamente aflito: Disse alguma coisa engraçada? O que foi que a fez rir? Eu só disse… na conservatória… quando prometi amar e proteger… Olhei-o de frente, já com um olhar firme Ainda não consigo sequer rir! Ele olhou para mim quase suplicante. Posso ver o meu filho, ao menos? pediu-me. Daqui para fora anda, sai! respondi sem cerimónias.
Fui ficando a vê-lo afastar-se, ele olhou para trás várias vezes… Mas já não tinha volta. Os sonhos realizam-se se tu quiseres.







