Rui, o azeite acabou e já só há detergente suficiente para mais uma lavagem , diz Filipa, parada à porta da sala, limpando as mãos húmidas ao avental. Era bom ires ao supermercado, a lista está grande.
Rui, sem desviar os olhos do ecrã da televisão onde dava um dérbi intenso entre o Benfica e o Porto, deu um ombro, irritado.
Filipa, tu sabes como isto está , resmunga, mantendo-se fixo no jogo. Na fábrica estão a atrasar outra vez. O chefe já disse que este mês nem cheira a prémio. Dei-te anteontem os últimos cem euros. Vai tentando desenrascar-te.
Filipa suspira fundo. Aquele tenta desenrascar-te tornou-se rotina nos últimos seis meses. O orçamento parecia ter de esticar até ao infinito. Volta para a cozinha, abre o frigorífico e encara com desalento o único frasco de pepinos em conserva e a panela com restos de sopa da véspera. Era só uma sopinha magra, feita com ossos de frango, porque carne a sério já não compravam há semanas.
Filipa era enfermeira-chefe no centro de saúde. O salário era estável, mas modesto. Antes, com os bons ordenados de Rui, viviam à vontade: até uma semaninha no Algarve conseguiam fazer todos os anos, renovavam a roupa, a casa tinha sempre armários cheios. Entretanto, pela conversa de Rui, a empresa passou por dificuldades. Cortes, prémios cancelados, e ele passou a trazer para casa misérias, só dava para contas e combustível.
A despesa da casa ficou toda nos ombros de Filipa. Fazia turnos extra, sacrificava fins de semana, só para fechar o mês sem dever. Rui… chegava exausto, esparramava-se no sofá, indignado com as injustiças do mundo, exigindo sempre jantar decente com entrada, prato principal e sobremesa.
Vai tentando, murmurava Filipa, de frente para o frasco de azeite vazio. Mais esticar, só rasga.
No dia seguinte, Filipa corre ao supermercado depois do trabalho. Demora-se junto às montras de carne, olha as costeletas que apeteciam tanto, mas ao fim, agarra uma embalagem de moelas de frango. Barato e eficaz. Refogadas com natas, ainda se come. No caixa, esvazia o porta-moedas por completo. Faltavam três dias para o adiantamento, e o porta-moedas já vazio.
Mais tarde, com as moelas a cozer, Filipa decide limpar a entrada. Rui dormia já, satisfeito de jantar e duas Super Bock que, segundo ele, comprou com umas moedas que sobraram.
Arranja o casaco de Rui no cabide e sente algo no bolso interior. Não era do feitio dela mexer nos bolsos dele, mas a rotina de despir roupa antes de lavar falou mais alto. Ali estava um papel.
Era um talão, mas não do supermercado. Era do multibanco, impresso naquela tarde, às 18h45. Filipa abre o papel e o chão foge-lhe debaixo dos pés:
Saldo disponível: 4.530 euros.
Pisca, convencida de ter lido mal. Talvez um zero a mais? Não os números estavam nítidos. Acima, a indicação da última operação: Crédito de salário: 990 euros.
Novecentos e noventa euros. Ele trouxe-lhe cem para casa. Disse que era tudo.
Filipa senta-se devagar no banco do hall, a cabeça a zunir. Lembra-se das suas botas velhas, a deixarem entrar água, porque Rui dizia: Tem paciência, não há dinheiro nenhum. Recorda-se de como adiou o dentista, aguentando a dor a comprimidos, da sopa de ossos e das moelas.
A mágoa ferveu-lhe no peito. Nem era mágoa. Era traição. Enquanto ela se privava de tudo, ele acumulava milhares. Para quê? Novo carro? Outra mulher? Ou simplesmente por mesquinhez, achando que a mulher devia sustentar a casa sozinha?
Filipa pousou o talão no bolso, cuidadosamente. Teve vontade de o acordar, esfregar-lhe o papel na cara, fazer um escândalo, partir a loiça toda, pô-lo na rua. Mas conteve-se. Discutir não valia a pena. Começaria a inventar, a justificar-se, a falar em surpresa ou erro do banco.
Era preciso outro tipo de resposta.
Foi para a cozinha, desligou o fogão. Arranjou as moelas num tupperware e guardou-o na mala, não no frigorífico comum.
Se não há dinheiro, não há dinheiro, pensou, quase com raiva.
Na manhã seguinte, saiu cedo para o trabalho, nem pequeno-almoço preparou. Deixou um prato vazio na mesa e um bilhete: Desculpa, acabou-se a comida. E o dinheiro. Bebe água.
O dia inteiro trabalhou mecânica, focada no seu plano. No almoço, pela primeira vez em meses, serviu-se de bife de vaca com puré e sumo, acompanhados de uma sobremesa. Comeu com gosto, sentiu-se gente.
Ao regresso, nada de sacos, nenhuma preocupação, apenas mãos livres e cabeça erguida.
Rui esperava-a aborrecido:
Filipa, chegaste tarde! Estou a morrer de fome, não há nada no frigorífico, nem ovos! Foste às compras?
Ela pousou a mala.
Não, Rui, não fui.
Como, não foste? E o jantar?
Não há jantar. Já te disse: acabou-se o dinheiro. O adiantamento só é depois de amanhã. Hoje bebi chá no trabalho, vou aguentar. Tu aguenta também. Afinal, é crise.
Rui ficou de olhos arregalados.
Estás a brincar? E a sopa? E o segundo prato? Tu costumavas sempre desenrascar!
Acabou-se a criatividade. Não se fazem bifes do ar. Disseste que não há dinheiro. Os meus trocos foram para a luz e os transportes. O orçamento acabou.
Rui ficou a abrir e fechar a boca, incrédulo. Achava que Filipa, como sempre, ia arranjar milagre: pedir à vizinha, sacar de um fundo secreto ou arranjar comida do nada.
És incrível… atirou. E eu faço o quê?
Bebe água. Ou deita-te cedo, na cama o estômago não reclama tanto.
Ele bateu a porta, foi para a cozinha, barulhou nos armários. Encontrou nalgum sítio o resto de massa seca, porque dali a pouco cheirava a esparguete sem nada. Filipa sorriu sozinha. Esparguete sem azeite nem salsichas um manjar digno de quem tem milhares parados no banco.
No dia seguinte repetiu-se o cenário. Filipa comeu bem no trabalho, comprou um café com pastel de nata que saboreou no jardim. Chegou a casa tranquila, barriga cheia.
Desta vez, Rui não disfarçava a zanga:
Isto já não tem piada, Filipa! Dois dias a comer massa com nada! Estás a gozar? És a dona desta casa ou quê?
Sou tua mulher, Rui, não uma feiticeira. Não compro comida sem dinheiro. Dá-me dinheiro vou ao supermercado, cozinho-te um cozido e frito uns panados. Qual é a dificuldade?
Já te disse não tenho! rugiu, evitando o olhar. Está atrasado!
Pois eu também não tenho. Vamos de dieta, faz bem ao colesterol.
Nessa noite, Rui saiu indignado, voltou passado uma hora, a cheirar a bifana. Filipa percebeu: para uma bifana arranjou euros depressa. Mas trazer para casa, nada.
Passou-se assim uma semana. O ambiente ficou de cortar à faca. Filipa não cozinhava, não lavava pratos dele (se deixava louça suja, ela ignorava), nem tratava da roupa.
Detergente acabou respondia ela, perante queixas das camisas sujas. Não há como comprar.
Rui bufava, tentava fazer-se de coitado, ora pressionava, ora tentava comovê-la.
Estás insensível! gritou numa sexta-feira. Trabalho, chego aqui a um chiqueiro! Nada de comer, camisas sujas! Para quê quero uma esposa assim?
E para que quero eu um marido assim? devolveu Filipa serenamente. Que não garante pão na mesa nem sabão para lavar roupa? Eu também trabalho, Rui. Também canso. Mas pelos vistos, só eu me preocupo.
Porque és mulher! É o teu dever!
O meu dever é amar e cuidar quando cuidam de mim também. Deco unilateral acabou.
No sábado de manhã, Filipa acordou com o cheiro apetitoso a ovos com chouriço. Na cozinha, Rui atirava-se a ovos mexidos com tomate e linguiça, com pão fresco e café.
Quando Filipa entra, engasga-se, mas logo se recompõe.
Olha, acordaste. Senta, se quiseres. Encontrei trocos no bolso do casaco velho, fui ao mini mercado.
Na mesa, fatias de queijo da ilha, pacote de chouriço caro, ovos biológicos. Trocos, pensou ela com ironia.
Deixa estar, não tenho fome, mentiu Filipa. Queria ver onde isto ia dar. Come à vontade, faz-te falta.
Rui come meio encavacado sob o olhar dela.
Olha, Filipa, começa ele depois de engolir isto já não é vida. Pedi cinco notas ao Miguel. Toma, vai às compras, faz uma panela de sopa. Ninguém aguenta isto.
Pousa uma nota de cinquenta euros na mesa. Filipa olha para dinheiro, olha para Rui.
Pediste ao Miguel? Olha que sorte, tão generoso ele. E vais pagar como? Se não tens ordenado…
Pago como der! Que te importa? Vai às compras!
Ela vira a nota nos dedos.
Está bem, vou. Mas só compro para mim. Tu vais comer em casa do Miguel, ele é tão generoso.
Estás a brincar? levanta-se Rui, deita abaixo a cadeira. Estou-te a dar dinheiro! Para os dois!
Para os dois? Filipa levanta-se também, voz afiada como faca. E quando recebeste novecentos e noventa euros há três dias, era dinheiro de quem? Só teu? E esses quatro mil e quinhentos na tua conta são para apoiar os maridos famintos?
Rui ficou branco, depois corado, a gaguejar.
Andaste nos meus bolsos? Espiaste-me?
Não troques as voltas, Rui. O talão caiu-me às mãos a mexer no teu casaco. E sabes o que mais dói? Não é esconderes dinheiro. É olhares para mim a contar moedas, a andar rota, a abdicar de tudo, enquanto comias à pala do que eu comprava! Não tens vergonha?
Estava a juntar! berrou ele Para comprar um carro novo! O meu já não anda! Queria fazer-te uma surpresa! Tu só pensas em dinheiro!
Surpresa? riu-se Filipa, amarga. Surpresa é comprar um carro sem fazer a mulher passar fome. Surpresa é decidir a dois pouparmos para um objetivo. O que fizeste foi mesquinho. Viveste à minha custa meses, guardando o teu salário intacto. Foste um parasita, Rui.
Tu não percebes! Um homem precisa de carro a sério. Não ia ficar mal-visto pelos meus amigos. E tu com as tuas moelas… Se calhar perdemos um mês, não morreu ninguém!
Não, não morri assentiu Filipa Mas por dentro, morreu o respeito e morreu a confiança.
Devolveu-lhe a nota de cinquenta euros.
Fica com ela. E compra bilhete.
Bilhete para onde? estranhou Rui.
Para o futuro. Para casa da tua mãe. Para outro lado qualquer. Não fico mais com quem acha que sou criada ou tonta.
Vais mandar-me embora? Por dinheiro?
Não é por dinheiro, Rui. É por atitudes. Faz as malas.
Rui não saiu logo. Discutiram horas, ele gritou, insultou, ameaçou, pediu desculpa, prometeu um casaco novo (das tais poupanças), voltou a gritar. Filipa foi firme. Viu-o, pela primeira vez, como era: um homem mesquinho, egoísta, histérico.
Ao final do dia, ele saiu de mala feita.
Vais arrepender-te! ameaçou à porta. A quem interessas tu com quarenta e cinco anos? Vais ver, vais acabar sozinha com os teus gatos! Arranjo quem me valorize a sério!
Boa sorte, murmurou ela, fechando-lhe a porta.
Quando ouviu a chave rodar, deixou-se cair ao chão pela porta. Não sentiu vontade de chorar, só um buraco enorme no peito.
Foi à cozinha. Na mesa, o chouriço caro ficou por abrir. Filipa pegou nele e atirou-o para o lixo. No frigorífico, só restava o seu tupperware com moelas.
Agora, ao menos, sei bem onde gasto o meu dinheiro.
Passou um mês.
Filipa vem do centro de saúde, sem pressa. O sol de maio cheira a lilases e mar. Passa pelo supermercado. Escolhe com prazer: um frasco de ovas (em promoção!), um queijo brie, uma garrafa de vinho verde, legumes frescos, lombos de salmão.
Paga a conta confortável: nunca foi tão barato viver sozinha. A luz baixou, a água também, comida só para si é um mimo. Nada de cerveja, tabaco, gasolina, peças de carro pedidas à última da hora.
Em casa liga a música, cozinha o salmão, serve o vinho. Senta-se à janela, vê o pôr-do-sol.
O telemóvel toca: uma mensagem de Rui.
Filipa, olá. Como estás? Que tal conversarmos? Percebi tudo. Fui um tolo. O carro não comprei, o dinheiro está aí. Podemos recomeçar? Tenho saudades.
Filipa tomou um gole de vinho. Lembrou-se dele aos berros por causa das moelas. Lembrou-se dela, humilhada, a pedir dinheiro para detergente.
Apagou a mensagem. Bloqueou o número.
Também senti saudades disse ao seu reflexo no vidro de mim. Da minha vida normal. E não largo isso por ninguém mais.
No dia seguinte, comprou as botas de couro caro que tanto sonhava. E reservou duas semanas num spa no Gerês. O que poupou chegava bem.
A vida não acabou com o divórcio. Antes, tornou-se melhor sincera e com muito mais sabor.






