O meu marido disse-me que a minha carreira podia esperar… porque a mãe dele vinha morar connosco.

O meu marido disse-me que a minha carreira podia esperar porque a mãe dele vinha morar connosco.

Foi naquele instante que percebi: estava na hora de lhe dar uma lição que nunca mais iria esquecer.

A tua carreira pode esperar. A minha mãe vem e vais tu tratar dela. Ponto final. Não há discussão.

O Ricardo disse isto sem tirar os olhos do telemóvel.

Estava sentado na cozinha com uma t-shirt já desbotada e uns calções velhos, a comer uma carcaça com doce de morango, a deslizar o dedo pelo ecrã como se falasse apenas do tempo e não da minha vida.

Fiquei ali plantada junto ao fogão, com a cafeteira de café na mão.

O primeiro impulso foi mesmo atirar-lhe o café a ferver àquela cara satisfeita.

O segundo dar meia volta e bater a porta com tanta força que abanasse a casa.

Mas controlei-me.

Repete lá, por favor disse, com uma calma que até me surpreendeu.

O Ricardo olhou-me com aquele ar aborrecido.

Oh Catarina, não dramatizes. A minha mãe não está bem, não pode ficar sozinha. E tu passas o dia todo fora, na empresa. És uma chefe, sim senhora…

Chovia ligeiro lá fora, as ruas de Lisboa ficavam húmidas e brilhantes.

Olhei para o homem com quem tinha partilhado sete anos da minha vida.
O homem com quem tive uma filha, uma casa, sonhos tantas histórias.

E ali, de repente, era um estranho.

Ricardo, eu sou directora de marketing numa empresa com um volume de negócios de muitos milhões de euros. Lidero uma equipa de oito pessoas. Estou a gerir um projecto importantíssimo, de 400 milhões.

Encolheu os ombros, com desdém.

E então? Substituem-te por outra qualquer. Mãe só há uma.

A cafeteira tremia-me nas mãos.

O café já estava quase a subir.

A nossa filha também não tem igual.

A Leonor está o dia inteiro na creche, está bem entregue. A minha mãe é que precisa de cuidados constantes.

Afastei a cafeteira do lume e servi o café, bem devagar, para ganhar tempo e pensar.

A minha sogra, Dona Antónia, partiu a perna há pouco tempo. Mas chamá-la doente e indefesa era um tremendo exagero.

Com sessenta e cinco anos, era mais enérgica que muita gente de quarenta. Adorava ir ao teatro em Belém, tomar café com as amigas no Chiado e metia-se sempre na nossa vida quando vinha cá a casa.

Quando é que ela chega? perguntei.

Para a semana. Segunda-feira de manhã.

Ou seja, tudo já estava decidido.

Sem mim.

Falaram, combinaram e só me vieram informar. Quase como se fosse uma empregada doméstica.

Além disso, podes trabalhar em casa disse ele . O teu horário é flexível.

Ricardo, não sou trabalhadora independente

Ele abana a cabeça.

Bem já sabes como é. Um homem não pode tratar de uma senhora de idade. Não é coisa de homens.

Não é coisa de homens.

Mas viver à conta do meu salário, enquanto ele já lá iam três anos à procura de si próprio no design gráfico isso já é.

Pagar crédito da casa, creche, contas, supermercado
Pelos vistos, isso sim, é coisa de mulheres.

E abdicar da minha carreira por causa da mãe dele?

Pois, claro.

E se eu não concordar? perguntei baixinho.

Olhou-me como se tivesse dito o maior disparate de sempre.

Catarina, não digas tontices. A minha mãe deu-me a vida, criou-me, sacrificou-se toda a vida por mim. Agora não posso deixá-la. E tu tu não és uma estranha.

Portanto, não sou estranha.

Logo tenho de me sacrificar.

Sentei-me em frente a ele, com a chávena quente nas mãos. Quase me queimava, mas obrigava-me a manter o sangue frio.

Está bem disse . Dá-me só um tempo para pensar.

Pensar no quê? murmurou, já colado ao telemóvel . Entregas a carta de demissão, cumpres o aviso-prévio e acabou. Está resolvido.

Aí percebi tudo.

Ele acreditava mesmo que eu ia fazer exactamente o que ele mandava.

Porque sou a esposa.
Porque é assim que se faz.
Porque a mãe dele está acima de tudo.

Sorri.

Um sorriso doce.

Claro, querido. Vai ser mesmo como queres.

Nem se apercebeu do sarcasmo.

No trabalho mal conseguia pensar. Reuniões, campanhas, estratégias Mas na minha cabeça só dava eco àquela frase:

«A tua carreira pode esperar.»

Catarina, estás bem? perguntou a Mariana, minha adjunta . Estás com um ar tão branco hoje.

Coisas de família respondi.

Cheguei ao fim do dia com um plano.

Nada heroico.

Mas inteiramente justo.

Se o Ricardo queria jogar ao decides tu e eu obedeço muito bem.

Mas ia jogar pelas minhas regras.

Bati à porta do gabinete da Patrícia, a directora-geral.

Patrícia, preciso de falar contigo. Mas mesmo a sós.

Contei-lhe tudo: o ultimato do Ricardo e o meu plano.

Quero pedir uma licença sem vencimento. Uns dois meses. Mas, oficialmente, continuo nos quadros.

A Patrícia sorriu.

E onde é que está a marosca?

Se o meu marido perguntar ou aparecer aqui, diz-lhe que me despedi mesmo.

Ela soltou uma gargalhada.

Vais dar-lhe uma lição?

Quero que saiba o que é não ter voz nas decisões da própria vida.

E o que vais fazer em casa?

Sorri.

Vou ser a nora perfeita.

Fiz um compasso de espera.

Tão perfeita, que se vão fartar num instante.

A Patrícia anuiu.

Combinado. Mas daqui a dois meses estás de volta. Tenho um projecto preso só à espera de ti.

Acho que isto nem dura tanto

Voltei para casa leve. Quase feliz.

Pela primeira vez em muito tempo sentia que a minha vida estava nas minhas mãos.

O Ricardo estava, como sempre, na cozinha agarrado ao telemóvel. A Leonor brincava no quarto.

Ricardo disse, com serenidade . Já entreguei a carta de demissão.

Ele levantou a cabeça de repente.

A sério?

Sim. Tens razão. A família é prioridade. A tua mãe vai precisar de mim. Hei-de desenrascar-me.

Sorriu ufano.

Sabia que compreendias.

Pois, claro assenti . Já agora quando é que ela chega exactamente?

Segunda de manhã.

Óptimo.

Sorri.

Assim ainda tenho o fim de semana para me preparar.

O Ricardo franziu o sobrolho.

Preparar para quê?

Olhei-o, imperturbável.

Para receber a tua mãe pronta para tudo.

Ele ainda não sabia.

Mas essa preparação

ia mudar-lhe a vida.

O Ricardo estava felicíssimo.
Pensava que tinha corrido tudo como ele quis.

Só precisou de duas semanas para perceber o erro monumental que cometeu.

Parte 2

Na segunda-feira acordei antes do despertador. Ainda nem eram seis e meia. Estava incrivelmente calma, focada, com uma lucidez rara. O Ricardo dormia profundamente ao meu lado, estendido em metade da cama, telemóvel pousado na mesinha. Fiquei a olhar para ele um instante a pensar como tinha tanta certeza de que eu ia ceder.

Às oito menos dez chegava eu à Gare do Oriente. A Dona Antónia lá vinha do comboio, bastão na mão, mala de rodinhas e aquela cara de poucos amigos de sempre.

Catarina? Vieste tu sozinha? Onde está o Ricardo? nem um olá

O Ricardo está cheio de trabalho esta manhã respondi, tranquila . Mas não se preocupe, trato eu de tudo.

Torceu a boca, mas seguiu-me.

Mal chegou a casa, entreguei-lhe uma pasta. De plástico transparente, folhas organizadas ao minuto.

Oito e meia, pequeno-almoço. Nove, fisioterapia suave à perna. Dez, passeio curto. Onze, cházinho e descanso. Meio-dia, massagem…

Massagem? ergueu a sobrancelha, desconfiada.

Claro. A recuperação exige rigor e disciplina.

Nos dias seguintes, fui irrepreensível. Impecável até demais.

A Dona Antónia não dava um passo que não estivesse eu em cima. Lembrava-lhe como devia sentar-se, quando podia andar, o que não podia comer para ajudar a recuperar melhor. Acabou-se o café à portuguesa, o pastel de nata, o pãozinho de forma. Tudo com justificação médica.

Catarina, eu sempre comi isto queixava-se, cada vez com mais má cara.

Pois, mas agora temos de ser rigorosos respondia sempre sorrindo.

O Ricardo começou logo a sentir na pele as consequências. Passados uns dias, casualmente informei-o de que íamos ter de apertar no orçamento.

Como assim apertar? perguntava desconfortável.

Já não há ordenado. E os nossos fundos estão a ir para medicamentos, suplementos, comida especial. É o habitual, não é?

Cancelei subscrições, cortei nos extras incluindo o dinheiro para os projectos de designer dele. Comecei a pedir-lhe para acompanhar a mãe ao hospital, para a ajudar a tomar banho quando eu dizia estar exausta.

Catarina, não percebo nada disso

Desculpa? É a tua mãe. Eu também preciso de descansar, não posso com tudo ao mesmo tempo.

Duas semanas depois, a tensão já se respirava no ar.
A Dona Antónia de mau feitio, o Ricardo esgotado e eu? Bem, eu estava surpreendentemente serena.

Numa noite dessas, com a Leonor já a dormir, o Ricardo sentou-se à minha frente na cozinha, derrotado.

Catarina acho que errei.

Fiquei a olhar para ele sem dizer nada.

Em tudo. No que te disse. No modo como decidi sem te ouvir. Não fazia ideia do que era abdicares de ti mesma.

Agora já percebes?

Sim. E até me sinto envergonhado.

No dia seguinte, a Dona Antónia chamou-me.

Catarina, acho melhor voltar para a minha casa mais cedo disse, fria. Já me desenrasco sozinha ou contrato alguém.

Como quiser respondi, sem grande expressão.

Nessa tarde, o Ricardo recebeu um telefonema da Patrícia. Explicou-lhe que, depois de eu sair, os projectos estavam todos a emperrar e um cliente chave estava completamente aborrecido.

O Ricardo deixou-se cair no sofá.

Mentiste-me

Não respondi calmamente. Só não desmenti.

Quando a Dona Antónia saiu, liguei à Patrícia. Dois dias depois estava de volta ao escritório. Voltei à minha vida. A mim mesma.

Nessa noite, o Ricardo esperava-me com o jantar feito, a mesa posta com esmero.

Não te peço desculpa disse. Mas quero que saibas: nunca mais tomo uma decisão por ti.

Olhei-o longamente.

Ricardo, já não sou a mulher que aceita ordens. Se um dia voltas a dizer a tua carreira pode esperar, esta história termina mesmo.

Ele anuiu devagar.

Percebo.

E aí soube que a lição ficou.

Sem gritaria.

Sem discussões.

Só com a realidade.

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O meu marido disse-me que a minha carreira podia esperar… porque a mãe dele vinha morar connosco.