Vou-me embora para veres bem o que perdeste! Passa uma semana sozinha, a uivar para a lua sem homem em casa, e talvez assim aprendas a valorizar quem cuida de ti! disse Hugo, teatralmente atirando um monte de meias para o saco de desporto, quase derrubando a minha jarra preferida da prateleira.
Fiquei a observar esta cena encostada à ombreira da porta, entre a vontade de rir e a indignação. O meu marido, um rapaz de trinta anos, estava no meio do meu comprado por mim antes do casamento! T1 a ameaçar-me com a sua ausência. Devia acreditar sinceramente que, sem a sua preciosa presença, as paredes iam ruir e eu ia murchar como um vaso de manjerico esquecido.
Tudo começou, claro está, depois de mais um domingo passado em casa da minha sogra, a D. Lurdes. Dona Lurdes era uma mulher peculiar: fazia elogios que mais pareciam insultos e dava conselhos no tom de um sargento a ralhar com recrutas desleixados.
Hugo voltou carregado da conversa com a mãe. Notei logo: lábios cerrados, olhar fiscalizador, narinas a farejar pó imaginário.
Mariana, porquê é que as toalhas na casa de banho não estão organizadas por cor? começou ele, ainda com os sapatos calçados. A minha mãe diz que isto cria poluição visual e perturba a harmonia cá de casa.
Suspirei fundo.
Hugo, a tua mãe só conhece harmonia porque vê programas de decoração. As toalhas ficam assim porque são práticas de apanhar, não para fazer bonito respondi, mexendo no estufado ao lume.
Ele franziu o sobrolho, veio à cozinha e apontou para a panela.
Outra vez sopa com pedaços? A minha mãe diz que uma mulher decente passa tudo na varinha mágica, assim faz melhor à digestão do marido. Só não fazes porque és preguiçosa.
Hugo, larguei a colher, a tua mãe não tem dentes porque trocou a consulta no dentista pelo quarto serviço de porcelana. Tu ainda tens os teus, portanto usa-os.
O Hugo ficou encarnado, encheu-se de ar para despejar mais uma dose de sabedoria materna, mas engasgou-se nas próprias palavras.
Tu não me agradeces nada! desabafou. A minha mãe percebe destas coisas, é especialista, já agora!
Hugo, a tua mãe toda a vida trabalhou na portaria de um lar de estudantes. Especialista só porque gosta do título respondi, gelada.
Ele ficou a piscar os olhos, à procura daquele argumento que nunca apareceu. Suspirou, deu um passo atrás, pareceu um pinguim desastrado. E foi aí que decidiu dar-me uma lição.
Basta! Farto deste teu atrevimento! anunciou, fechando a mala. Vou para casa da minha mãe. Fica aqui a pensar no que fizeste. Quando voltar, quero a casa num brinco e desculpas escritas!
A porta bateu. Ficou o silêncio.
Senti-me estranhamente aliviada, como se alguém tivesse aberto uma janela num quarto abafado. Mas magoava-me. Ele saiu da minha casa para me castigar por ficar sozinha no meu próprio conforto? Um génio do xadrez emocional.
O destino, no entanto, guardava para mim uma surpresa melhor que qualquer birra do Hugo.
Na segunda-feira, o meu chefe chamou-me.
Mariana Figueiredo, precisamos que viaje até ao Porto para ajudar no projeto do escritório de lá. Amanhã já voa. Duração: três meses. O subsídio é o dobro e tem um extra que dá para trocar o carro. A empresa depende de si.
Fiquei de asas abertas. Três meses sem Hugo, sem chamadas de D. Lurdes, à beira-mar (mesmo que nortenho), e com salário melhorado.
Estou dentro, disse imediatamente.
Ao sair do trabalho, pensei: a minha casa ia ficar vazia três meses, com as contas a acumular-se. Naquele momento, liga-me a minha amiga Sónia.
Mar, socorro! A mana veio do Algarve com o marido e os três putos, estão sem casa por causa das obras, hotel nem pensar. Eles são barulhentos, mas pagam bem!
Acendeu-se uma lâmpada. O plano perfeito.
Sónia, claro que podem ficar. Amanhã já. Deixo as chaves com a porteira. Só um pedido: se aparecer um homem armado em exigências, manda-o dar uma volta.
Nessa noite, fiz a mala, arrumei tudo de valor numa caixa, levei-a para casa da minha mãe e preparei o apartamento para os hóspedes. O Hugo continuava a dar-me o tratamento de silêncio.
De manhã, apanhei o avião. E a família Coelho mudou-se para o meu T1: o pai Miguel, a mãe Isabel, três crianças sempre em festa e o rafeiro enorme chamado Lorde.
Passou uma semana.
O Hugo aguentou sete dias no paraíso matriarcal da D. Lurdes. Descobriu depressa que a mãe era mais suportável à distância. Sob o mesmo teto, o afeto maternal era mais sufocante que cachecol de lã em julho.
Huguito, não faças barulho a comer, corrigia ela logo no pequeno-almoço.
Hugo, para quê puxar duas vezes o autoclismo? Gasta-se água!
Sentou-te mal, filho, vais ficar corcunda como o tio Zé.
Ao final da semana, o Hugo estava desesperado. Decidiu que a minha punição já bastava, que já devia estar a chorar de saudades e pronta para venerá-lo. Estava na altura de regressar como um herói.
Comprou três cravos murchos (não sei se por ironia ou tradição), e foi para casa.
Ao meter a chave na porta, já com um meio sorriso vitorioso, nada. A chave não girava. Tentou a maçaneta: trancado. Tocou à campainha.
Ouviu-se um tropel, parecia uma manada. Depois, um forte latido que quase abalou o prédio.
Quem é? perguntou uma voz grossa, com sotaque do Norte.
O Hugo encolheu-se.
S-sou o Hugo. O marido. Abram!
A porta abriu-se. Miguel um homem que mal cabia na porta e, naquela hora, com um avental e uma grelha na mão (estavam a fazer grelhados) olhou-o de alto a baixo. Ao lado, aparecia o Lorde.
Marido? A Mariana não está. Nós estamos aqui a viver com contrato e tudo em dia. Quem és tu?
Eu sou o dono! Isto é a minha casa! Da minha mulher, quero dizer
Olha, amigo, o Miguel sorriu e pousou-lhe a grelha no ombro, deixando marca de gordura. A Mariana disse que o marido estava com a mãe, longe daqui. A casa é dela, nós estamos a alugar legalmente. Vai lá para a tua mãe e deixa-nos em paz! Isabel, traz o molho picante!
A porta fechou-se-lhe na cara.
Em menos de um minuto, o meu telemóvel vibrou freneticamente. Eu, sentada num restaurante com vista para a Foz, saboreava vieiras e vinho verde.
Sim? atendi, preguiçosa.
O que é isto? Quem são aquelas pessoas na minha casa?! Não me deixam entrar, parece que estão lá em arraial! Hugo gritava tanto que tive de afastar o telefone.
Hugo, baixa o tom. Foste tu que disseste que ias embora, talvez para sempre, para eu perceber o meu erro. Pois percebi. Viver sozinha era aborrecido e caro. Por isso aluguei a casa a quem precisava. O contrato é de três meses.
Três meses?! E eu, onde fico?!
Ora, na casa da tua mãe, onde tens comida passada e toalhas coloridas a condizer. Aproveita, vou continuar na minha missão de trabalho.
Vou pedir o divórcio! Chamo a polícia! bufava.
Força. A casa está em meu nome, com contrato legalizado. E tu nem tiveste o trabalho de te pôr na morada. Aqui, és só visita, Hugo.
Desliguei.
Passados dez minutos, recebi chamada da D. Lurdes. Atendi só por curiosidade.
Mariana! uivava a sogra, como vidro a partir-se. Vais deixar o meu filho sem teto? Isto é desumano! A lei exige que uma esposa cuide do lar e do marido!
D. Lurdes, permita-me: a lei fala em igualdade no casamento. E no registo da casa só está o meu nome. O seu filho quis dar-me uma lição? Aprendi rápido. O aluno até superou a professora.
Mal-educada e interesseira! gritou ela Um homem precisa de espaço! Vais acabar sozinha!
Pode sempre reclamar ao provedor, Dona Lurdes ri-me. Leve o seu filhote dourado para casa e não se esqueça de lhe triturar a sopa, senão ele nem mastiga.
Desligou a bufar, como uma máquina velha que engoliu papel.
Três meses passaram num ápice. Voltei renovada, com novo visual, conta recheada e clareza: era hora de começar de novo.
Encontrei o apartamento brilhante os Coelho limparam tudo, arranjaram até a torneira que o Hugo adiava há um ano.
Hugo apareceu duas horas depois. Parecia um farrapo: mais magro, pálido, camisa amarrotada. Três meses com a mãe tinham-no envelhecido anos.
Mariana, disse a olhar o chão. Chega de guerras. Percebi tudo. A mãe também exagerou Voltamos a tentar? Trouxe as minhas coisas
Interrompi-lhe o passo com a mala.
Hugo, não há nada para recomeçar. Querias que eu aprendesse a valorizar um homem em casa? Aprendi. O Miguel arranjou o que tu deixaste por fazer em meia-hora.
Mas ainda sou teu marido!
Foste marido, agora só peso morto. As tuas coisas estão com a porteira. Entrega as chaves.
Nem penses! Hei de lutar pela renovação do apartamento!
As obras foram feitas pelo meu pai e tenho tudo documentado. Só decoraste as paredes com as tuas lamúrias, Hugo. O espetáculo acabou. O público já foi à sua vida.
Ele ficou a olhar para mim, incrédulo diante da falência do seu grande plano de educação matrimonial.
Fechei-lhe a porta. Aquele clique soou como um tiro de partida para a minha nova vida.
Dizem que Hugo ainda vive com D. Lurdes, agora vigilante até nas horas em que ele usa o telemóvel ou apaga as luzes. E ele, cabisbaixo, evita pisar em qualquer mina do humor materno.
Às vezes é preciso ficar sozinha para perceber que não precisamos de quem não sabe ser companhia. Se não trazem luz, não tenhamos medo de fechar a porta: o que nos assusta hoje pode ser exatamente o começo da vida que merecemos.






