Nunca pensei que o Vicente seria capaz de uma coisa destas.
Aquele dia ficou-me gravado na memória, até aos mais pequenos pormenores.
Seis tigelas de papas de aveia alinhadas na mesa, cheiro a café acabado de fazer e as calças de ganga velhas onde ele sempre parecia sentir-se mais forte.
Despedindo-se com um beijo rápido na testa de cada filha, atento mas vagamente apressado.
A mim deu-me um beijo leve no alto da cabeça.
Disse só:
Até já.
Sorri-lhe de volta, sem imaginar que aquele até já era para toda a vida.
Nos primeiros dias não entrei em pânico. O Vicente costumava partir em trabalho, visitava amigos, dizia que precisava de arejar.
Uma semana passou. Depois duas.
O telefone não tocava.
Os amigos encolhiam os ombros.
Chegou uma carta do banco: a conta estava bloqueada.
Do emprego uma mensagem: tinha pedido demissão, sem justificação.
Veio o medo.
Depois, a raiva.
Por fim, um vazio imenso.
Ficámos nós. Sete.
Eu e seis pares de olhos cheios de fé infantil de que o pai voltaria.
Não tive coragem de lhes dizer a verdade: ele não se perdeu, ele foi porque quis.
Comecei a trabalhar num café.
Acabei por fazer o turno da noite numa fábrica.
Depois limpezas, explicadora, cuidadora de idosos.
Dormia três horas por noite, comia o que sobrava.
As meninas foram crescendo.
Os sapatos ficavam pequenos, os cadernos terminavam num instante e as minhas mãos iam-se tornando mais ásperas.
Aprendi a resolver tudo sozinha: a torneira, o ferro, até consegui consertar o velho carro do senhor Joaquim, o vizinho, que me pagava em legumes.
Quando os vizinhos cochichavam:
Ela foi deixada e mesmo assim não desiste
eu sorria.
Não por eles. Pelas minhas filhas.
Anos depois, a mais velha, Margarida, disse-me:
Mãe, não precisamos dele. Somos umas às outras.
Assenti, pela primeira vez em anos sentindo-me em pé, mesmo que ainda de pernas a tremer.
Quinze anos voaram, como se fosse um só e longo amanhecer suspenso.
Cresceram, cada uma seguiu o seu rumo.
Uma foi estudar para Lisboa, outra ficou para ajudar em casa.
A mais nova, Leonor, ainda gostava de dormir ao meu lado dizia que assim só tinha sonhos bons.
Já não pensava em Vicente. Não lhe desejava mal, apenas o apaguei da memória como um disco riscado, impossível de ouvir ou esquecer.
Mas uma manhã alguém bateu à porta.
Pensei que era o carteiro.
Quando abri, congelei.
Lá estava ele. Cabelo branco, rugas profundas, o casaco surrado de outros tempos.
E no olhar, ainda o mesmo homem.
A voz também igual, apenas mais fraca.
Olá, disse. Voltei.
O ar tornou-se pesado.
Perguntei-lhe:
Porquê?
Baixou os olhos.
Estou doente. Os médicos dizem que me resta pouco tempo. Só queria ver-vos, a ti e às meninas.
As mãos tremiam-me, o peito apertado numa dor antiga.
Tirou do bolso um envelope pequeno.
Isto é para ti.
Peguei, sem pensar.
Uma fotografia amarelada: nós todos, jovens, junto ao rio. No verso, a letra dele:
Desculpa não ter estado ao teu lado. Quis ser alguém e perdi tudo. Vocês são a única memória de casa que me resta.
Faltaram-me palavras.
As lágrimas escaparam, não de pena, mas de cansaço.
Durante quinze anos ele fora só uma sombra e de repente era carne, com voz, com dor.
Fui fazer chá.
Sentámo-nos em silêncio.
Contou-me que tentara recomeçar a vida noutra cidade, mas que nada resultou.
Soube, disse, que tínhamos criado o fundo solidário Seis Mãos há dois anos.
Ajudaste outras mães, disse mães que também foram abandonadas. Tenho orgulho em ti.
Soou estranho, como se fosse outro a falar por ele.
De repente, perguntou-me:
Posso vê-las? Pelo menos uma vez?
À noite, elas vieram.
As mais velhas, sérias. As mais novas, reservadas.
Ele ficou perto da janela, sem saber como virar-se.
É ele? perguntou Margarida.
Sim, respondi.
O silêncio durou uma eternidade.
Depois Leonor deu um passo à frente.
És mesmo o pai?
Ele acenou, cabisbaixo.
Ela estendeu-lhe um desenho colorido.
Desenhei-nos a todos. Tu também estás aqui.
Ele chorou. Pela primeira vez.
Viveu mais três meses.
Não no hospital connosco.
Não como pai, nem como marido, mas como homem a aprender, finalmente, a ficar.
Todas as manhãs lia livros às mais novas.
Ajudava a Margarida a arranjar o carro velho do vizinho.
Sentava-se comigo, ficava em silêncio ou dizia:
Foste sempre mais forte do que eu.
No dia em que partiu, encontrei na mesa um bilhete simples:
Fugi porque tive medo. Medo de ser preciso. Medo de falhar.
Mas tu não fugiste.
Agora sei: forte é quem permanece.
Obrigado por ficares.
Desculpa não ter ficado eu.
Vi.
Na primavera, espalhámos as cinzas dele junto do rio daquela fotografia.
A água estava calma e morna.
Leonor perguntou:
Mãe, agora ele está em cada chuva, não é?
Sorri-lhe.
Sim, minha querida. Em cada uma.
Voltando a casa, percebi que afinal não tinha perdido nada.
Vivi sem ele, sim.
Mas nunca sem amor.
Porque amor nem sempre é estar juntos.
Às vezes é apenas: não desistir.







