O meu marido abandonou-me com seis filhos e só regressou passados quinze anos. Mas naquela manhã eu ainda não sabia que seria para sempre… Jamais imaginei que ele fosse capaz de algo assim…

Nunca pensei que o Vicente seria capaz de uma coisa destas.

Aquele dia ficou-me gravado na memória, até aos mais pequenos pormenores.

Seis tigelas de papas de aveia alinhadas na mesa, cheiro a café acabado de fazer e as calças de ganga velhas onde ele sempre parecia sentir-se mais forte.

Despedindo-se com um beijo rápido na testa de cada filha, atento mas vagamente apressado.

A mim deu-me um beijo leve no alto da cabeça.

Disse só:

Até já.

Sorri-lhe de volta, sem imaginar que aquele até já era para toda a vida.

Nos primeiros dias não entrei em pânico. O Vicente costumava partir em trabalho, visitava amigos, dizia que precisava de arejar.

Uma semana passou. Depois duas.

O telefone não tocava.

Os amigos encolhiam os ombros.

Chegou uma carta do banco: a conta estava bloqueada.

Do emprego uma mensagem: tinha pedido demissão, sem justificação.

Veio o medo.

Depois, a raiva.

Por fim, um vazio imenso.

Ficámos nós. Sete.

Eu e seis pares de olhos cheios de fé infantil de que o pai voltaria.

Não tive coragem de lhes dizer a verdade: ele não se perdeu, ele foi porque quis.

Comecei a trabalhar num café.

Acabei por fazer o turno da noite numa fábrica.

Depois limpezas, explicadora, cuidadora de idosos.

Dormia três horas por noite, comia o que sobrava.

As meninas foram crescendo.

Os sapatos ficavam pequenos, os cadernos terminavam num instante e as minhas mãos iam-se tornando mais ásperas.

Aprendi a resolver tudo sozinha: a torneira, o ferro, até consegui consertar o velho carro do senhor Joaquim, o vizinho, que me pagava em legumes.

Quando os vizinhos cochichavam:

Ela foi deixada e mesmo assim não desiste

eu sorria.

Não por eles. Pelas minhas filhas.

Anos depois, a mais velha, Margarida, disse-me:

Mãe, não precisamos dele. Somos umas às outras.

Assenti, pela primeira vez em anos sentindo-me em pé, mesmo que ainda de pernas a tremer.

Quinze anos voaram, como se fosse um só e longo amanhecer suspenso.

Cresceram, cada uma seguiu o seu rumo.

Uma foi estudar para Lisboa, outra ficou para ajudar em casa.

A mais nova, Leonor, ainda gostava de dormir ao meu lado dizia que assim só tinha sonhos bons.

Já não pensava em Vicente. Não lhe desejava mal, apenas o apaguei da memória como um disco riscado, impossível de ouvir ou esquecer.

Mas uma manhã alguém bateu à porta.

Pensei que era o carteiro.

Quando abri, congelei.

Lá estava ele. Cabelo branco, rugas profundas, o casaco surrado de outros tempos.

E no olhar, ainda o mesmo homem.

A voz também igual, apenas mais fraca.

Olá, disse. Voltei.

O ar tornou-se pesado.

Perguntei-lhe:

Porquê?

Baixou os olhos.

Estou doente. Os médicos dizem que me resta pouco tempo. Só queria ver-vos, a ti e às meninas.

As mãos tremiam-me, o peito apertado numa dor antiga.

Tirou do bolso um envelope pequeno.

Isto é para ti.

Peguei, sem pensar.

Uma fotografia amarelada: nós todos, jovens, junto ao rio. No verso, a letra dele:

Desculpa não ter estado ao teu lado. Quis ser alguém e perdi tudo. Vocês são a única memória de casa que me resta.

Faltaram-me palavras.

As lágrimas escaparam, não de pena, mas de cansaço.

Durante quinze anos ele fora só uma sombra e de repente era carne, com voz, com dor.

Fui fazer chá.

Sentámo-nos em silêncio.

Contou-me que tentara recomeçar a vida noutra cidade, mas que nada resultou.

Soube, disse, que tínhamos criado o fundo solidário Seis Mãos há dois anos.

Ajudaste outras mães, disse mães que também foram abandonadas. Tenho orgulho em ti.

Soou estranho, como se fosse outro a falar por ele.

De repente, perguntou-me:

Posso vê-las? Pelo menos uma vez?

À noite, elas vieram.

As mais velhas, sérias. As mais novas, reservadas.

Ele ficou perto da janela, sem saber como virar-se.

É ele? perguntou Margarida.

Sim, respondi.

O silêncio durou uma eternidade.

Depois Leonor deu um passo à frente.

És mesmo o pai?

Ele acenou, cabisbaixo.

Ela estendeu-lhe um desenho colorido.

Desenhei-nos a todos. Tu também estás aqui.

Ele chorou. Pela primeira vez.

Viveu mais três meses.

Não no hospital connosco.

Não como pai, nem como marido, mas como homem a aprender, finalmente, a ficar.

Todas as manhãs lia livros às mais novas.

Ajudava a Margarida a arranjar o carro velho do vizinho.

Sentava-se comigo, ficava em silêncio ou dizia:

Foste sempre mais forte do que eu.

No dia em que partiu, encontrei na mesa um bilhete simples:

Fugi porque tive medo. Medo de ser preciso. Medo de falhar.

Mas tu não fugiste.

Agora sei: forte é quem permanece.

Obrigado por ficares.

Desculpa não ter ficado eu.

Vi.

Na primavera, espalhámos as cinzas dele junto do rio daquela fotografia.

A água estava calma e morna.

Leonor perguntou:

Mãe, agora ele está em cada chuva, não é?

Sorri-lhe.

Sim, minha querida. Em cada uma.

Voltando a casa, percebi que afinal não tinha perdido nada.

Vivi sem ele, sim.

Mas nunca sem amor.

Porque amor nem sempre é estar juntos.

Às vezes é apenas: não desistir.

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O meu marido abandonou-me com seis filhos e só regressou passados quinze anos. Mas naquela manhã eu ainda não sabia que seria para sempre… Jamais imaginei que ele fosse capaz de algo assim…