O meu irmão olhou-me nos olhos, em frente de toda a família, e disse: “Já não tens lugar nesta casa”, como se eu não tivesse crescido nestas mesmas divisões.

O meu irmão olhou-me à frente de toda a gente e disse que já não tenho lugar nesta casa, como se eu não tivesse crescido exatamente nestas divisões.

Era um domingo à tarde. A casa dos nossos pais estava cheia de família. A mesa estava posta no quintal, como todos os verões. Cheirava a pimentos assados e pão acabado de fazer.

Desde que a nossa mãe faleceu, o meu irmão morava ali. Eu vinha de quando em vez ajudar na horta, ver o nosso pai, sentir-me por momentos de volta a casa.

Nesse dia trouxe um bolo. Era receita da nossa mãe.

Quando entrei no quintal, algumas tias cumprimentaram-me com carinho.
Leonor, anda cá, senta-te.
Sorri e coloquei a caixa na mesa.

O meu irmão, Ricardo, estava junto ao grelhador. Assim que me viu, o rosto ficou-lhe tenso.
Não sabia que vinhas disse.
O tom era frio. Não hostil mas suficiente para todos perceberem.

Só vim ver o pai respondi.
O nosso pai estava sentado numa cadeira junto à videira. Velho, calado, mas os olhos sorriram ao ver-me.
A Leonor veio disse baixinho.

Sentei-me ao pé dele. Falámos da horta, dos tomates, do tempo. Coisas pequenas.

Mas o ambiente mantinha-se preso.

Passado pouco, o Ricardo aproximou-se da mesa.
Leonor disse ele.
Olhei-o.
Precisamos de falar.

Alguns à volta ficaram em silêncio. Sentia-se que algo não estava bem.
Diz respondi, calma.

Ele suspirou, desviou o olhar, depois encarou-me outra vez.
Esta casa agora é da minha responsabilidade. Sou eu que trato de tudo.
Eu sei disse.

E acho que é melhor não estares sempre a aparecer por aqui.
Fez-se silêncio.

A nossa tia pousou o garfo na mesa.
Ricardo murmurou ela.
Mas ele levantou a mão.
Não, deixa-me acabar.

Fixou-me nos olhos.
Tu agora tens a tua vida. A tua casa. Já não pertence aqui.

As palavras caíram pesadas.

Olhei para o quintal. A videira, o banco antigo, a árvore onde brincávamos em pequenos.
Depois olhei para o meu pai. Ele tinha o olhar pousado no chão.
É mesmo isso que pensas? perguntei baixinho.
Sim.

Alguém murmurou atrás de mim:
Isto não está certo.

Mas o Ricardo não cedeu.
Levantei-me devagar.
Está bem disse.
A voz soava-me serena, mas por dentro doía.

Fui até ao nosso pai e pus-lhe a mão no ombro.
Venho ver-te outra vez murmurei.
Ele acenou levemente.

Peguei na caixa vazia da mesa.
O bolo fica disse num fio de voz.

O Ricardo parecia tenso, como se esperasse discussão.
Mas não discuti.
Apenas o encarei.

Ricardo uma casa não é só de quem segura na chave.

Ele não respondeu.

Fui saindo em direção ao portão. Quando o abri, ouvi alguém suspirar fundo atrás de mim.
Lá fora, o ar estava pacífico. Os pássaros cantavam, como se nada tivesse acontecido.

Mas dentro de mim, algo tinha mudado.

Às vezes, o mais doloroso é quando alguém julga que te pode tirar o lugar onde cresceste.

E ainda me pergunto
se estivesses no meu lugar, voltavas a entrar neste quintal?
Ou nunca mais atravessavas este portão?

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

O meu irmão olhou-me nos olhos, em frente de toda a família, e disse: “Já não tens lugar nesta casa”, como se eu não tivesse crescido nestas mesmas divisões.