O meu irmão olhou-me nos olhos diante de toda a família e disse: “Já não há lugar para ti nesta casa”, como se eu não tivesse crescido nestes mesmos quartos.

O meu irmão olhou-me à frente de toda a família e disse que já não tenho lugar nesta casa, como se eu não tivesse crescido ali, dentro daquelas paredes. Era um domingo à tarde. A casa dos nossos pais estava cheia de familiares. A mesa estava posta no quintal, como todos os verões. Cheirava a sardinhas assadas e pão caseiro quente.

Desde que a nossa mãe partiu, o meu irmão passou a viver ali. Eu vinha de vez em quando, ajudar na horta, ver o nosso pai, sentir-me em casa, mesmo que só por umas horas.

Nesse dia tinha levado um bolo, feito com a receita da mãe. Ao entrar no quintal, algumas das minhas tias receberam-me com abraços.

Matilde, anda, senta-te.

Sorri-lhes e deixei a caixa sobre a mesa. O meu irmão, Manuel, estava junto ao grelhador. Quando me viu, o rosto dele ficou tenso.

Não sabia que vinhas disse ele.

O tom era frio. Não era agressivo, mas era frio o suficiente para toda a gente reparar.

Só vim visitar o pai respondi.

O nosso pai estava sentado numa cadeira, à sombra da videira. Velho e calado, mas os olhos sorriam quando me viu.

A Matilde está aqui murmurou ele, baixinho.

Sentei-me ao lado dele. Falámos sobre a horta, os tomates, o tempo. Conversa simples, de todos os dias.

Mas o ar nunca perdeu a tensão.

Pouco depois, o meu irmão chegou à mesa.

Matilde chamou ele.

Olhei.

Precisamos de conversar.

Alguns à mesa calaram-se. Toda a gente percebeu imediatamente que algo estava errado.

Diz repliquei, calma.

Ele suspirou, olhou para longe e depois voltou a fixar-me.

Esta casa agora é da minha responsabilidade. Sou eu que cuido de tudo.

Eu sei disse.

Acho que é melhor não vires cá tantas vezes.

Fez-se silêncio.

Uma das nossas tias pousou o garfo.

Manuel disse ela baixinho.

Mas ele levantou a mão, interrompendo-a.

Não, deixem-me falar.

Olhou-me nos olhos.

Tu tens a tua vida, a tua casa. Já não tens lugar aqui.

As palavras caíram pesadas.

Olhei para o quintal. A videira, o velho banco, a árvore onde brincávamos em crianças.

Depois olhei para o nosso pai. Ele fitava o chão.

É isso que pensas? perguntei baixo.

Sim.

Alguém atrás de mim murmurou:

Isto não está certo.

Mas o meu irmão manteve a decisão.

Levantei-me devagar.

Está bem disse.

A voz calçou-me de calma, mas por dentro tudo doía.

Aproximei-me do nosso pai, pousando-lhe a mão no ombro.

Ainda venho ver-te murmurei.

Ele anuiu, quase impercetível.

Peguei na caixa vazia da mesa.

O bolo fica disse apenas.

O meu irmão parecia tenso, como se esperasse uma discussão.

Mas não discuti.

Limitei-me a olhar para ele.

Manuel uma casa não é só de quem tem a chave.

Ele não respondeu.

Fui em direção ao portão. Quando o abri, ouvi atrás de mim um suspiro profundo.

Cá fora, o ar estava sereno. Os pássaros cantavam, como se nada tivesse acontecido.

Mas dentro de mim, já nada era igual.

Às vezes, das dores maiores é quando alguém acha que pode tirar-te o lugar onde cresceste.

E fico a perguntar-me…

se alguém estivesse no meu lugar, teria coragem de voltar aquele quintal um dia…

ou nunca mais atravessaria aquele portão?

Compreendi, naquele dia, que por mais que o tempo passe, o que dói de verdade é perceber como o lar, às vezes, fica só nas memórias.

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O meu irmão olhou-me nos olhos diante de toda a família e disse: “Já não há lugar para ti nesta casa”, como se eu não tivesse crescido nestes mesmos quartos.