Nos últimos três meses, eu e o meu irmão temos andado às turras, até com advogados, por causa da nossa mãe. Desde o AVC, ela não está completamente funcional. Esquece-se de si mesma a toda a hora, precisa de alguém sempre por perto. Aquilo que ela mais precisa é de cuidados constantes. Tudo acabou por cair sobre os meus ombros, parece que voltei a cuidar de uma criança pequena. Mas eu tenho um emprego, uma casa e uma família, sabes? Como é que posso dar conta de tudo e ainda cuidar da mãe?
Propus levá-la para um lar de idosos, mas o meu irmão ficou fora de si e começou logo com acusações, a dizer que estou a ser cruel com ela. Ao mesmo tempo, não quer saber de levá-la para viver com ele. No fim de contas, ele mora no apartamento da mulher dele em Lisboa.
Antes, éramos uma família próxima, aquela típica família portuguesa de quatro, eu e o meu irmão só temos um ano de diferença. Os nossos pais tiveram-nos já mais velhos. Agora, tenho 36 anos, o meu irmão 35, e a minha mãe já vai nos 72. Até o meu pai partir, corria tudo bem.
Depois, o meu irmão foi estudar para o Porto, ficou por lá, casou-se, e eu acabei por regressar a Setúbal, onde cresci. Fiz vida aqui, primeiro ainda em casa dos pais, mas depois de casar, eu e o meu marido, Luís, preferimos alugar um apartamento nosso. A ideia era mais tarde comprar casa e pensar em filhos planos normais.
Há dois anos perdi o meu pai. A minha mãe ficou completamente destroçada… perdeu o brilho, envelheceu de repente. Andava doente e, há uns seis meses, sofreu aquele AVC que nos assustou tanto. Pensei mesmo que não sobrevivia. Ao princípio, mal falava e pouco mexia os braços ou pernas. Com o tempo melhorou, mas a mente nunca recuperou bem.
Os médicos disseram que era irreversível. E lá tive eu de assumir os cuidados em tempo inteiro. Eu e o Luís mudámo-nos para o apartamento da minha mãe. Mudei de trabalho, comecei a fazer traduções como freelancer só para estar mais perto. Não a podia deixar sozinha. Mesmo quando voltou a andar, não melhorou muito.
Baldeava-se, perdia-se na rua, e nós sempre atrás dela, sem conseguir controlar nada, ela chorava dizendo que o meu pai estava à espera dela em alguma esquina. Enfim, só confusão. Dormia mal, sempre com medo que ela saísse para algum lado. O trabalho, claro, ficou para segundo plano. Não havia cabeça para nada. O Luís sugeriu então o lar.
Custava um balúrdio, claro, mas se organizássemos bem as contas, dava para pagar os cerca de 1.300 euros mensais. O Luís dizia: “Tens um irmão, ele também tem de contribuir”, e faz sentido, não é?
Andei a remoer durante semanas, mas percebi que não havia alternativa. Quanto tempo mais ia dar conta disto? No lar, pelo menos, teria cuidados e assistência médica a toda a hora. Fui ao sítio, informei-me em detalhe. É caro, mas enfim, era o caminho possível.
Finalmente telefonei ao meu irmão e contei-lhe tudo, sem floreados. Esperava que ele tivesse maturidade para perceber a realidade, mas saiu pior que estragado.
“Estás maluca, Inês? Vais pôr a mãe num lar? Não conheces aquelas pessoas, e se a tratam mal lá dentro? Que coração é esse, pá?! Ou queres simplesmente tirar a mãe de casa para te livrares dela?!”
Tentei explicar, mas ele nem quis ouvir. Continuei a cuidar da mãe, até sentir que estava completamente esgotada. Voltei a falar com ele, mas continuou na mesma posição.
É claro que não queria fazer isto à minha mãe. Ela deu-nos tudo, educou-nos. Fomos criados com todo o carinho, e nunca ouvimos uma queixa sobre o trabalho que demos. Ambos lhe devemos muito, mas porque é que só eu tenho de carregar com tudo?
Disse-lhe: “Olha, se achas que não devo levá-la para o lar, então leva-a tu para tua casa e mostra-lhe essa tua tal bondade”. Ele responde: “Sabes que eu moro com a Ana, é o apartamento dela. Nem sei como convencer a minha mulher a cuidar da sogra.” E eu: “Então e achas que o meu marido pode cuidar da sogra e a tua mulher não pode? Eu e o Luís vivemos com a mãe, é natural que ele ajude. Mas responsabilidade é dos dois!”
Comentei que podia simplesmente sair de casa da mãe na altura, arranja tu e a tua mulher forma de a ajudar. Ele hesitou, a dizer que trabalha, que lhe é impossível mudar-se e que só estou a inventar para fugir das responsabilidades.
Olha, sinto-me num pesadelo. Por um lado, sei que a melhor solução é mesmo o lar vai ser melhor para todos, ela vai estar cuidada e nós podemos respirar um pouco. Mas ao mesmo tempo, sinto aquele peso… medo de ser a filha ingrata. O Luís está comigo, diz que lá ela vai estar mais segura e nós temos vida própria para continuar.
Decidi que ia esperar uma semana. Se o meu irmão não se mexer, faço à minha maneira. Ela vai para o lar não há outra volta a dar. É fácil para os outros dar conselhos quando não fazem ideia do que é cuidar de uma pessoa doente 24 horas por dia. Eu vou fazer o que for melhor para ela e para todos. E ele que se entretenha a arranjar desculpas para contar aos amigos já não tenho paciência para mais.







