Mãe, abre a porta. Sou eu. E não estou sozinho.
A voz da Mariana soou atrás da porta, estranhamente firme e até oficial. Fechei o livro, ajeitei o cabelo junto ao espelho do corredor e segui em direção à entrada. Lá dentro já sentia a inquietação crescer-me no peito, como raízes invisíveis a apertar-me a respiração.
À porta estava a minha filha, e atrás dela, um homem alto de sobretudo escuro, seguiam-lhe os movimentos educados de quem já não é estranho a grandes gabinetes. Segurava uma pasta de pele cara e analisava-me de cima a baixo com um olhar frio daqueles que pesam, que avaliam para decidir se guardam ou deitam fora.
Podemos entrar? perguntou Mariana, nem sequer ensaiando um sorriso para mim.
Ela entrou como quem já sente que manda, convencida do seu poder. O desconhecido seguiu-lhe o trilho, quase sem pisar a chão.
Apresento-te o Dr. Gonçalo Matias, largou ela, desapertando o casaco. Ele é psiquiatra. Só vamos conversar um bocadinho. Estou preocupada contigo.
A palavra preocupada soou-me a sentença de tribunal. Fitei esse tal Dr. Gonçalo Matias. As têmporas já grisalhas, os lábios finos, sempre comprimidos, e um par de olhos cansados por trás de uns óculos de armação moderna mas era qualquer coisa nos gestos dele, na forma como levantava o queixo para observar, que me deixou gelada de súbito.
O meu coração deu um salto, e mal tive tempo de recuperar o fôlego. Gonçalo. Quarenta anos passados, mas era ele. O homem que amei até à loucura e que expulsei da minha vida com a mesma fúria. O pai escondido da Mariana, que nunca soube da existência da filha.
Boa tarde, Margarida Duarte disse ele, polido, com a voz de quem empurra diagnósticos até para quem não solicita. Nenhum músculo lhe tremeu no rosto. Não sabia quem estava diante dele? Ou fingia que não sabia?
Assenti em silêncio, as minhas pernas tornadas pedra. O mundo inteiro reduziu-se àquele rosto sereno e profissional, que era afinal a última pessoa que a minha filha podia ter escolhido para me julgar.
Ela trouxe um homem à minha casa para me declarar incapaz e, ironia suprema, esse homem era o próprio pai dela.
Venham para a sala, convidei, surpreendida da calma que me soava na voz. Mal a reconheci.
Mal se sentou, a Mariana esvaziou a conversa toda de uma vez que eu tinha apego doentio à casa, que recusava aceitar a realidade, que era demasiado grande para mim viver ali sozinha. Queria ajudar-me, comprar-me um T0 ao lado dela e do Paulo, manter-me em segurança e ainda me deixar algum dinheiro euros, claro para nada me faltar.
Falava de mim como de uma cómoda que já não combina com a decoração e deve ser recambiada para o sótão. Gonçalo, ou melhor, Dr. Gonçalo Matias, escutava e tomava apontamentos no seu bloco como quem já nem se surpreende.
E de repente, virou-se para mim:
Margarida, fala muitas vezes com o seu marido falecido?
Mariana baixou os olhos. Devia ter sido ela a contar-lhe. O meu hábito de comentar coisas em voz alta à fotografia do João tornou-se, na boca dela, sintoma de patologia.
Olhei da cara aflita da minha filha para o olhar impassível do pai dela. E, passo a passo, a raiva foi empurrando o choque para fora de mim.
Estavam ali, dois vultos, à espera da minha resposta. Um com avidez, outro com clinicamente estudado interesse. Se querem jogos, terão jogos.
Falo, sim, desafiei, olhando Gonçalo nos olhos. Às vezes até me responde. Especialmente quando o tema é traição.
Ele limitou-se a escrever uma linha. Aquele gesto dizia mais do que palavras: A paciente reage defensivamente à confrontação, mantém mecanismos de projeção. Quase que conseguia ler a caligrafia.
Mãe, não digas disparates protestou Mariana, nervosa. O doutor só quer ajudar. Não tens de ser cínica.
Ajudar em quê, minha querida? Ajudar-te a libertar a casa?
Olhei-a, cheia de mágoa, a querer abaná-la e gritar Acorda! Vê bem quem foi que trouxeste para decidir da tua mãe!
Mas fiquei calada. Mostrar o jogo era perder a partida.
Não é isso ficou ruborizada, sintoma de que ali dentro ainda vivia alguém humano. Eu e o Paulo só nos preocupamos. Não queremos que fiques aqui presa às recordações
Gonçalo ergueu a mão, a acalmar.
Mariana, dê-me licença. Margarida, o que entende por traição? Vamos falar sobre isso.
O olhar dele nunca vacilou. Tive vontade de o pôr à prova.
A traição tem mais que uma face, doutor. Às vezes uma pessoa sai de casa para ir comprar pão e nunca mais volta. Outras vezes, regressa anos mais tarde para te retirar o que restou.
Esperei por uma reação. Nada. Só uma sombra de interesse profissional.
Ou era um mestre do disfarce, ou já não lhe restava memória.
Interessante metáfora, comentou. Então sente que o cuidado da Mariana é uma tentativa de lhe tirar algo? Este sentimento é antigo?
Interrogava-me, polido, a alinhar-me no mapeamento mental que já dispensara a tantas Margaridas. Eu sabia: cada palavra, cada gesto meu, encaixaria onde lhe conviesse.
Mariana, voltei-me para a filha, fingindo ignorar o médico. Acompanha o doutor à porta. Tenho de te dizer uma coisa em privado.
Não, disse ela, inflexível. Falamos todos juntos. Não quero que venhas com manipulações nem tentes comover-te. O doutor Gonçalo está aqui justamente para ser imparcial.
“Imparcial”. O meu ex-marido, que não pagou um cêntimo de pensão porque nem sabia que era pai.
O mesmo pai que a Mariana nunca conheceu. Trágica ironia.
Mas dominei-me. O riso, naquele contexto, seria considerado mais um sintoma.
Está bem, anui repentinamente dócil. Senti cá dentro uma coisa esfriar, a transformar-se num fio de aço gelado. Então, diga lá como me quer ajudar.
Mariana suspirou de alívio, entusiasmada a descrever as maravilhas do pequeno estúdio nos Olivais, o porteiro, os bancos do jardim cheios de avós como eu.
Eu ouvia-a, mas olhava para Gonçalo. E percebi tudo num instante.
Ele não só não me reconheceu. Olhava-me agora com o mesmo desprezo silencioso que sempre dedicou àquilo que julgava inferior: o meu gosto por tecidos floridos, os romances nas estantes, o meu sentimentalismo de província.
Fugiu disto há muito, e agora regressava, sem saber, para me pôr o carimbo de doente e encurralar-me.
Vou ponderar a sua proposta, disse eu, erguendo-me. Agora peço desculpa, mas preciso de descansar.
Mariana ficou satisfeita, convencida que vencera. Eu ia pensar no assunto.
Claro, mãe. Descansa. Depois falamos.
Saíram, e Gonçalo lançou-me um olhar rápido vazio, profissional.
Fechei a porta à chave, olhei da janela enquanto desciam à rua. Mariana falava com gestos largos, animada. Gonçalo, de mão no ombro dela, ouvia. Pai e filha, pintados de harmonia. Entraram no carro caro dele e desapareceram rua fora.
Fiquei na casa que já sentiam deles, repartindo mentalmente cada divisão.
Só esqueceram uma coisa: eu não era apenas a velha sentimental de sempre. Fui uma mulher traída uma vez. E não voltaria a sê-lo.
De manhã, o telefone tocou às dez em ponto. Mariana, eficiente e cheia de energia.
Mãe, estás melhor? O Dr. Gonçalo disse que precisa de uma segunda consulta, mais formal. Uns testes. Pode passar aí amanhã ao almoço.
Mexia entre as mãos a velha colher de prata da minha avó, sentindo-lhe o frio.
Estás a ouvir, mãe? insistiu. Só uma formalidade. O Paulo até já foi ver as cortinas para a tua sala. Diz que em verde-azeitona ficam perfeitas.
Cortinas.
O click não foi som, foi sensação. Um fio muito tenso a rebentar por dentro. Já escolhiam as cortinas para a minha casa. Para o meu lar. Nem sequer esperaram pelo meu fim: já dividiam o recheio da minha história.
Está bem, pode vir. respondi, gelada. Estou à espera.
Desliguei antes que pudesse festejar. Chega. Chega de ser útil, submissa, fraca. Chega de desempenhar a vítima na peça deles. Era tempo de escrever o meu próprio acto.
Fui ao computador. Psiquiatra Gonçalo Matias.
A internet não esquece. Lá estava ele: médico de sucesso, dono da clínica particular Equilíbrio da Alma, autor de artigos, presença regular na televisão.
Na fotografia, sorria seguro e competente.
Anotei o número da clínica. Marquei uma consulta no meu nome de solteira, Margarida Neto.
A rececionista informou-me, simpaticíssima, que o doutor teria uma vaga pela manhã. Que sorte.
A noite passei a remexer caixas velhas. Não procurava provas. Procurava-me. A rapariga de vinte anos de quem ele fugiu, grávida, porque eu não encaixava nos sonhos dele.
Sobrevivi, cresci a filha sozinha, dei-lhe tudo. Agora vinha ela trazer o pai de volta para me descartar.
No dia seguinte, vesti o fato escuro, penteei-me com rigor, fiz maquilhagem discreta. Olhei-me ao espelho: não era uma mulher derrotada, era um general antes da batalha.
A clínica Equilíbrio da Alma cheirava a perfume caro e limpeza. Levaram-me ao consultório enorme, moderno, vistas panorâmicas, móveis de pele.
Gonçalo sentava-se atrás de uma mesa imponente. Ao ver-me, surgiu-lhe um esgar de confusão no rosto. Não esperava por esta paciente.
Bom dia, convidou, indicando a cadeira à frente. Margarida Neto? Em que posso ajudar?
Sentei-me, arrumando a mala no colo. Não vim acusar, vim usar outra arma.
Doutor, venho pedir opinião profissional, comecei com a voz firme. Imagine o caso clínico de um menino cujo pai deixou a mãe enquanto ela estava grávida. O pai não soube nunca da criança. O rapaz cresceu. Muitos anos depois, sem querer, cruza-se com o pai. Sucesso, riqueza. E elabora um plano
Eu falava, ele escutava. Primeiro com cuidado clínico, depois com crescente tensão. Vi-lhe o rosto a mudar. O especialista caía, restava o homem.
Diga-me, doutor, fiz uma pausa, fixando-o. Que trauma acha mais marcante? O do filho abandonado ou o que o pai sentiria ao perceber que ajudou esse filho a tentar declarar incapaz a própria mãe? A sua ex-mulher. Lembra-se de mim, Gonçalo?
Foi como se o chão lhe faltasse. A caneta cara escapou-lhe da mão. Cor ficou-lhe cinzenta.
Margarida?.. sussurrou. Não era pergunta, era reconhecimento.
Sim, sorri, amarga. Não esperavas? Eu também não imaginava que a filha me fosse trazer o próprio pai para me tirar de casa.
Abriu e fechou a boca sem som, desmoronado. Já não havia doutor, só aquele rapaz que um dia fugiu de mim.
Eu não sabia murmurou enfim. A Mariana é minha filha?
É. Faz o teste de ADN se te apetecer. Ou olha para as fotografias dela em pequena.
Tirei da mala o álbum antigo e abri na foto onde a Mariana, bebé, era cópia dele.
Ele fitar a imagem e os ombros caíram-lhe – vi a vida perfeita esburacar-se por dentro.
Nisto abriu-se de rompante a porta. Era a Mariana.
Dr. Gonçalo, tentei ligar, não atendeu! A mãe contou-me que
Parou, ao ver-me na cadeira do paciente. O sorriso morreu-lhe nos lábios, nasceu-lhe a perplexidade. Depois, veio o pânico.
Mãe? O que estás aqui a fazer?
O mesmo que tu, filha. Vim pedir um parecer ao especialista imparcial. Estamos a discutir o teu caso. Não é, doutor?
Mariana olhava de mim para Gonçalo, sem perceber. E esta ignorância foi-me a última gota de paciência.
Conhece, Mariana. Não é só o Dr. Gonçalo. É Gonçalo Matias. O teu pai.
O mundo dela caiu. Vi-lhe nos olhos: choque, negação, súbita compreensão. Olhou para ele, para mim. Lábios trémulos.
Pai?.. quase murmurou.
Gonçalo estremeceu. Fixava-a com olhos cheios de dor e arrependimento julguei sentir pena dele por um instante.
É verdade admitiu. Sou teu pai. E não sabia. Desculpa.
Ela já não o ouvia. Olhava-me e vi todo o peso da sua traição cair-lhe no peito. Pela ânsia de uns metros quadrados, destroçou-me a vida, arrancou a maior das minhas dores para usá-la contra mim.
A Mariana caiu na cadeira e tapou o rosto, chorando silenciosa.
Levantei-me. A minha missão ali estava encerrada.
Agora é convosco. Um abandonou. A outra traiu. São dignos um do outro.
***
Meio ano passou. Vendi aquele apartamento. Já só cheirava a lembranças más.
Gonçalo ajudou-me a encontrar uma casinha fora de Lisboa, com um pequeno jardim. Não pediu perdão sabia que era inútil.
Só foi estando ao meu lado. Falámos. Horas a fio, sobre tudo o que ficou por dizer durante quarenta anos.
Fomos redescobrindo-nos. Não havia amor antigo, mas algo novo nascia, frágil uma amizade feita de luto partilhado e arrependimento tardio.
Mariana telefonava quase todos os dias. Ao início ignorei, depois comecei a atender.
Chorava, pedia desculpa. Contou que o Paulo a deixara, chamando-lhe monstro. Pagava agora tudo na mesma moeda. A ganância destruiu-lhe a vida.
Numa noite serena, a olhar o pôr do sol do meu novo alpendre, telefonei tocou outra vez. Era Mariana.
Mãe, sei que errei. Sei que fui impiedosa. Só queria perguntar-te se um dia conseguirás perdoar-me?
Olhei o céu, as árvores, o homem que agora me segurava suavemente a mão.
Já não me doía nada. Só sentia paz.
O tempo dirá, filha. O tempo cura tudo. Mas lembra-te: nunca construas a tua felicidade em cima de quem te deu a vida.







