O meu filho trancou a porta quando fui visitá-lo… e fingiu que não estava em casa.

O meu filho trancou a porta quando fui visitá-lo e fingiu que não estava em casa.

Eu sabia que estava lá dentro.
Vi a luz acesa.
Ouvi também o som da televisão.
Mas quando toquei à campainha, caiu aquele silêncio estranho, tão espesso como os nevoeiros na manhã de dezembro, que só aparece quando alguém decide não abrir.

Fiquei diante da porta, hesitante, como se o chão fosse feito de molas. Voltei a tocar.
Uma vez, duas vezes, três vezes.
Por fim, encostei-me à parede do corredor e murmurei:

Tomás sei que estás aí

Nada.
Só a televisão continuava a falar, misturando vozes com sons de sonho e ecoando pela casa como se fosse uma presença de verdade.

Naquele instante, percebi que às vezes se pode sentir mais só diante de uma porta fechada do que numa rua deserta.

Eu sou a mãe dele.
Criei-o sozinha.
O pai dele partiu quando o Tomás tinha seis anos.

Lembro-me de o levar à escola todas as manhãs, de passar noites acordada quando tinha febre, de o embalar nos meus braços e de afastar as sombras quando tinha medo do escuro e corria para a minha cama.

Mamã, não me deixes sozinho.

E agora era eu que estava sozinha diante da porta dele.

Pouco depois, o elevador abriu-se.
A dona Odete, a vizinha do terceiro andar, saiu.

Olhou para mim.
Está à espera de alguém?

Sorri, sem jeito:
Do meu filho.

Ela olhou para a porta.
Mas ele acabou de chegar

O meu coração apertou-se como se estivesse preso numa rede de pescador.
Eu sei.

Desci as escadas, uma a uma, porque não queria esperar pelo elevador nem chorar diante dos outros moradores.

Quando cheguei à rua, o telemóvel vibrou.
Uma mensagem.
Do Tomás.

Mamã, desculpa. Não era o melhor momento.

O melhor momento.
Essas palavras pareciam pertencer a outro idioma, como se fossem sussurradas pelo vento.

Não dormi a noite inteira.
No dia seguinte decidi que não lhe escrevia.
Se alguém nunca quer abrir a porta para ti, não adianta forçar.
Passaram três dias como se fossem três estações.

Depois o telefone tocou.
Era o Tomás.
A voz dele soava diferente, como um eco de outro tempo.

Mamã posso ver-te?

Porquê?

Ele ficou em silêncio.
Ontem aconteceu uma coisa

O quê?

O filho do vizinho perguntou-me uma coisa.
Suspirou.

Perguntou porque é que a avó dele está sempre lá com eles, mas a minha mãe nunca vem visitar-me.

O meu coração ficou pequeno, como um pássaro no inverno.

E o que lhe respondeste?

Nada não soube o que dizer.

Depois, num sussurro, ele confessou:

Percebi que se continuar assim, um dia o meu filho vai achar normal fechar a porta à mãe.

Silêncio.

Mamã voltas aqui?

Olhei para o telefone, demoradamente.
Por fim, disse baixinho:

Desta vez vais abrir a porta?

Do outro lado ouvi apenas uma frase simples.

Sim.

E às vezes é mesmo isso o mais difícil.
Abrir a porta.

Como agiriam vocês no meu lugar?

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