O Meu Filho Não Quer Mais Ver-me: Como a Minha Tentativa de Proteger o Meu Menino Acabou por Afetar …

Mãe, o que disseste à minha mulher? Ela já estava a fazer as malas para ir embora.
Apenas disse a verdade, filho. Tens de perceber que ela não é a pessoa certa para ti; a Leonor dar-te-ia muito mais felicidade.
Que Leonor? Mãe, mas que histórias tens tu na cabeça?

Sempre soube que o meu filho era especial. Foi o primeiro a nascer, aquele por quem nutri um amor incondicional e imenso. Quando cresceu e casou, senti um vazio e custou-me aceitar que já não era eu a mulher mais importante na vida dele. Sempre fui a dedicar-me de corpo e alma, principalmente porque o pai estava sempre fora, em viagens de trabalho, e tudo caiu sobre mim. Aprendi a remendar bicicletas, a jogar à bola, aos polícias e ladrões, só para mostrar ao meu menino que podia contar comigo para tudo.

É por isso que, mesmo depois de casado, continuo a preocupar-me tanto. O bem-estar do meu filho é o mais importante. Se ele for feliz, eu sou feliz. Fiz questão de o ajudar em tudo, até nos afazeres domésticos, porque sei que trabalha muito e estuda ao mesmo tempo.

A mulher dele nunca cuidou dele como eu. Não vê que as roupas ficam acumuladas, nunca cozinha, a casa está sempre um caos. E ele também não tem grande jeito para essas coisas. Por isso, todas as semanas vou lá a casa e pego na roupa suja, levo para minha casa, lavo com o detergente especial dele porque tem alergias, passo a ferro com carinho, e devolvo tudo em silêncio quando ninguém está lá. Tenho chave desde que ele me deu, para poder passar por lá quando me apetecesse.

A minha nora acha um exagero. Diz que já está na altura de o ensinar a ser independente. Mas como posso eu largar o meu filho à mercê daquele desmazelo? Coitada, nem sabe que não se pode misturar lã com algodão nem passar ferro sem separar as calças das camisolas. O ano passado tive de desfazer um casaco de lã que fiz para ele, porque ela meteu-o a lavar a ferver e ficou tudo deformado.

O meu marido ralha comigo, diz que estou a ser superprotetora, que ele que assuma as consequências de ter escolhido uma mulher assim. Mas eu não consigo dormir descansada a saber que ele chega a casa cansado e ainda tem de tratar de tudo.

Um dia tomei uma decisão: iria lavar-lhe as roupas uma última vez, para depois não mais incomodar. Aproveitei um dia em que eles tinham ambos saído para o trabalho, fui lá, peguei em toda a roupa até umas peças da minha nora, porque estavam a cheirar mal e não queria que ficassem misturadas levei tudo comigo e comecei de imediato a tratar da roupa.

Lavei e passei também umas mantas que já estavam a pedir, tudo muito bem dobrado dentro de um saco grande. Como moramos praticamente porta com porta, não me custou muito, só que nessa manhã o elevador do prédio estava avariado. Subi quatro andares com aquele saco, as pernas a doer-me e as lágrimas nos olhos pensava no meu menino, nas dificuldades dele, só queria que ele tivesse uma vida decente. Fui subindo, devagar, a pensar porque é que a felicidade dos filhos custa tanto às mães.

Chegada à porta, entrei como sempre sem fazer ruído. O cão dos vizinhos estava por perto e não queria chamá-lo à atenção com barulhos. Estranhei logo ao ver sapatos espalhados na entrada. Fui até ao quarto, ao apanhar uns calções do chão, ouvi uns gemidos que vinham do quarto. Abri a porta e vi o meu filho com outra mulher, de cabelo escuro. Fiquei petrificada. Ele olhou para mim e, furioso, gritou:

Mãe, sai daí! Não me dás um segundo de paz!
Saí, peguei nas roupas e chamei-o à cozinha:

Sai, preciso falar contigo.

Minutos depois ele apareceu com o robe que lhe tinha oferecido no Natal.

Mãe, o que fazes aqui?
Filho, só vim deixar-te as roupas limpas, como sempre.

Normalmente avisas.
Pensei que não fazia mal, só queria ajudar-te.

Podes não vir sem avisar? Isto é a minha casa, mãe.

Suspirei e, sem jeito, perguntei:
Aquela rapariga não é a tua mulher, pois não?

Não, mãe, é outra pessoa. Não era suposto veres nada disto.
Estás a trair a tua mulher?
Acho que sim. Sei que não vais aprovar
Filho, a escolha é sempre tua, mas lembra-te que as tuas decisões trazem consequências.
Ele sorriu meio envergonhado:
Gosto mais da Leonor. Ela é atenciosa, cuida de mim, arruma a casa. A Filipa só pensa no trabalho, deixa tudo ao abandono. Mas vou continuar com ela. Isto não passa de uma aventura.
Seja como for, filho, eu quero é a tua felicidade. Agora, vou deixar-te em paz se tiveres alguém que cuide de ti como deve ser.
Deixei lá as roupas e saí.

No fundo, senti-me até aliviada por vê-lo com alguém que parece cuidar dele. Notei logo a casa mais arrumada, sopa no tacho sinais das mãos de outra mulher.

Uma semana depois, estava eu no supermercado aqui do bairro e dou de caras com a Filipa. Como sempre, enchia o cesto com coisas esquisitas e caras abacate, pão integral, quinoa, kefir. Fui ter com ela:
Filipa, andas a fazer dieta?
Olá, dona Graça. Sim, eu e o seu filho queremos ir ao Algarve no verão e queremos estar em forma para as fotografias.
Tu e o meu filho? Mas pensei que já não estivessem juntos.
Como assim?
Ele está com outra, a Leonor.
Que outra? Não há tal coisa. Nem sequer discutimos ultimamente.
A Leonor veio cá, fez-lhe companhia, arrumou tudo, vi que se davam muito bem
Devo estar a sonhar! Ainda por cima diz sempre mal de mim ao rapaz, e agora arranja-lhe outra? Dê-nos espaço, por favor!
Filipa largou o cesto e saiu do supermercado disparada. Só aí me apercebi que talvez tivesse ido longe demais.

Depois desse episódio, o meu filho ligou-me:
Mãe, que ficaste a dizer à Filipa? Está a fazer as malas para sair de casa!
Disse-lhe apenas a verdade. Ela não serve para ti, a Leonor é melhor para ti.
Que Leonor, mãe? Não há Leonor nenhuma!
Mas então e aquela rapariga?
Não inventes mais, não me lixes a vida. Agora mudamos a fechadura. Não voltes a meter-te na nossa vida para mim já não existes!

Fiquei ali, parada, sentindo que o meu amor e as minhas intenções estavam a afastar o meu filho em vez de o proteger. Às vezes, na ânsia de fazer o bem, ultrapassamos limites que só cabem aos outros. E aprendi, embora tarde, que a felicidade dos filhos não é feita à nossa medida, mas à deles. O verdadeiro amor é saber deixá-los caminhar, mesmo que doa.

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