O meu filho não me telefona há três meses. Sempre pensei que estivesse ocupado com o trabalho. No fim, decidi ir ter com ele, sem avisar. Quando bati à porta, abriu-me uma mulher que nunca tinha visto e disse que já vivia ali há meio ano.
Se não tivesse apanhado o autocarro para Lisboa naquele dia, provavelmente ainda estaria a enganar-me, pensando que o Duarte apenas não tinha tempo.
Que era o trabalho, que era mais um projeto, que os jovens de hoje vivem sempre a correr e esquecem-se de ligar à mãe. Mas fui. E o que encontrei à porta do apartamento dele virou-me o mundo ao contrário.
No início, parecia apenas uma mudança de rotina. O Duarte costumava ligar-me ao domingo, por volta do meio-dia, entre a minha canja e o seu café tardio. Às vezes, enviava-me mensagem a meio da semana: perguntava pela tensão arterial, se já tinha ido ao médico ou se a Dona Conceição do rés-do-chão ainda fazia barulho. Coisas do dia a dia. Depois do falecimento do Joaquim, as ligações do meu filho eram para mim tão necessárias quanto o ar. Era tudo o que me restava.
Sessenta e dois anos, cinco de viuvez, trinta e três de serviço na Câmara Municipal, Secção de Topografia e, de repente, a reforma, a casa vazia, e um silêncio só interrompido por aquela chamada de domingo.
Em maio, o Duarte deixou de ligar.
Ao início, não me preocupei. Na primeira semana pensei: esqueceu-se. Enviei-lhe uma mensagem. Respondeu de volta: “Muito trabalho, depois ligo”. Não ligou. Segunda semana, novo SMS. “Está tudo bem, mãe, depois falamos”. Terceira, silêncio. Liguei, não atendeu. Só respondia horas depois, palavras curtas, como se não fosse ele a escrever.
A Maria José, amiga das aulas de movimento sénior no centro cultural, disse-me logo:
Olha, Filomena, vai lá ter com ele. Não é normal.
Se calhar arranjou namorada e não me quer contar tentei defendê-lo, mais para mim do que para ela.
Ainda mais motivo para te ligar encolheu os ombros.
Mas eu fui adiando. O Duarte nunca gostou de surpresas. Ainda em vida do Joaquim, uma vez fomos sem avisar e ele ficou com um ar como se o tivéssemos apanhado a fazer algo de errado, quando só tinha a cozinha desarrumada. Era assim: gostava de ter o seu espaço. Eu achava que compreendia.
Em agosto cheguei ao meu limite. Comprei bilhete para o autocarro para Lisboa três horas de viagem do Porto. Levei um frasco de doce de abóbora feito por mim e uma caixa do meu famoso bolo de requeijão, que ele sempre adorou desde o liceu. Durante o caminho, ia preparando na cabeça o que lhe havia de dizer. Que tinha saudades, que não precisava de ligar todos os dias, mas uma vez por semana não custa nada. Que sou a mãe, não um peso.
Entrei no prédio já depois das três. Terceiro andar, porta à direita, tapete castanho com Bem-vindo que lhe ofereci quando se mudou.
O tapete já não estava lá.
No lugar dele, uma base cinzenta, sem nada escrito. Toquei à campainha. Abriu-me uma mulher jovem, trinta e poucos anos, cabelo escuro, corte à Maria João, fato de treino e caneca de chá na mão.
Boa tarde, procuro o Duarte Figueiredo disse, tentado manter a calma.
Ela semicerrrou os olhos.
Não conheço nenhum Duarte. Moro aqui há mais de seis meses.
Fiquei ali, segurando o bolo e o doce, sem conseguir respirar. A mulher Marta, depois apresentou-se deixou-me entrar, talvez porque me deva ter visto prestes a desmaiar.
O apartamento estava completamente diferente. Mobiliário novo, cortinas novas, até as paredes repintadas. Nada do que me era familiar. Nenhum sinal do meu filho.
A Marta alugava o apartamento por agência, não conhecia o proprietário, tudo tratado pelo mediador imobiliário. Deu-me o número. Liguei logo dali, sentada precisamente no mesmo sofá onde ainda há meio ano o Duarte se sentava.
O agente confirmou: Duarte Figueiredo arrendou o apartamento em fevereiro. Não, não deixou morada alternativa. Sim, paga sempre a tempo, por transferência de uma conta portuguesa.
Regressei ao Porto no último autocarro. Não chorei. Estava demasiado abalada para chorar. O meu Duarte filho único, aquele que me apoiou no funeral do pai, que sempre me ajudava com o IRS, que dizia sempre mãe, podes sempre contar comigo foi-se embora, alugou o apartamento a uma estranha e não disse nada.
Durante três dias, não lhe liguei. Esperei que fosse ele a ligar-me. Não o fez.
Ao quarto dia, enviei: “Estive em Lisboa. Sei que já não moras na Av. da República. Liga-me.”
Ligou uma hora depois. Ouvi-lhe a voz pela primeira vez em três meses.
Mãe, desculpa. Devia ter contado.
Onde estás?
Silêncio. Muito silêncio.
Em Braga. Desde março.
Fiquei a olhar para a vizinha estendendo roupa na varanda da frente. Tudo parecia igual, menos o meu mundo.
O Duarte falou muito. Contou que, depois da morte do pai, tudo à sua volta o oprimia. Que as minhas ligações, perguntas, os meus bolos que tudo o sufocava. Que não sabia como me dizer, porque sabia que me ia magoar. Por isso escolheu fugir.
Senti que se não saísse, não conseguia respirar disse baixinho. Não era de ti, mãe. Era da sensação de que tinha de ser o substituto do pai. De preencher o vazio.
Quis gritar. Quis responder que nunca lhe pedi isso. Mas, quando fechei os olhos e fui sincera comigo, vi-me em todas aquelas conversas de domingo sempre a contar-lhe cada passo meu, cada consulta, cada conta; como se ele fosse o meu marido e não o meu filho.
Não desabafei nada. Não estava pronta.
Volta para o Natal disse só.
Volto, mãe.
Fiquei sentada muito tempo na cozinha. O bolo de requeijão esperava intacto. Comi uma fatia sozinha. Estava bom. Sempre esteve.
O Duarte veio em dezembro. Sentou-se à mesa da noite de Natal à minha frente no lugar do Joaquim, mas sem querer ser ninguém senão ele. Era um homem feito, que tinha feito algo doloroso, mas necessário. Não se falou de Braga naquela noite. Talvez um dia se fale. Talvez não.
Por vezes, a Maria José pergunta-me se já lhe perdoei. Nunca sei responder. Sei só que, agora, quando ele me liga ao domingo e não falha um só , tento ser mais breve. Pergunto mais por ele, menos por mim. É pouco, mas tem de se começar por algum lado.
Por vezes, o maior gesto de amor de uma mãe por um filho adulto é deixar que vá à sua vida. Mesmo quando ninguém lhe ensinou como se faz.







