O meu filho não me ligava há três meses. Pensei que estivesse ocupado com o trabalho. No fim, resolvi ir ter com ele sem avisar. Quem me abriu a porta foi uma mulher desconhecida, que me disse estar ali a viver há meio ano.
Se naquele dia não tivesse apanhado o autocarro para o Porto, talvez ainda hoje me enganasse, a convencer-me de que o Rafael simplesmente não tinha tempo.
Que era o trabalho, que era o projeto, que os jovens são assim vivem num ritmo tão acelerado que se esquecem de ligar à mãe. Mas eu fui. E o que vi à porta da casa dele virou a minha vida do avesso.
Tudo começou de forma inocente. O Rafael costumava ligar-me ao domingo, por volta do meio-dia, entre o meu caldo de galinha e o café dele. Às vezes, a meio da semana mandava uma mensagem: perguntava como estava a tensão, se tinha ido ao médico, ou se a Dona Aldina do rés-do-chão ainda fazia barulho. Pequenas coisas normais. Depois do falecimento do Alberto, essas chamadas passaram a ser como ar para mim. Era ao que me agarrava.
Sessenta e dois anos, cinco de viúva, mais de três décadas a trabalhar na repartição de finanças e de repente a reforma, a casa vazia, e um silêncio só interrompido pelo telefonema de domingo.
Em maio, o Rafael deixou de ligar.
Não me preocupei logo. Na primeira semana pensei que se tivesse esquecido. Mandei-lhe uma mensagem. Ele respondeu: Muito trabalho, mãe, vou ligar. Não ligou. Na segunda semana, outra mensagem. Está tudo bem, mãe. Depois falamos. Na terceira: silêncio. Liguei-lhe, não atendeu. Respondia só passadas horas, de forma seca, como se fosse outra pessoa a escrever.
A minha amiga Teresa, com quem ia à ginástica no centro cultural, disse-mo sem rodeios:
Lídia, vai ter com ele. Alguma coisa não está bem.
Se calhar tem namorada e não quer dizer tentei defendê-lo, mais para me iludir do que convencer a Teresa.
Nesse caso ainda mais razão para ligar, não achas? e encolheu os ombros.
Mas fui adiando. Porque o Rafael nunca gostou de surpresas. Uma vez, ainda o Alberto era vivo, lá fomos de surpresa e ele fez uma cara como se o tivéssemos apanhado a fazer coisa feia e era só a cozinha desarrumada. Ele era assim, precisava do seu espaço. Eu compreendia. Ou achava que compreendia.
Em agosto, não aguentei mais. Comprei bilhete no autocarro Lisboa-Porto, quatro horas de viagem. Levei um frasco de compota de pêssego caseira e uma caixa do meu pão de ló, porque o Rafael adorava desde o liceu. Durante a viagem ensaiei mentalmente o que lhe ia dizer. Que tinha saudades. Que não tem de ligar todos os dias, mas uma vez por semana não é pedir muito. Que sou mãe dele, não um fardo.
Entrei no prédio por volta das três. Terceiro andar, porta à esquerda, tapete castanho com Bem-vindo que lhe dei no primeiro dia ali.
O tapete já lá não estava.
No lugar dele, um tapete cinzento sem nada escrito. Toquei à campainha. Abriu-me uma mulher jovem, uns trinta anos, cabelo castanho, curto, de roupão e uma chávena de chá na mão.
Boa tarde, procuro o Rafael Cardoso disse eu, tentando manter a calma.
A mulher franziu o sobrolho.
Não conheço nenhum Rafael. Moro aqui há meio ano.
Fiquei ali, com o pão de ló e a compota no saco, sem conseguir respirar. A mulher Carla, como depois se apresentou deixou-me entrar, talvez pensando que eu ia desmaiar.
O apartamento era outro. Móveis diferentes, cortinas diferentes, até a cor das paredes tinha mudado. Não havia nada do que eu lembrava. Nenhum rasto do meu filho.
A Carla arrendara o apartamento por agência. Não conhecia o proprietário, fazia tudo por intermediário. Deu-me o contacto. Liguei logo, sentada no sofá onde, há meio ano, o Rafael se sentava.
O agente confirmou o Rafael Cardoso arrendou o apartamento em fevereiro. Não, não deixou morada nova. Sim, paga sempre a tempo, transferência de conta portuguesa.
Regressei a Lisboa no último autocarro. Não chorei. Estava demasiado atordoado. O meu filho único, aquele que me segurou pela mão no funeral do Alberto, que me ajudava com o IRS, que dizia mãe, podes sempre contar comigo mudou-se, arrendou o apartamento a uma desconhecida e não me disse nada.
Três dias sem lhe ligar. Queria que ele ligasse. Não ligou.
No quarto dia, mandei mensagem curta: Estive no Porto. Sei que não vives na Rua de Cedofeita. Liga-me.
Ligou uma hora depois. Ouvi-lhe a voz, pela primeira vez em três meses, não numa mensagem gravada.
Mãe, eu desculpa. Devia ter dito.
Onde estás?
Silêncio. Um silêncio pesado
Em Aveiro? arrisquei.
Não, mãe. Em Hamburgo. Alemanha. Desde março.
Sentei-me na cozinha. Lá fora, a vizinha estendia roupa na varanda. O mundo parecia igual, mas o meu tinha desabado.
O Rafael explicou-se. Que, depois da morte do pai, sentiu-se sufocado. Que as minhas chamadas, perguntas, os bolos que eu mandava que o apertavam. Que não sabia como dizer-me sem me magoar. Então fugiu.
Senti que se não saísse, sufocava. Não por ti, mãe. Porque parecia que tinha de ocupar o lugar do pai. Preencher aquele vazio.
Quis gritar. Quis dizer que nunca lhe pedi isso. Mas, de olhos fechados, vi todos os telefonemas de domingo, a contar-lhe o dia, as idas ao médico, as contas. Como se fosse meu marido, não apenas filho.
Não disse nada. Não estava pronto.
Volta no Natal pedi-lhe apenas.
Volto, mãe.
Desliguei e fiquei, muito tempo, sozinho na cozinha. O pão de ló que levei para o Porto ali ficou. Comi um pedaço. Estava bom. Sempre esteve.
O Rafael apareceu em dezembro. Sentou-se à mesa de Consoada, à minha frente no lugar do pai, mas já não como substituto. Como homem, que fez um erro grande, mas com razões para isso. Não falámos de Hamburgo ao partir o bolo-rei. Talvez um dia falemos. Ou talvez não.
A Teresa pergunta-me por vezes se já lhe perdoei. Não sei responder. Só sei que, quando agora liga ao domingo e liga todas as semanas tento ser breve. E pergunto-lhe mais pela vida dele, ao invés de contar a minha. Não é muito. Mas é por algum lado que se começa.
Às vezes, o maior amor que uma mãe pode dar a um filho já crescido é deixá-lo partir. Mesmo que ninguém me tenha ensinado como.







