O Meu Ex-Namorado Convidou-me para Jantar “para Pedir Desculpa”… Mas Eu Levei um Presente que Ele Nu…

O meu ex-namorado convidou-me para jantar para pedir desculpa mas eu fui com uma prenda que ele nunca esperava.

Essa recordação chega-me sempre envolta numa certa nostalgia. A verdade é que o convite apareceu num dia comum talvez por isso me tenha apanhado tão desprevenida.

O telemóvel vibrou na bancada da cozinha, enquanto eu lavava os pratos, de cabelo apanhado à pressa. Nada no meu mundo daquela época estava preparado para regressos do passado.

Olá. Podemos ver-nos? Só um jantar. Tenho algo a dizer-te.

Li as palavras devagar. Não por não as perceber, mas porque sentia o peso daquilo que carregavam.

Anos antes, teria agarrado nesta mensagem como quem agarra uma tábua de salvação. Teria feito dela um sinal do destino, como se o mundo me quisesse devolver algo que me devia.

Mas já não era essa mulher.

Agora, era uma mulher que sabia apagar a luz e dormir sem esperar uma chamada de ninguém. Sabia estar só sem sentir abandono. Uma mulher que não oferecia o seu sossego a quem, outrora, o desvalorizou.

E mesmo assim respondi.

Está bem. Onde?

Só depois percebi um pormenor: não escrevi porquê. Nem sobre o quê. Não perguntei como estás, nem insinuei tenho saudades.

Sorri com isso.

Já não tremia. Eu estava a escolher.

O restaurante era desses sítios antigos de Lisboa onde a luz cai sobre as mesas como mel quente. Música suave, toalhas brancas, copos de vidro tão fino que só se ouvem em mãos delicadas.

Cheguei um pouco mais cedo.

Não por ansiedade, mas porque é bom ter tempo para observar a sala, encontrar a saída, alinhar ideias.

Quando ele entrou, levei alguns segundos a reconhecê-lo.

Não era porque estivesse muito diferente, mas porque estava mais cansado.

Trazia um fato escuro, provavelmente comprado para um homem que ainda não era ele. Demasiado rigor, pouca leveza.

Os olhos demoraram-se no meu rosto tempo demais para ser aceitável.

Não era desejo.

Não era amor.

Era aquele incómodo reconhecimento: Ela não ficou onde a deixei.

Olá disse ele, num tom baixo.

Acenei com a cabeça.

Olá.

Sentou-se. Pediu vinho. Sem me consultar, escolheu para mim aquele mesmo vinho verde que eu tanto apreciava em outros tempos.

Esse gesto, em tempos, teria aquecido o meu peito.

Agora, soava a artimanha.

Os homens acreditam, por vezes, que se recordarem o teu gosto, já merecem recuperar o teu lugar.

Dei um gole. Devagar, sem pressa.

Ele começou com um cliché:

Estás muito bonita.

Quando o disse, parecia esperar que me derretesse.

Sorri, de leve.

Obrigada.

E nada mais.

Engoliu em seco.

Não sei por onde começar admitiu.

Começa pela verdade sugeri, calma.

Mesmo um momento estranho.

Quando a mulher perde o receio de ouvir a verdade, o homem à sua frente começa a temer dizê-la.

Ele olhava fixamente para o copo.

Errei contigo.

Pausa.

Soou como um comboio atrasado chega, mas ninguém o espera.

Erraste como? perguntei em tom sereno.

Sorriu, forçado.

Tu sabes.

Não. Diz.

Ergueu o olhar.

Eu fiz-te sentir pequena.

Ali estava. Finalmente.

Não disse deixei-te.

Não disse traí-te.

Nem tive medo de ti.

Disse a verdade: precisava de me diminuir para se sentir maior.

Depois falou e falou.

Sobre o stress.

Sobre ambições.

Sobre não estar pronto.

Sobre eu ser demasiado forte.

Ouvi-o, atenta.

Não para julgar.

Queria apenas perceber se teria coragem para se reconhecer sem me usar como espelho.

Quando terminou, exalou:

Quero voltar.

Assim. Sem rodeios, sem hesitação. Como se voltar fosse um direito natural após um desculpa.

E aqui chega o momento que tantas mulheres conhecem:

O ex volta não por ter compreendido, mas por não ter encontrado melhor sítio onde pousar o ego.

Olhei-o, e senti algo inesperado.

Não era raiva.

Não era mágoa.

Era clareza.

Ele era alguém que regressava por necessidade, não por amor.

E eu deixara de ser solução para carências alheias.

Quando a sobremesa chegou uma fatia de pudim abade de Priscos o empregado sorriu e colocou o prato entre nós.

Ele fitou-me, ansioso.

Por favor Dá-me uma oportunidade.

Antes, esse por favor dar-me-ia tremores.

Agora soava a pedido tardio para uma mulher já ausente daquela sala.

Tirei da mala uma pequena caixa.

Não era nada de loja.

Era minha simples, discreta.

Coloquei-a no centro da mesa.

Ele piscou os olhos, hesitante.

O que é?

Para ti respondi.

E vi reacender-se aquela esperança, tão masculina, de que tudo volta atrás se ao menos a mulher for meiga.

Abriu a caixa.

Dentro, havia uma chave.

Apenas uma, num porta-chaves de metal vulgar.

Ele não percebeu.

O que é isto?

Dei outro gole de vinho, e expliquei suavemente:

A chave do antigo apartamento.

O seu rosto gelou.

Aquele apartamento ali se tinham desenrolado os nossos últimos dias. Foi ali que suportei humilhações que nunca contei a ninguém.

Lembrou-se.

Claro que se lembrou.

Na véspera da minha partida, dissera:

Deixa a chave. Isto já não te pertence.

Tinha-o dito como quem fala de uma coisa, não de uma pessoa.

Nessa altura deixei a chave em cima da mesa e fui embora sem conversas, lágrimas ou explicações.

Mas a verdade é que deixei a chave suplente no bolso.

Não foi por vingança.

Foi porque sabia: um dia haveria de precisar de um ponto final.

Todo o final pede um ponto não reticências.

Aqui estava eu, anos depois.

O mesmo homem.

A mesma mesa.

Uma mulher transformada.

Guardei-a contei. Não por esperar que quisesses voltar. Mas porque antevi que um dia serias tu a querer recuperar-me.

Empalideceu.

Tentou sorrir.

Isto é uma brincadeira?

Não tranquilizei. É libertação.

Peguei na chave da sua mão, fechei a caixa, guardei-a.

Vim a este jantar não para reatar esclareci. Vim para confirmar uma decisão.

Qual decisão?

Olhei-o.

Desta vez sem amor nem rancor.

Como quem contempla a verdade sem estremecer.

Que a decisão de partir foi a certa.

Ele tentou falar, mas as palavras perderam-se.

Estava habituado a segurar o fim das conversas.

Desta vez, o fim era meu.

Levantei-me. Deixei euros na mesa, a minha parte.

Ele ergueu-se, aflito:

Espera é só isto? Acaba assim?

Sorri levemente, com doçura.

Não. Aqui começa.

O quê?

A minha vida, sem os teus regressos nela.

Ficou ali, imóvel.

Peguei no casaco devagar, com aquele gesto feminino que sabe não precisar de pressas.

Antes de sair, voltei-me uma última vez.

Obrigada pelo jantar disse. Não tenho mais perguntas. E já não há e se.

Saí.

Lá fora, Lisboa estava fresca, com um vento leve.

O ar parecia dizer-me:

Bem-vinda à liberdade que sempre mereceste.

E tu, o que farias se um ex-namorado te voltasse a pedir desculpa e quisesse recomeçar darias nova oportunidade, ou fechavas a porta com elegância e dignidade?

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