O meu ex convidou-me para jantar… E eu aceitei, só para lhe mostrar que mulher ele perdeu. Quando r…

Diário Lisboa, quarta-feira

Hoje vou registar aqui algo estranho que me aconteceu e quero mesmo guardar esta sensação, para nunca esquecer. Tudo começou do modo mais inesperado, naquele silêncio sereno do início da noite, quando finalmente podia sentir a casa em paz. Depois de fechar o portátil e fazer um chá verde, o telemóvel vibrou, quase sem som, em cima da bancada da cozinha.

O nome dele surgiu no ecrã. Um nome que já não via há quatro anos, desde aquela ruptura tão definitiva. Fiquei a olhar, não por choque, mas por pura curiosidade aquela curiosidade que se tem quando já não dói e só se sente distância.

Olá. Sei que é estranho. Mas davas-me uma hora da tua noite? Gostava de te ver.

Não vinha com emojis, nem corações, muito menos declarações. Era só uma frase, escrita como se tivesse todo o direito do mundo em pedi-la.

Dei um gole no chá, sorri sozinha. Não porque tivesse ficado contente, mas porque me lembrei de como seria a antiga Inês aquela miúda nervosa, que lia sinais nos mínimos gestos, que esperava por contos de fadas em cada mensagem insólita.

Hoje já não procuro sinais.

Respondi-lhe. Dez minutos depois, sem floreados: De acordo. Uma hora. Amanhã, às 19h.

Rapidamente recebi o endereço em Campo de Ourique, e percebi logo nas entrelinhas ele não esperava que eu aceitasse. Não me conhecia mais, não sabia quem eu era agora.

No dia seguinte, preparei-me, mas não como quem vai a um encontro romântico. Vesti um vestido verde-escuro, elegante mas discreto, deixei o cabelo solto e maquilhei-me apenas o suficiente. Perfume, só um toque, suave não queria seduzir, só afirmar. Queria que ele percebesse a diferença entre querer impressionar e saber quem se é.

O restaurante era daqueles que tem luz quente, poucos ruídos e onde se nota cada movimento. Nenhuma mesa com gargalhadas estridentes, apenas talheres, passos e conversas baixas. Cheguei pontual. Vi-o logo mais aprumado, talvez mais seguro. O sorriso dele, quando me viu, saiu largo, demasiado seguro de si.

Estás lindíssima, Inês.

Olhei-o, agradeci com um aceno breve, sem dar espaço para vaidades. Sentei-me, já pronta. Ele lançou conversa apressada:

Tenho pensado muito em ti nos últimos tempos.

Nos últimos tempos? repeti num tom baixo.

Sim soa estranho, não é?, tentou sorrir.

O silêncio caiu. Pedi o vinho, deixei-o escolher. Notei o esforço para parecer o homem controlado, aquele que sabe conduzir a situação. A verdade? Já não precisava de dirigir nada.

Enquanto esperávamos pela comida, contou-me os seus feitos, as viagens, o trabalho exigente, as pessoas certas que conheceu. Fiquei a ouvi-lo, como quem analisa um estranho. A certa altura, inclinou-se e disse:

Nunca encontrei ninguém como tu.

Se calhar, outra hora, em outro tempo, teria sentido orgulho. Agora percebo que muitos homens só voltam quando perdem a comodidade, não quando acorda o amor. Olhei-o sem hostilidade.

E o que é que isso significa?

Significa que eras verdadeira. Generosa. Leal.

Leal. Palavra cheia de peso. Tão usadas para justificar o que tolerei: ausências, silêncios, amigos acima de mim, prioridades invertidas. Enquanto era leal, esperava que ele crescesse, me desse valor, respeitasse o que tínhamos. A dignidade ia-se acumulando em copo cheio até transbordar. E aí era eu a sensível.

Sorrio-lhe, mas de forma tranquila.

Não me convidaste para me elogiar.

Ele ficou sem jeito mulheres que falam claro nunca foram o forte dele.

É verdade, admitiu. Queria pedir-te desculpa.

Ficou tudo em suspenso.

Desculpa por te ter deixado ir sem lutar. Por não ter tentado recuperar-te.

Até soou honesto. Mas há coisas que, ditas fora de tempo, só sublinham o atraso.

Porquê agora? perguntei, directa.

Houve um evento vi-te. Não falámos, mas pareceste-me diferente.

Sorri por dentro. Claro: só conseguiu ver-me realmente quando já não fazia questão de ser vista por ele.

E o que viste?

Uma mulher serena, com personalidade, rodeada de pessoas que admiravam Senti que já não era importante.

Pronto. Não vi uma mulher por quem sou apaixonado. Só vi alguém que não consigo reconquistar sem esforço.

Disse-me que tinha cometido o maior erro da vida. Antes, eu teria chorado. Hoje, fiquei calada, sóbrio, realista.

Diz-me uma coisa. Quando eu me fui embora o que disseste sobre mim? Aos teus amigos, à tua mãe?

Ele pestanejou.

Disse que não nos entendemos.

Disseste a verdade? Que me perdeste porque não me respeitaste? Porque desisti quando ainda estava lá?

Não respondeu. Bastou esse silêncio.

Outrora, procuraria explicações, pediria para esclarecer tudo. Agora, só queria recuperar a minha voz. Ele tentou tocar-me na mão, hesitante, mas retirei-a suavemente para o colo.

Inês, podemos recomeçar?

Não podemos. Falei baixo, certo e seguro. Não estou no início, estou depois do final.

Desconcertado, balbuciou que mudara. Olhei-o nos olhos:

Mudaste o suficiente para te perdoares, não o suficiente para mereceres ficar.

Não disse por rancor só verdade. Acrescentei, num sussurro:

Vieste para provar se ainda tens poder, se posso ceder de novo. Só que já não.

Paguei a minha metade da conta não por orgulho, mas para mostrar que também o que é simbólico nos pertence. Levantei-me. Ele ergueu-se, pouco seguro.

Vais abandonar-me assim?

Enfiei o casaco, preparei a mala.

Deixei assim há quatro anos. Pensava que perdia alguém. Afinal, estava a encontrar-me.

Antes de sair, olhei-o nos olhos uma última vez.

Quero que te lembres disto: não me perdeste por falta de amor. Perdeste porque estavas convencido que eu não tinha para onde ir.

Saí. Sem tristeza, sem mágoa. Saí livre, dona do meu próprio rumo. E nunca um jantar pagou tão pouco pela paz que trouxe.

Será que, se a Maria ou Rosa estivesse no meu lugar, faria diferente? Regressaria a alguém que regressa só porque mudou ou escolheria, sem desculpas, seguir adiante com aquilo que construiu sozinha?

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