O marido levou uma familiar para morar com eles. A esposa aguentou durante um mês — até descobrir o que aquela mulher escondia

O Pedro chegou a casa eram seis e meia. Isso já era um bom sinal, normalmente antes das oito nunca aparecia. A Ana estava a acabar de lavar a loiça do jantar e ouviu-o a mexer-se no corredor mais tempo que o habitual.

Ana chamou ele, com aquele tom cuidadoso de quem traz alguma coisa frágil e ainda não sabe onde pôr.

A Ana enxugou as mãos ao pano e saiu.

No hall estavam dois. O Pedro, com aquele ar de quem acabou de fazer alguma coisa importante, sem saber se é bom ou mau. E ao lado, uma mulher por volta dos cinquenta, com uma mala de viagem a tiracolo e um trolley ao pé dos pés.

Esta é a Mónica disse o Pedro. É minha prima. Lembras-te de eu ter falado dela?

A Ana não se lembrava bem. Assim vagamente, lá para trás, talvez uma vez ele mencionou uma Mónica de Coimbra. Ou da Figueira. Tanto faz.

Vai ficar cá umas semanas acrescentou o Pedro. Tem lá uns problemas.

“Umas semanas”, repetiu a Ana só para si.

Olá, Ana disse a Mónica, quase a sussurrar, com um ar tímido. Desculpa isto, eu sei que é chato. Não quero atrapalhar mesmo. Cozinho, limpo, não me vou meter no caminho.

A Ana olhou para ela, depois para o Pedro, e voltou a olhar para a Mónica.

Vá lá, entra disse a Ana. Que mais podia dizer? Alguém com mala e trolley na mão não se devolve à rua.

O Pedro ficou logo aliviado, viu-se-lhe na cara, e à Ana deu-lhe um aperto no peito. Pronto, já nem lhe perguntaram, já estava assente.

A Mónica entrou para a sala, olhou discretamente à volta, deixou o trolley num canto.

Têm aqui tudo bonito murmurou, mas não para bajular. Disse mesmo só por dizer.

A Ana olhou para as malas e pensou: que raio serão “uns problemas”.

Porque “problemas” pode querer dizer tanta coisa.

A verdade é que a Mónica não incomodava. Levantava-se cedo, fazia tudo devagarinho, como um gato. Bebia cházinho sozinha na cozinha enquanto a Ana ainda dormia, e lavava sempre logo a chávena. Não deixava migalhas. Não ficava uma eternidade na casa de banho. Às vezes fazia sopa, sem pedir licença, mas também sem se armar: deixava um tacho de sopa feito e pronto. E ficava bom. Pelo menos melhor do que a própria Ana conseguia.

Isso até irritava um bocadinho.

É sério. Quando alguém se porta mal, é fácil. Fala-se, resolve-se. Quando tudo está limpo, tudo silencioso, tudo direitinho, mas ainda assim há qualquer coisa fica-se com aquela sensação estranha, como uma farpa invisível. Não dói, mas está lá.

Uma semana passou. Depois um mês.

O Pedro tranquilão. Até dizia: “Vês? Está tudo bem.” A Ana acenava que sim. Em teoria, sim, estava.

Só que a Mónica falava sempre ao telefone num sussurro.

A Ana deu conta por acaso: ia a passar junto à porta da sala, ouve lá um sussurrar apressado. Nem deu para perceber as palavras, só o tom. Nervoso, apressado. Não era conversa de tempo ou de culinária.

Ficou ali parada uns segundos. Depois seguiu.

Mas não lhe saiu da cabeça. Como aquele cheiro a gás que se sente no ar, mesmo quando já devia ter desaparecido.

Outra coisa estranha: cada vez que tocava à campainha fosse o entregador, a vizinha, o carteiro a Mónica ficava hirta, a olhar para a porta como quem está à espera do pior.

A Ana reparava, mas não dizia nada.

Um dia arriscou perguntar:

Mónica, está tudo a encaminhar-se?

Sim, aos poucos sorriu a Mónica, com aquela calma. Não te preocupes, Ana. Mais um bocadinho e vou-me embora.

“Mais um bocadinho”. Também não quer dizer nada, pensou a Ana.

Via-a sair da sala e só pensava: aqui há coisa. Está alguma história aqui escondida. Não nos dizem, mas sente-se.

Depois chegou a noite.

A Ana foi à cozinha buscar água, sede no meio da noite. A sala era ali ao lado, porta entreaberta. Ouve a voz da Mónica, mais clara do que de costume, talvez por ser de noite.

Por enquanto fico aqui com eles. Eles não sabem de nada.

A Ana ficou parada junto ao frigorífico, garrafa na mão.

Eles não sabem de nada.

Ficou assim meia dúzia de segundos. Voltou ao quarto. Deitou-se, ficou a olhar para o tecto. O Pedro a dormir tranquilo, como quem não tem preocupações nem culpa e o jantar foi ótimo.

A Ana não o acordou. Ainda não sabia o que dizer. O que é que não sabiam? Tinha de perceber primeiro.

O entendimento veio sábado, já perto do meio-dia.

Tocaram à porta. Um toque banal. A Ana abriu.

No patamar, uma mulher de cerca de quarenta anos, de sobretudo, com uma pasta na mão. Atrás dela, um homem mais novo, calado.

Bom dia. Precisamos falar com a Mónica Pereira. Temos informação que reside aqui.

A Ana sentiu um frio a subir-lhe pelas costas.

Quem são? perguntou.

Agência de cobranças disse a mulher, directa, já habituada àquela rotina.

A Ana olhou para a pasta, depois para o homem, e sentiu aquela palavra cobranças pairar na entrada mais um convidado indesejado.

Espere só um instante disse. Fechou a porta.

Da sala já vinha a Mónica, telemóvel na mão, com uma expressão de quem há muito sabia que isto ia acontecer.

É para mim? baixinho.

A Ana só olhava.

Ana, eu explico.

Fala primeiro com eles disse a Ana, afastando-se para o lado.

O Pedro estava na casa do pai. A Ana ligou-lhe.

Pedro, vens cá hoje? Precisamos falar.

Que se passa? o tom mudou logo.

Nada de grave. Só vem.

Lá fora fez-se silêncio. Os cobradores foram-se embora. A Mónica sumiu-se.

A Ana sentou-se à mesa a matutar sobre o significado da palavra problemas. Não era só algo grande. Era também algo que não era dela. Que de repente estava agora a morar lá em casa.

E ela continuava a fazer de forte. A tentar. A dizer: está tudo bem.

Mas não estava.

O Pedro chegou daí a três horas. Entrou, olhou para a Ana e percebeu logo: isto é coisa séria.

Então? perguntou, sem brincadeiras.

Vem para a sala, e chama a Mónica também.

A Mónica estava sentada, de mãos juntas, postura de quem se preparou toda a vida para este tipo de conversa.

O Pedro sentou-se.

Alguém me explica? pediu.

Mónica, diz ao Pedro quem cá veio hoje.

Ela olhou primeiro para o chão, depois para eles.

Eram cobradores murmurou. Vieram cobrar uma dívida.

O Pedro ficou uns segundos a olhar para ela, como quem ouve uma palavra mas não apanha o sentido.

Cobradores? Porquê?

Porque estou cheia de dívidas confessou a Mónica, baixo. Fui pedir crédito há dois anos, achei que tudo ia correr bem. Não correu. Depois tentei outro empréstimo. Nada. Perdi a casa, fiquei sem nada e endividada.

Fez-se silêncio.

Por isso me estava a esconder deles.

O Pedro não disse nada. Tinha aquele ar de quem pensou que estava em terra firme e afinal não estava.

Mónica, percebes no que nos meteste? disse ele.

Percebo.

Usaste a nossa morada. Sem dizeres nada.

Sei que sim.

Ana, juro que não fazia ideia disse o Pedro.

Eu sei que não sabias.

A Mónica calada, a olhar para um copo dágua.

Olha, Mónica disse a Ana ajudar é uma coisa. Nós ajudávamos, se soubéssemos. Agora, viver numa mentira na minha casa, isso não.

Ela levantou os olhos.

Têm razão. Eu só tinha medo. Não tinha para onde ir. A minha filha vive num T2 com a família, uma amiga anda em obras… O Pedro sempre dizia que se precisasse podia vir cá… Por isso…

Vieste completou a Ana. De mala e dívida atrás.

O Pedro olhava para o chão. Depois disse:

Mónica, quanto é a dívida?

Muito soluçou ela. Oitenta mil euros. Com os juros, ainda mais.

O Pedro só suspirou, baixinho.

Olha, eu não tenho como te dar esse dinheiro. Nem pensar.

Eu não queria isso apressou-se a dizer a Mónica. Só queria aguentar até eles desistirem…

Já não dá interrompeu a Ana. Eles já sabem que estás cá. Estiveram hoje à porta.

Silêncio.

A Mónica fechou os olhos.

Pois.

Isto não se resolve a fugir disse a Ana. Tem de se enfrentar.

Mas eu não sei como.

Mas eu sei atalhou a Ana.

O Pedro ficou a olhar para ela, surpreendido.

Olha, eu não percebo nada disto, mas a vizinha do lado passou pelo mesmo há uns anos. Fez reestruturação, foi duro mas resultou. Dou-te o contacto dela. E mais: estás desempregada, certo?

Estou.

Conheço uma amiga com uma loja, procura alguém para meio turno. É pouco, mas é um trabalho e isso conta no tribunal, se lá chegares. E ainda: aqui na zona alugam-se quartos baratos. Vi anúncio há dias.

A Mónica olhava para ela, quase sem acreditar. O rosto foi ficando menos fechado, aos poucos.

Porque é que me ajudas? Depois disto tudo.

Porque estás mal respondeu simplesmente a Ana. Porque és prima do Pedro.

O Pedro olhava para a Ana, sem palavras, depois só disse baixinho:

Ana, obrigado.

A Ana só foi à cozinha pôr água a ferver. Nestes casos, o que se precisa mesmo é de um chá quente. Isso ela sabia bem.

A Mónica foi-se quatro dias depois.

Primeiro falou com a vizinha, depois foi à tal loja, conseguiu uma semana de experiência, conseguiu um quarto a cinco paragens dali, com uma senhora idosa simpática que prometeu não chatear.

Três dias nisto. Ao quarto, fez a mala.

No hall esteve mais tempo do que o necessário para só vestir o casaco. Olhou para a Ana com aquele ar de quem procura palavras mas não consegue.

Ana… eu…

Não precisas, interrompeu a Ana.

A Mónica pegou na mala. O Pedro foi acompanhá-la ao táxi. A Ana ficou à porta.

Um mês depois, a Mónica ligou. Disse em poucas palavras: já está a trabalhar, pagou a primeira prestação da dívida, o quarto era bom, a dona fazia bolos ao domingo.

A Ana sorriu.

E foi, sabes, uma boa conversa. Curta, sem dramas.

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