O lobo apareceu no quintal e não conseguia comer. A mulher reparou no seu pescoço e exclamou: «Quem é que te fez isto?»

Hoje, ao folhear as páginas do meu diário, volto a escrever sobre a história que abalou a pequena aldeia onde vivi toda a minha vida, encostada ao verde profundo da serra. Nunca imaginei que um dia seria chamada de noiva do lobo pelos meus vizinhos, mas foi isso que aconteceu desde o momento em que aquele animal solitário apareceu no nosso terreiro.

Era um lobo jovem, robusto, com olhos fulgurantes e um ar selvagem, mas surpreendentemente manso. Em vez de fugir para o mato, aproximava-se das casas, rondava os cães do povo, nunca atacava galinhas nem mostrava ferocidade. Sentava-se junto ao portão, observava-nos em silêncio, quase como um humano a pedir compreensão. E sempre, inevitavelmente, voltava-se para a minha casa, atraído pela minha cadela, a humilde Bolota.

Os vizinhos riam e brincavam, dizendo que eu, Maria Lurdes, era a namorada do lobo, mas eu sentia dentro de mim que havia ali qualquer coisa mais profunda do que simples curiosidade animal. O lobo e Bolota entendiam-se com um olhar. Ao contrário dos outros cães, ela recebia-o com alegria e um rabo a abanar, sem um grunhido ou receio.

Numa manhã, enquanto levava um balde à fonte, deparei-me com o lobo, enroscado à porta do canil, cansado e com um olhar de tristeza que me partiu o coração. Não havia ali raiva ou ameaça, apenas sofrimento. E, de repente, reparei num estranho sulco escuro no seu pescoço parecia um colar, talvez um velho cinto de cabedal. A ideia de que um lobo selvagem pudesse andar com um vestígio humano deixou-me inquieta.

Ele desapareceu durante uns dias, mas eu não conseguia esquecer o seu olhar. Ao entardecer, levei um pouco de carne para o quintal. Bolota correu para ele, mas o lobo apenas cheirou os pedaços e lambeu a carne, sem conseguir mastigar. Notei que mal conseguia abrir a boca. O medo dissipou-se de imediato: afinal, um lobo que não pode comer não é perigo para ninguém.

Dia após dia, fui cortando a carne em pedaços minúsculos, para que ele conseguisse engolir. Cada vez me aproximava mais, falando baixinho, como se acalmasse uma criança assustada. Num instante único, toquei-lhe no focinho e senti, sob a mão, o peso de um velho colar de couro, entranhado na pele. Era claramente obra da crueldade humana. Com as mãos trémulas, apanhei uma faca e, depois de encontrar a fivela, cortei o colar. Ele saltou, fugiu para o mato, mas deixou-me a certeza de que, finalmente, estava livre.

No dia seguinte levei o colar ao pequeno tasco do povo. Os homens reconheceram-no: era do lobo que há anos escapara da quinta de adestramento da vila. Na altura, fizeram piadas e discutiram se valia a pena, mas eu pensava apenas que aquele animal finalmente poderia respirar e viver sem dor.

Depois disso, o lobo voltou. Comia sem esforço, recuperava forças diariamente. Até que, certo dia, veio até mim, encostou a cabeça aos meus joelhos, num gesto terno e agradecido.

O verdadeiro espanto veio depois. Bolota deu à luz quatro lobitos e um cachorro preto. Os vizinhos ficaram boquiabertos: o lobo não perdera tempo, e aparentemente a aldeia ganhara uma nova família.

O lobo passou a visitar os seus filhos, trazia comida, cheirava e lambia os pequenos, assumindo o papel de pai. Eu, de dentro da janela, via como ele se assumira no meu quintal, como chefe daquela improvável matilha.

Um dia, apareceu junto à porta o dono da antiga quinta, arrogante e desdenhoso, exigindo o regresso do lobo e oferecendo dinheiro pelos cachorros. Quando recusei, começou a ameaçar-me. De repente, o lobo voou por cima da vedação, derrubou o homem e colocou-se entre mim, Bolota e os filhotes. O homem fugiu em pânico, e eu fiquei convencida: aquele animal era, de facto, o lobo que escapara aos homens e encontrara em mim alguém de confiança.

Quando os lobitos cresceram, seguiram o pai para o mato. Dizem os caçadores que viram lobos pretos a vaguear pelos montes. E eu sorri são os netos da Bolota.

O lobo ainda voltou algumas vezes, mas como gosto de pensar, isso já é outra história.

Aprendi que a confiança pode brotar onde menos se espera entre uma pessoa e um animal selvagem. Não tive medo de ser compassiva, e o lobo retribuiu com proteção e lealdade.

Assim, o solitário encontrou família, e eu ganhei uma história para provar: quem faz o bem, recebe-o de volta.

Será que os lobos lembrarão o bem e saberão agradecê-lo aos humanos?

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O lobo apareceu no quintal e não conseguia comer. A mulher reparou no seu pescoço e exclamou: «Quem é que te fez isto?»