Tiago, estas gatas já viviam aqui desde antes de nos conhecermos. Achas mesmo que agora as devia deitar fora? perguntou Ana, num tom frio. O que tu propões chama-se traição
Ana morava numa vila pequena, mergulhada num mar de verde. No verão, as ruas ficavam escondidas debaixo das copas frondosas e, desde os primeiros dias de março até ao final de outubro, canteiros floridos espalhavam aromas doces no ar. Ali era fácil pensar na vida, na felicidade e no que realmente importa
A mãe de Ana partiu cedo, e a pequena Aninhas foi criada pela tia-avó, Dona Leonor. Uma mulher simples, discreta e coxa, que nunca conhecera um grande amor. Ela despejou todo o carinho que guardava no coração sobre a sobrinha-neta. Ana adorava a tia, era-lhe eternamente grata e tratava-a ternamente, como se fosse sua mãe: chamava-a mamã Leonor.
Mamã Leonor, olá! Cheguei! gritava Ana logo depois da escola, de um passeio ou, mais tarde, ao voltar do instituto.
Filhinha, minha querida! Como estás?
Ana aprendeu a ler muito cedo a mamã Leonor dedicava-lhe longas horas a ler em voz alta, principalmente livros sobre animais, aves e insectos. Estas noites de leitura tornaram-se tradição entre elas.
Certo dia, quando Ana tinha para aí uns doze anos, trouxe para casa um gatinho a miar, todo encharcado.
Mamã Leonor, olha este coitadinho Pequenino, abandonado e sem ninguém Ana mal continha as lágrimas.
Aninhas, porque não ficamos com ele? disse Dona Leonor, abraçando-a.
Assim chegou à casa a Tica. Uns anos depois, foi a vez de Dona Leonor trazer mais um bebé.
Imagina lá, Ana, deixaram uma caixa cheia de gatinhos à nossa porta lá na costura. Não tive coragem de os deixar, ficámos, cada uma com o seu suspirou, cansada, ao chegar a casa.
Mamã Leonor, agora temos duas gatinhas! Que maravilha!
Ana acolheu a homenzinha da nova companheira com alegria. A Tica olhou com desdém, mas depois aproximou-se, cheirou-a, agarrou-a pelo cachaço e saltou para o sofá. Começou logo a lavá-la carinhosamente, como a uma filha.
Os anos correram. Ana começou a cuidar cada vez mais da tia: limpava a casa, cozinhava, fazia as compras. Sabia de cor os remédios, os nomes dos médicos e acompanhava-a sempre ao centro de saúde. As duas eram felizes juntas liam, discutiam filmes e peças, conversavam sobre tudo.
Quando Tiago apareceu na vida de Ana, por acaso, numa exposição, ela não escondeu nada. Mamã Leonor, ao conhecê-lo, ficou um pouco inquieta; parecia-lhe que ele não era totalmente sincero. No entanto, achou que era só medo, ou até algum ciúme de ver a menina crescer.
Acima de tudo, queria a felicidade da afilhada, por isso deixou-a voar. Ana e Tiago alugaram um apartamento e começaram a vida a dois.
Agora Ana ia ver a mamã Leonor duas vezes por semana terças e sábados. Aos sábados, insistia para que Tiago fosse também, mas ele arranjava sempre desculpas para faltar.
Ó Ana, aquelas gatas Bem sabes, o cheiro, o pelo, as tigelas. Como é que aguentavas viver naquela casa?
Tiago fazia uma careta, apertava os lábios e Ana tentava sempre levar a conversa para a galhofa.
Tiago, nem imaginas a alegria que elas nos dão!
Alegria, Ana? Só vejo sarilhos com elas.
São engraçadas! Brigam a fingir, enchem a casa de correrias, ronronam, perseguem as chinelas, entretêm-se com ratitos e fitas. E quando se deitam ao nosso colo, fazem um barulho tão bom
Não gosto delas, não leves a mal dizia, carregado, Tiago. Aquilo é tudo coisas de mulher: arrumações, conversas Prefiro ficar em casa. Só peço que me faças um jantarinho, fico a morrer de saudades
Com o tempo, mamã Leonor começou a ficar mais fraca. Ana passou a aparecer lá quase todos os dias depois do trabalho. Sugeriu a Tiago mudarem-se para a casa da tia, mas ele recusou. E assim, Ana vivia dividida entre o namorado e a mãe de coração.
O trabalho aumentava: roupa para lavar todos os dias, chão lavado a lixívia, aquele cheiro forte a doença e a velhice a entranhar-se em cada canto. Ana sentia o nó na garganta o fim era inevitável.
Uma madrugada, mamã Leonor partiu devagarinho. Nessa noite Ana ficou a seu lado, conversaram em voz baixa, leu-lhe um livro em voz alta até adormecer. Deixou um candeeiro aceso, fechou os olhos e adormeceu ali, junto dela.
Acordou com o chilrear das andorinhas. Lavou rapidamente o rosto e entrou no quarto:
Mamã Leonor oh, mamã
Agarrou o telefone.
Tiago a mamã já cá não está… soluçou, o coração apertado.
Depois do funeral, dentro dela abriu-se um vazio enorme. Perdera a única família. Encontrou então, junto à cama, um envelope. Lá dentro, estava a escritura da casa e uma carta.
Minha querida Aninhas,
Sei bem a dor que sentes. Já não tens quem te abrace ou te beije. A tua mãe partiu cedo, o teu pai nunca esteve presente. Fiquei só eu e fui sempre tua.
Filha, amo-te muito. Recorda-te disso. Sempre que estiveres triste ou contente, estarei ao teu lado.
A casa fica para ti. Já era tua, mas agora é oficialmente o teu refúgio. Mesmo modesta, sempre é o teu lar.
Peço-te apenas um favor, minha filha cuida das minhas velhotas. A Tica e a Bolacha agora só têm a ti.
E sê feliz! Amo-te muito.
A tua mamã Leonor
Ana chorou, leu e releu a carta dezenas de vezes. Acarinhava as gatas, abraçava-as, sussurrava-lhes juras carinhosas. Eram-lhe tão próximas quanto fora mamã Leonor.
Decidiu regressar àquela casa. Precisava arrumar, limpar, cuidar das gatas e construir a sua nova vida ali.
Tiago recusou acompanhar Ana.
Ana, olha, ficamos um tempo cada um em sua casa. Não consigo com as tuas gatas. E aquele cheiro de velha também não ajuda os olhos azuis escurecidos.
Doía-lhe, mas a dor pelo luto era maior.
Com o tempo, Ana foi voltando à vida. Brincava com as gatas, lia os livros preferidos, mudou as cortinas, lavou tapetes. Viu Tiago cada vez menos. E foi sentindo-se cada dia mais leve.
Certo dia bateram à porta.
Tiago? Olá! Entra disse, sorrindo.
Olá, Aninhas! Tinha saudades! abraçou-a forte. Que casa mais acolhedora! E já não cheira mal! Finalmente livraste-te delas?
Ana afastou-se de repente.
O que é isso de livrar-me delas?
As tuas gatas, Ana! São um estorvo. Lembro-me tão bem do cheiro, do pelo, das coisas espalhadas
Tiago entrou na sala.
O quê? Ainda estão aqui?
A Tica brincava tranquilamente com a cauda e a Bolacha lambia as patas, felicíssima.
Tiago, estas gatas já viviam aqui muito antes de ti. Não vejo razão nenhuma para as deitar fora respondeu Ana, fria.
Oh, Ana, não exageres. Este apartamento é óptimo! Devias fazer obras, comprar mobília decente, mudar a casa de banho. E acabar com as gatas!
Aproximou-se dela e fitou-a nos olhos. Ana aguentou o olhar.
Tiago, o que tu propões chama-se traição.
Não é traição, é ter juízo. Não digo para as abandonares, arranjamos um abrigo, pago eu os custos, só quero que as tirem daqui!
Até pagavas, não é? Mas eu não consigo dá-las a ninguém. Elas precisam tanto de mim como eu delas. São a minha família!
Ana, não compliques. Pensa no futuro. Carreira, casamento, filhos. O tempo passa
Pensa bem. Ou ficas comigo ou ficas com as gatas.
Tiago falava com ar superior, convencido de que ela acabaria por ceder. Mas Ana não mostrava entusiasmo, nem hesitação. Apenas cansaço e distância.
Ele não entendia. Para ele eram só animais, envelhecidos, incómodos. Não via que, para Ana, eram o elo vivo com a mamã Leonor, as raízes, a lembrança do lar, do coração.
De repente, Ana deparou-se com uma certeza: não conseguiria viver debaixo de pressão, entre exigências e frieza. A tensão entre eles era já maior que qualquer carinho. E o amor não resiste a ultimatos.
Como pensar num futuro, em filhos, com alguém que exige o abandono de quem salvou e criou em família?
Tiago, por favor sai. Preciso de estar sozinha. Ainda nem me recompus da morte da mamã Leonor e vens logo com condições. Vai-te embora.
Vou! Mas pensa bem! Não fico a correr atrás de ti, percebeste?
Saiu batendo a porta com força, fazendo o cristal
do armário tilintar. As gatas assustaram-se no sofá. Ana sentiu o peito apertado mas também um estranho alívio.
Sentou-se, acolheu as suas velhotas no colo e enterrou o rosto nos seus pêlos macios:
Minhas pequeninas, minhas queridas! Nunca vos vou deixar! Vocês são a minha família. Mamã Leonor, ouves-me? Ning-uém mas tira!
Uns dias depois, ao voltar a casa, viu Tiago parado no largo, fitando as janelas do seu lar felino, como à espera de ver outra coisa ali.
Quando ele tentou aproximar-se, Ana ergueu a mão e passou adiante:
Não, Tiago, não! Fico com as gatas! disse, entrando no prédio.
A porta fechou-se, encerrando de vez o capítulo com aquele rapaz distante.
As gatas viveram os seus anos, partilharam cada miar, cada ronronar, cada pêlo, como pequenas lembranças de mamã Leonor e da infância luminosa.
Afinal, família não é só laço de sangue, mas quem habita o coração. É cuidar, estar presente, amar sem condições nem trocas.
Onde há amor, não cabe traição nem egoísmo. A casa, mesmo humilde, enche-se de calor genuíno quando há afecto verdadeiro e basta um ronronar no colo para aquecer qualquer alma.







