O João fritou batatas e abriu um frasco de pickles. Hoje faz um ano desde que perdeu a sua Helena. De repente, bateram à porta.

Manuel fritou umas batatas, abriu um frasco de pepinos em conserva. Hoje fazia um ano desde que perdera a sua Helena. De repente, bateram à porta.

Vieste, sorriu Manuel, ao ver à porta a vizinha Vitória, e convidou-a a entrar.

Sentaram-se, ficaram em silêncio, relembrando Helena. De súbito, Manuel tirou um envelope do bolso.

Vitória, este envelope deu-mo a Helena antes de partir, explicou Manuel, estendendo-lhe o envelope.

Mas isso é para ti, admirou-se Vitória.

Lê, vais perceber tudo, disse Manuel, numa voz baixa.

Vitória abriu o envelope, leu e tapou a boca, espantada.

O genro prometera buscar Vitória Ribeiro no sábado de manhã. Custava-lhe deixar a casa de campo, mas já era final de outubro. Tinham cortado a água, era hora de regressar a Lisboa.

Vitóóó-ria! D. Vitória, ainda aí está?, Manuel de Sousa, o vizinho da quinta ao lado, bateu à porta.

Entra, Manuel, ainda estou cá. Estou a arrumar as coisas, o meu genro vem-me buscar depois de amanhã. Ainda me vai ralhar por ter tanta bagagem. Mas fazer o quê, quase não tenho roupas, são mais os frutos. Maçã este ano deu tanto, sequei sacos e sacos. Pepinos em conservas, compotas, tudo para eles, pouco fico para mim.

Bem sei, Vitória. Eu também volto para casa mais tarde, ainda fico uns dias. O campo, nestes dias de outono, está tão bonito… A Helena gostava tanto. Bem, vim cá por um motivo. Lembras-te como fechávamos a época cá todos juntos? O teu Sérgio ainda era vivo, nós novos, as crianças pequenas… Agora, tudo cresceu, está meio abandonado. Hoje faz um ano da partida da Helena. Queria recordar um pouco, Manuel passava com os dedos um envelope, nervoso, não queria estar sozinho. Aceitas vir jantar comigo? Fiz batatas fritas. Vamos recordar a Helena. E, tenho um assunto para conversar contigo…

Claro, Manuel, leva aqui pepinos de conserva, eu vou dentro de meia hora, ainda tenho tudo fora do sítio.

Aquelas famílias eram amigas há anos. Construíram juntos as casas, plantaram as árvores, celebraram aniversários de verão como uma grande família. O verão era uma segunda vida. Agora, os netos de Vitória ocupam a casa toda nas férias, não há tempo para tristeza. O Sérgio partiu há sete anos, mas Helena e Manuel eram seus vizinhos e amigos de sempre. Ou melhor, eram, porque a Helena tinha partido no outono passado. Via-se pelo movimento de Manuel, a falta que ela lhe fazia. Este verão, Manuel não parava, cavava as hortas sem saber quem ia lá plantar, Helena já não estava. Tentava entreter-se, construía à toa no barracão. De Vitória, nem traziam os netos: ora estavam em campos, ora viajavam com os pais. Vitória nem sabia para quem plantava tanto.

Suspiro. O melhor era vestir-se e ir, já tinha prometido.

Manuel estava à espera. A mesa posta: batatas fritas, tomates, pepinos de conserva (os de Vitória) já abertos.

Senta-te, Vitó, amanhã vêm cá os meus filhos. Hoje, somos nós a relembrar a Helena. Vê estas fotos… Olha o Sérgio a plantar a cerejeira contigo. Aqui, todos voltamos da mata cheios de cogumelos. E no churrasco… olha a Helena a sorrir junto à fogueira! Manuel serviu um copinho de vinho do Porto. Um brinde aos nossos. À Helena, e ao teu Sérgio.

Beberam, em silêncio. Roeram pepino. Então, Manuel tirou o envelope do bolso:

Vitória, não te assustes, mas houve uma coisa que a Helena quis de mim antes de partir. Em agosto viemos juntos embora. Sempre se aguentou, de bom humor, apesar de tudo. Recordámos a vida toda, parecia que revivíamos tudo outra vez. Reviu os filmes favoritos, conversámos. Depois, num dia, ela vira-se para mim:

Manuel, promete-me que cumpres o que te vou pedir. Nem protestes, nem questiones, sabemos bem os dois.

E deu-me este envelope. Vês? Ela escreveu mesmo, sabia que eu não ia conseguir deitar fora. Manuel entregou-lhe o envelope.

Mas Manuel, isso era para ti…

Lê, Vitória. Só lê.

Vitória abriu o envelope, tirou a folha com letra de Helena:

“Manuel, meu querido, que fazer, parto mais cedo. Mas a vida continua, vive por nós dois! Peço-te que sejas feliz. Não quer dizer que me esqueças. Só não posso pensar que tudo acaba aqui. Não quero ver, lá de cima, que estás mal. Não tenhas medo de ser feliz, sempre amámos a vida. Não fiques sozinho. E, se encontrares alguém, espero que seja a Vitória. Sempre achei que ela te estimava. Ela é boa pessoa, vai perceber, pede para morarem juntos. Para todos será melhor. Nós nunca desistimos. Vive, apesar de tudo! Tua Helena.”

Vitória leu uma vez, releu, olhou para Manuel.

Eu prometi à Helena seguir o que pediu. Só te conto, a decisão é tua, Manuel tremia, Vitória, vamos tentar? Temos uma amizade boa, e isso conta muito. Ninguém nos julga. Viver e aproveitar o dia é uma bênção, desanimar é pecado. Sê a minha esposa, Vitória, prometo-te que não te arrependerás.

Vitória não sabia o que responder. Olhou para Manuel, e percebeu, havia verdade ali.

Manuel, está bem, vou pensar. Digo ao genro que fico mais uma semana, não deu tempo de arrumar tudo.

Assim decidiram. Manuel acompanhou-a até casa naquela noite.

Vitória não dormiu nada. Decisão difícil. Viu a vida toda passar-lhe pelos olhos. E ao amanhecer, sonhou com o Sérgio. Sorria para ela: toma lá, em dois é mais fácil. Casa com o Manuel, não fico triste, pelo contrário. Quero-te feliz, Vitó.

No verão seguinte, Manuel e Vitória tiraram a vedação entre as hortas. Mais espaço, mais netos a correr. Manuel fez um baloiço novo, cavou as hortas, Vitória plantou de tudo, dava para toda a família. As netas ajudavam, ela deu-lhes até uma horta pequena. Os filhos iam nos fins de semana, felizes por verem os pais juntos, a apoiar-se.

Haverá quem critique. Só que lá em cima, Helena e Sérgio sorriem. Cumpriram o testamento da felicidade. E, contra tudo, a vida continua.

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O João fritou batatas e abriu um frasco de pickles. Hoje faz um ano desde que perdeu a sua Helena. De repente, bateram à porta.