João fritou umas batatas e abriu um frasco de pickles de pepino. Faz hoje um ano que perdeu a sua Olívia. De repente, bateram à porta.
Vieste mesmo, sorriu o homem ao ver a vizinha, Vera, no limiar. Convidou-a para a mesa. Falaram pouco, recordaram Olívia em silêncio. De repente, João tirou um envelope do bolso.
Vera, este envelope foi-me dado pela Olívia pouco antes de partir, explicou João, estendendo-o à vizinha.
Mas isto é para ti, admirou-se Vera.
Lê, e vais perceber tudo, disse João suavemente.
Vera abriu o envelope e, ao ler o conteúdo, ficou boquiaberta.
O genro prometera ir buscar Dona Vera ao campo no sábado de manhã. Custava-lhe deixar a casa de verão, mas já estamos no final de outubro. Tinham cortado a água, hora de regressar à cidade.
Vera! Dona Vera, está em casa? João Manuel, vizinho de longa data, bateu à porta.
Entra, João, ainda cá estou. A juntar as coisas, o meu genro chega depois de amanhã. Vai resmungar, certamente, por trazer sempre muitas malas. Mas, o que fazer? As minhas coisas são poucas, o resto é tudo da colheita. Este ano houve imensas maçãs, sequei bastante fruta. Pepinos, doce, pimentos. Não sou capaz de deixar nada. Fiz tudo para eles. A mim pouco me basta.
Tens razão, Vera. Também eu só volto mais tarde. Agora quero aproveitar estes dias lindos de outono. Olívia adorava esta estação Sabes, lembrei-me de quando, há anos, fechávamos juntos a casa de verão. O teu Sérgio ainda era vivo. Nós jovens, os miúdos pequenos. Agora, as hortas cobertas de mato, naquela altura tudo estava limpo, macieiras ainda novas. Queria pedir-te um favor hoje faz um ano desde que Olívia se foi. Queria recordá-la em boa companhia. Fiz batatas fritas, será que vens jantar? Tenho ainda algo importante para falar contigo.
Claro que sim, João. Leva aqui uns pepinos em conserva que preparei. Daqui a meia hora passo por tua casa, só arrumo o resto.
A amizade entre as duas famílias vinha de muitos anos. Construíram casas lado a lado, plantaram pomares juntos, ajudavam-se sempre. Aniversários no verão eram sempre em conjunto. Verão é uma pequena vida, e em cada verão viviam-na todos juntos. Agora, no verão, os netos de Vera passavam as férias com ela, nunca tinha tempo para tristezas. Mas já lá vão sete anos que Sérgio partiu. João e Olívia mantiveram a vizinhança e a amizade, até ao fim do último outono, quando Olívia também partiu. Ainda se gabava das dietas, parecia uma modelo. Depois o verão seguinte ficou estranho. João andava perdido, deu-se a cavar a terra mesmo sem motivo quem ia plantar? Olívia já cá não estava. Passava o tempo a arranjar coisas na arrecadação, mas nada lhe corria bem. Vera viu netos menos vezes, ora iam a um campo de férias, ora à praia com os pais. E ela mesma nem sabia bem para quem plantava tanto na horta. Ia regando tudo, à procura de ocupação.
Vera suspirou. O que haveria de dizer? Vestiu-se e dirigiu-se à casa do vizinho, como prometera.
João esperava por ela. Na mesa, batatas fritas, tomates e pickles da Vera, já abertos:
Senta-te, Vera, amanhã vêm os meus filhos. Hoje recordamos juntos a Olívia. Olha, encontrei umas fotografias antigas aqui o Sérgio a plantar uma cerejeira contigo. Ali estávamos todos carregados de cogumelos da floresta, cestos cheios. E aqui à volta da brasa, com a Olívia a sorrir. João serviu um cálice de aguardente um brinde aos nossos, à minha Olívia, ao teu Sérgio. Ficaram em silêncio, mastigando o pepino. João então tirou do bolso um envelope:
Vera, peço-te que me ouças até ao fim. Quando Olívia adoeceu, tudo aconteceu tão rápido No agosto passado ainda estivemos na casa de campo. Mesmo assim, manteve-se forte. Passámos os últimos tempos a recordar a nossa vida, víamos filmes antigos, conversávamos horas a fio. Um dia, Olívia pediu-me, com muita seriedade:
João, promete-me que fazes o que te vou pedir. Nem tentes contrariar-me. É o meu desejo. E entregou-me este envelope. Imagina, escreveu tudo, sabia que eu não conseguiria deitar fora. Lê, e entregou-o a Vera.
Mas isto era para ti
Lê só, depois percebes.
Vera abriu o envelope e leu, reconhecendo logo a letra de Olívia:
João, meu querido, vou embora mais cedo do que era suposto. Mas a vida continua. Quero que vivas por nós os dois! Peço-te que sejas feliz. Isso não significa que me vais esquecer. Só não quero, lá de cima, ver-te infeliz. Afinal, sempre adorámos viver. Peço-te que não fiques só. Se encontrares alguém, quero que saibas que não te levo a mal, pelo contrário. Gostaria muito que fosse a Vera sempre achei que havia simpatia entre vocês. Ela é uma mulher maravilhosa, vai entender. Pede-lhe para viverem juntos, será melhor para ambos. Nunca baixámos os braços, João. Por favor, vive, apesar de tudo. Tua Olívia.
Vera leu uma vez, leu outra e levantou o olhar para João.
Prometi à Olívia que faria como ela pediu. Partilho contigo, mas quem decide és tu, disse João emocionado, Vera, vamos tentar. Temos uma amizade bonita, isso já não é pouco. Não há motivo para culpa. Viver e apreciar cada dia é uma bênção. Estar só e perder a esperança isso sim, é triste. Queres ser minha mulher, Vera? Prometo que não te vou desiludir.
Vera ficou sem palavras, tão inesperado foi tudo aquilo. Mas, com calma, pensou: há verdade nestas palavras.
João, preciso pensar. Vou dizer ao meu genro que me atrasei, fico cá mais uns dias.
Assim combinaram e João acompanhou Vera a casa.
Nessa noite, Vera não conseguiu dormir. Pensou em toda a sua vida. E já de madrugada, sonhou com Sérgio. Apareceu a sorrir: Então, o que pensas? A vida a dois é sempre mais fácil. Aceita o João, não fico triste, antes pelo contrário alegra-me saber que a minha Vera não estará sozinha.
No verão seguinte, Vera e João deitaram abaixo a vedação entre os quintais. Agora tinham o dobro dos netos a correr pelo jardim. João construiu baloiços. Juntos, plantaram tantas coisas que dava para toda a família. As netas de Vera ajudavam na horta, cada uma com um canteiro. Aos fins-de-semana, os filhos crescidos iam visitá-los, felizes por saberem que os pais se apoiavam.
Talvez alguns não compreendessem. Mas lá do alto, Olívia e Sérgio sorriam. Cumpriram o desejo maior: ser felizes. E a vida, contra todas as tristezas, continua porque quem tem coragem de recomeçar, encontra sempre uma nova razão para ser feliz.







