Maria do Céu, estás ocupada? perguntou a minha mãe, espreitando à porta do quarto.
Espera só um segundo, mãe. Estou mesmo a acabar um e-mail e já te ajudo respondi-lhe, sem tirar os olhos do portátil.
Esqueci-me de comprar maionese para a salada e o endro também ficou por trazer. Não queres ir ao Pingo Doce antes que feche? Assim ainda vais a tempo.
Vou já, mãe.
Desculpa lá estar sempre a pedir coisas. Já tens o cabelo arranjado Com estas festas, a minha cabeça anda no ar suspirou, cansada.
Fechei o portátil e virei-me para ela:
Então, mãe, repete lá o que disseste.
Calcei as botas e vesti o casaco, mas deixei o gorro de parte não ia estragar o penteado agora. A mercearia era já no prédio ao lado, não ia gelar. Lá fora fazia um friozinho seco, caía um chuvisco de neve miudinho, mesmo a lembrar um conto de Natal.
A loja estava quase vazia, só quem, como eu, se tinha esquecido de coisas de última hora. O endro só estava com salsa e cebolinho, tudo meio murcho. Pensei ligar à mãe a perguntar se valia a pena, mas afinal tinha deixado o telemóvel em casa. Peguei na mistura, escolhi um frasco de maionese de uma prateleira já meia vazia, paguei e saí para a rua.
Nem tive tempo de andar dez metros: vinha um carro a fazer a curva e as luzes encandeiam-me. Afastei-me de repente, escorreguei num bocado de gelo por debaixo da neve, e caí redonda no passeio. O saco foi para o outro lado.
Tentei levantar-me, mas a dor no tornozelo era tão intensa que me saltaram lágrimas. A rua estava deserta, e nem sinal do telemóvel. E agora?
De repente, ouvi uma porta de carro bater suavemente atrás de mim.
Não se magoou? perguntou um rapaz novo, já ajoelhado ao meu lado. Consegue levantar-se? Ajudo-a. Estendeu-me uma mão.
Se parti o pé foi graças a si! Anda tudo à maluca de carro, isto parece uma pista de gelo gritei-lhe, entre lágrimas, recusando a ajuda.
Quem é que te manda andar de saltos altos à noite, então?
Vai mas é dar uma volta, pá respondi-lhe, zangada.
Então vai ficar aqui a noite inteira? Olhe que não sou nenhum criminoso de belas raparigas. Moras onde?
Ali, naquele prédio apontei, envergonhada.
Ele desapareceu. Mas pouco depois, ouvi o motor recuar e o carro parou mesmo ao pé de mim.
Vou levantá-la e não ponha peso no pé, está bem? Um, dois, três… e sem me dar tempo de protestar, já me tinha erguido e apoiado, deixando só o pé bom a tocar no chão.
Aguenta? segurou-me com uma mão e abriu a porta do carro com a outra.
O meu saco… gritei, a sentar-me no banco do pendura.
Ele apanhou o saco e pô-lo no banco de trás.
À porta de casa, ajudou-me a sair e apanhou-me ao colo antes que protestasse. Fechou o carro com o pé e caminhou para a porta.
As chaves estão no saco? Está alguém em casa?
A mãe.
Então toca a ligar-lhe e pedir que abra.
O prédio não tinha elevador. E lá subiu comigo ao colo até ao terceiro andar, eu agarrada ao pescoço dele, ouvindo-o a respirar com esforço. Via-lhe o suor a correr na testa, à luz fraca das escadas. Bem-feita, não tivesses vindo a acelerar, pensei vingativa.
Deixe-me, eu chego lá sozinha pedi à porta de casa.
Ele nada disse, limitou-se a ofegar. A minha mãe abriu a porta nesse momento, estupefacta.
Maria do Céu? O que é isto?
Ele empurrou educadamente a minha mãe e pousou-me no chão à entrada.
Traga uma cadeira, faz favor pediu-lhe, ofegante.
A mãe trouxe uma cadeira da cozinha e eu lá me sentei, a perna esticada. Ele ajoelhou-se em frente a mim.
Mas o que é que se passa aqui!? protestou ela.
Ele ignorou a indignação, segurou-me no tornozelo e puxou-lhe o fecho da bota. Gemi alto.
Ai! Olhe que dói!
O que está a fazer? A miúda está cheia de dores! a mãe e eu, num coro. O tornozelo já estava inchado e roxo, mesmo através das collants.
Vou chamar o 112 disse a mãe, apavorada.
É só um entorse, sou médico. Traga gelo já, mandou ele.
A mãe correu à cozinha e regressou com um frango congelado.
Ponha junto ao tornozelo. Ele endireitou-se e foi até à porta.
Vai-se embora? perguntei, assustada.
Vou ao carro buscar uma ligadura. E trago o seu saco também disse, e desapareceu.
Deixaste o saco com ele? Ó filha, quem é este tipo? sussurrou-me a mãe, já aflita.
Ele apareceu de repente com o carro, eu caí, trouxe-me até casa. Não sei mais nada dele.
E se for um ladrão, hein? Vai agora embora com o teu saco, com o cartão, dinheiro e as chaves. Chamamos a polícia? sugeriu baixinho.
Ai, mãe… Se quisesse roubar-me, deixava-me no passeio. Trouxe-me para casa, não foi?
Pronto, pronto, está bem.
Tocou o intercomunicador.
É ele, mãe. Vai abrir, por favor.
Entrou, olhou bem para mim e para a minha mãe, e pousou o saco na entrada.
Veja se está lá tudo disse ele, tirando o casaco e ajoelhando-se de novo.
Isto vai doer. Tenho de pôr o pé no sítio. Agarre-se bem à cadeira.
Pegou-me no pé, dobrou suavemente e fiz força para não gritar.
Ó minha senhora, está a arder ali qualquer coisa apontou para a mãe.
Ela correu para a cozinha.
Em dois segundos, o tornozelo parecia que explodia de dor. Fiquei preta de dores.
Pronto. Agora já pode descansar disse, baixinho.
A mãe voltou e ficou a olhar para mim, desfeita em lágrimas.
Só dói um bocadinho mais uns dias. Não ponha peso. Ele ajudou-me a pousar o pé e vestiu o casaco.
Obrigada, desculpe lá se pensei mal de si disse a minha mãe. Não quer ficar? Já falta pouco para o ano novo, é um perigo voltar para casa a esta hora. Eu tenho tudo quase pronto insistiu.
Ele pensou um pouco.
Posso ficar, se não for incomodar.
De maneira nenhuma, homem! Pode até ajudar-me a abrir o espumante!
Mãe! olhei-lhe com um olhar cortante.
Oh filha, deixa lá! Escusas de ralhar. Olha, vai levar a Maria do Céu ao quarto, faz favor.
Apoiei-me nele e fui a saltitar até ao sofá. Experimentei pôr o pé no chão dor, mas aguentava-se. Mas o toque da mão dele fazia esquecer tudo.
Obrigada disse, sentando-me.
Não tem nada que agradecer. Fui eu que causei isto, em parte.
Não digas isso. Fui eu que me atirei para o lado. Como te chamas?
João Miguel. E tu?
Maria do Céu. Passamos a tratar-nos por tu?
Claro. És mesmo médica?
Cirurgião. Só vinha comprar qualquer coisa ao supermercado
E a tua mulher? Está à tua espera?
Já não estamos juntos. Fartou-se de nunca eu estar em casa, nem nos fins-de-semana nem nas festas. Levou a miúda e foi para casa da mãe.
Devo estar um trapo
Estás linda.
E assim passámos o Ano Novo, nós três juntos. Dizem que como se entra, assim se passa o ano.
Quando o João se foi embora, eu e a mãe fomos dormir. Demorei a adormecer, sentia ainda o calor da mão dele na minha cintura, lembrava-me de como me pegou ao colo. Quem é que esquece isto?
No dia seguinte já conseguia pôr o pé no chão, ainda que inchado e apertado. Podia andar.
Fiquei realmente contente quando o João voltou. Tirou a ligadura, inspeccionou o pé, voltou a ligar.
Agora sim, está a recuperar. Já consegues pôr peso?
Sim respondi.
Um chá? perguntou a mãe.
Fica para a próxima, tenho de ir trabalhar já.
Voltas a aparecer? perguntei-lhe, sem disfarçar.
Ele sorriu.
Dois meses depois, mudei-me para casa dele.
Ainda nem estás divorciado. E se a tua mulher voltar? avisou a mãe, enquanto eu fazia as malas.
Não volta. O João diz que ela já tem outro.
Não sei, filha. Achas que não estás a ir depressa demais?
Foi um ano feliz. Só me custava vê-lo ir ter com a filha, ou saber que ainda tratava da ex-mulher. Já lhe tinha visto fotos. Era bonita. E comecei a perceber porque é que ela se tinha ido embora. Chamavam-no do hospital em todos os feriados, em todos os fins-de-semana e as noites, tantas vezes! Com tanta enfermeira nova, quem não se apaixonava por ele? Mas, quando ele estava comigo, eu sentia-me a mulher mais feliz do mundo.
Passou um ano. Apesar de tudo, continuava a ser feliz. Mas ele nunca se separou oficialmente. Isso magoava-me. E a minha mãe, sempre a insistir: Conversa com ele, define a tua vida! Hesitava.
No trinta e um, andava a cozinhar. A sala estava iluminada com as luzes da árvore de Natal, o vestido novo pronto para estrear no quarto. Verifiquei a carne no forno e ouvi o telefone. O João estava ao telefone, junto à janela.
Sim, já vou disse.
Chamaram-te para o hospital outra vez? perguntei, a voz trémula.
Não, foi a minha ex-mulher. A pequena está a chorar, não quer dormir sem mim. Eu vou lá deitar-lhe um olho, dou-lhe a prenda e volto já.
João, faltam menos de três horas para a meia-noite tentei conter as lágrimas.
Eu venho logo, não fiques zangada.
Beijou-me na cara e saiu.
Tentei convencer-me a não ter ciúmes, mas não conseguia. Pus a mesa, vesti o vestido novo. As horas foram-se arrastando até à meia-noite, e o João nunca mais voltou. Não quis ligar, se calhar estava a conduzir. Mandei mensagem, ele não respondeu.
Por fim, olhei para a mesa posta e apaguei as velas. Nessa noite, entendi muito bem o que a ex-mulher tinha sentido um dia. E se a minha mãe tivesse razão e ela conseguisse voltar para ele? Eu amava-o.
Ficar ali à espera era insuportável. Lembrei-me da dona Gertrudes do rés-do-chão estava sempre sozinha, nunca casou, nunca teve filhos. O João dizia-me que nunca viu ninguém a visitá-la. Fui à cozinha, levei um tupperware com salada e outro com bolo e desci.
A dona Gertrudes demorou a abrir. Expliquei rápido ao que vinha. Lá abriu, muito devagar, e olhou-me, meio desconfiada.
Trouxe-lhe um bocadinho de salada e de bolo, fui eu que fiz. Não se importa de partilhar comigo a meia-noite?
Vá, menina, entre.
A casa era pequenina e acolhedora, mas nem uma árvore de Natal ou mesa posta, só uma televisão velha a fazer companhia.
Olhe, sente-se. Eu pôr água ao lume disse ela.
Vives com o João Miguel? perguntou, já de chá na mão.
Sim.
Ela acenou, como a aprovar.
A mulher dele só via ela, nem cumprimentava. Não era boa pessoa. Tu não. E chamaram-no outra vez ao hospital?
Foi à filha.
Acenou novamente.
Vai voltar. Ele é bom rapaz.
Olhou para a chávena.
Passei a vida sozinha. Devia ter tido filhos, mas pronto. Também tive o meu grande amor. Mas uma amiga levou-mo.
Como assim?
Depois da escola fui para enfermagem, em Lisboa. O meu António ficou no Alentejo. No fim de ano, quis ir vê-lo a casa. O autocarro avariou-se no caminho. Não havia telemóveis. O motorista foi pedir ajuda. Faltava pouco para a meia-noite…
Decidi ir a pé, já era noite, nevava, estava vento. Mas fui sempre, a pensar que o autocarro me ia apanhar. Acabei por passar a meia-noite sozinha na estrada. Cheguei a casa dele enregelada, com febre. A minha melhor amiga disse que estava grávida do António. Ele tentou falar comigo, eu não quis ouvir. Fui embora para Lisboa, nunca mais olhei para trás.
Só muitos anos depois soube que ela mentiu sobre a gravidez. O António bebeu até acabar por morrer de frio, sozinho Era um bom homem. Devia ter perdoado, a vida era outra.
Pus-me a chorar. Ela também limpou uma lágrima com disfarce.
Pela janela, nunca o vi tão feliz com ninguém como contigo. Perdoa-lhe, não sejas como eu. Se o amas, segue o teu coração.
Regressei ao meu andar, arrumei o jantar no frigorífico. O João só voltou no dia seguinte.
Desculpa. Nem percebo como aconteceu. Acho que ela pôs alguma coisa no meu chá. Só acordei agora com dor de cabeça brutal.
Porque é que não te divorcias dela? Ainda a amas?
Não. Tu sabes lá o que já passei com ela. O que eu quero é a minha filha Maria do Céu, eu sei que estavas aqui à minha espera e deves ter imaginado muita coisa. Mas não aconteceu nada, eu juro. Confias em mim?
Abracei-o, olhei-lhe nos olhos.
Vamos embora, João. Para onde for, há hospitais em todo o lado. És um grande médico
Agora não estou capaz de falar nisso. Amo-te.
Adormeceu e fiquei a vê-lo dormir, recordando as palavras da dona Gertrudes.
A filha é pequena, há-de esquecer. Eles nem vivem juntos há meses. Foi a ex-mulher que armou isto, só para ver se eu desisto. Mas não vai conseguir. Vou lutar. Quando ele acordar, vamos conversar
Desliguei as luzes da árvore e deitei-me ao lado dele, agarrada a ele.
Amo-te. Essa palavra não chega. Amo-te mesmo. Há muitas maneiras de dizer, mas só uma de sentir.
Quando se ama, perdoa-se tudo Menos deixar de ser amado.







