O Filho Não Está Pronto para Ser Pai… “Vadia! Ingrata! Porca! — gritava a mãe para a filha, Natáli…

O meu filho não está preparado para ser pai…

“Vadia! Ingrata! gritava a minha mãe para mim, Filomena, como se o mundo fosse acabar. O meu ventre já arredondado em nada abrandava a sua raiva; pelo contrário, parecia alimentar-lhe ainda mais o ódio. Sai desta casa e não voltes! Quero-te longe, não quero mais olhar para ti!”

E assim foi. A minha mãe já me tinha expulsado de casa outras vezes por pequenas desobediências, mas desta vez deixou claro que era para sempre. O facto de eu estar grávida era demasiado para ela suportar.

Com os olhos inchados das lágrimas e apenas uma mala pequena nas mãos, fui procurar o meu namorado, Afonso. Descobri logo que ele nem sequer contara aos pais que eu estava grávida dele. Mal entrei, a mãe do Afonso foi direta: perguntou se ainda dava tempo para fazer qualquer coisa. Mas já era tarde demais qualquer um via o meu estado e a barriga crescendo. Eu estava destruída, atravessada por medo e desalento. Quis resistir a tudo isto antes, mas agora só queria alguém para me amparar.

O meu filho não está pronto para ser pai afirmou a mãe do Afonso com uma frieza cortante. Ele ainda é tão novo Vais-lhe arruinar a juventude! Vamos ajudar no que pudermos, mas pedi a uma amiga para te conseguir lugar num centro de acolhimento para grávidas sem apoio. É o melhor para todos.

No centro deram-me um quartinho onde, finalmente, pude respirar. Ali ninguém me julgava. Recebi orientação, apoio psicológico e algum descanso, preparando-me para o parto. E quando chegou o dia, colocaram-me nos braços o pequenino embrulho que era a minha filha, Clara. Senti pânico, um vazio, uma ansiedade imensa. Assim que acalmei, comecei a fitá-la: que ser desconhecido era aquele agora na minha vida?

O Natal aproximava-se. Mas, ao invés de um tempo de esperança, recebi o aviso: teria de procurar outro lugar para mim e a Clara; havia mais mulheres a precisar daquela vaga. Sentada no meu quarto com a minha menina nos braços ela tão pequenina, só um mês de vida , não sabia o que fazer, sem dinheiro, sem casa, sem ninguém. O coração da minha mãe continuava gelado; nem sequer quis conhecer a neta, apagando-nos das suas lembranças.

Que triste está a ser o nosso Natal, filhota murmurei para Clara. Sempre adorei o Natal. Em miúda, andava porta a porta a cantar Janeiras, sabia todas as modinhas e conseguia arrecadar uns bons trocos, juntando-me aos outros meninos do bairro. De repente, senti vontade de reviver isso, de fugir deste sofrimento, percorrendo as ruas a cantar como antes. “Porque não?”, pensei. A Clara é sossegada, posso bem embrulhá-la em mantas, prendê-la a mim, e irmos as duas espalhar música e esperança. Quem não quiser abrir-nos a porta, paciência, Deus lhes guarde.

No dia seguinte ao Natal, escolhi um bairro sossegado, só casas grandes com jardins. Sabia que não iam gostar de me ver à porta a tradição pede rapazes ou grupos, não raparigas sozinhas com bebés , mas arrisquei. Às vezes abriam a porta por comiseração. Nas poucas casas onde me deixaram entrar, cantei as Janeiras com a alma, e vi nos olhos das pessoas piedade e carinho; deram-me moedas, bolachas, até frutas. Muitos não resistiam ao sorriso sereno da pequenina. Todos percebiam que o meu caso era triste e que eu andava ali porque não tinha alternativa, não por gosto.

Ir de casa em casa era cansativo. “Ainda vou ali àquela mansão, parece de gente rica pode ser que me calhe uma boa esmola”, pensei, esperançosa. Já tinha ajuntado uns bons euros no bolso, o que me dava algum alívio.

Podemos cantar as Janeiras? perguntei quando o dono me abriu a porta. Mas algo no seu olhar me deixou desconfortável. Depois de me deixar entrar, ficou a olhar-me fixamente. Olhou para a Clara, depois ficou lívido, cambaleou, sentou-se devagar no sofá.

Joana? murmurou ele.

Desculpe? Não, eu sou Filomena Deve estar a confundir-me com outra pessoa.

Filomena Mas és tão parecida com a minha esposa o senhor mal respirava. E a bebé, é menina?

É sim.

Também tive uma filha assim Mas morreram Num acidente de automóvel. Sonhei há dias que ambas voltavam. E agora tu apareces Será possível?

Não sei Não tenho palavras.

Por favor, entra, senta-te Conta-me, quero ouvir a tua história.

Fiquei nervosa, o senhor parecia perturbado. Mas afinal, para onde mais podia ir? Acabei por entrar. Sentei-me numa sala grande e luminosa, onde vivia aquele homem solitário. Reparei logo numa fotografia de família na parede, com uma mulher e uma criança de facto, a esposa era semelhante a mim

E então comecei a contar a minha vida, sem parar, sem querer omitir sequer os detalhes mais pequenos. Pela primeira vez, alguém escutava de verdade, interessado no meu destino. O homem ouvia em silêncio, atento às minhas palavras, de vez em quando espreitava a Clara, que dormitava tranquila no meu colo. A tranquilidade dela parecia dizer-me que finalmente, depois de tanto sofrimento, talvez tivéssemos encontrado um larQuando terminei, sentia-me esgotada, mas mais leve como se cada palavra tivesse tirado uma pedra do meu peito. Ele ficou calado, olhos húmidos, e por fim pegou com reverência numa caixinha de madeira que estava ao lado do sofá.

Esta casa é demasiado grande para mim sozinho disse ele, voz a tremer. Desde que perdi as minhas, nunca mais voltei a acender as luzes do andar de cima. Mas ouvir-te Ver-te a lutar, com essa filha nos braços Senti algo a acender cá dentro outra vez.

Abriu devagar a caixinha e retirou um par de sapatinhos de lã minúsculos, azuis. Sorriu ao pousá-los junto à Clara.

Foram tricotados pela Joana, a minha mulher. Nunca me desfiz deles. Olhou para mim, hesitante. Se quiseres Se quiseres ficar aqui uns tempos, não tens de pagar nada. Quero ajudar-vos a recomeçar. Esta casa precisa de risos, choros, barulho de pézinhos pequeninos. E eu preciso de sentir-me útil, de fazer parte de uma história onde ainda haja esperança.

As lágrimas escorriam-me pelas faces, sem vergonha. Pela primeira vez em muito tempo, senti uma mão quente pousar no meu ombro. Não era a da minha mãe, nem a do Afonso, nem de ninguém que esperasse mas era, naquele instante, a mão que mais precisava.

A Clara, mexendo-se no sono, esboçou um sorriso. E eu soube que, embora o inverno ainda fosse longo e rigoroso, ali naquela casa erguia-se um lar novo, feito de perdas antigas e esperanças nascidas do nada. Fiquei. Escutámos juntos o som da noite, e pela primeira vez, a solidão não me pareceu inimiga, mas sim o princípio de uma família.

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