O Filho Chegou ao Funeral a Rir dos Pais… Sem Imaginar o Que o Advogado Carregava Naquele Envelope…

O Filho Chegou ao Funeral para Se Rir dos Pais Sem Saber o que o Advogado Trazia Aquele Envelope

Ricardo Campos mantinha-se de pé diante dos dois caixões de pinho sem verniz, braços cruzados e um sorriso cínico esculpido no rosto. O vento agreste levantava o pó alentejano, enchendo-lhe os sapatos italianos de terra, enquanto ele lançava olhares aos caixões como quem olha a miséria alheia. Trinta pessoas, de preto, rodeavam-no em silêncio tenso.

Mulheres com mantilhas negras, homens de chapéu na mão, crianças confusas por tanta lágrima de adulto. No meio, Ricardo vestido de fato cinzento de três peças, relógio suíço brilhando ao sol do meio-dia, e aquele sorriso impossível de se acreditar. Este é o melhor caixão que arranjaram? perguntou alto, apontando para o caixão à esquerda com desdém. Parece uma caixa de frutas da feira. Ninguém respondeu. As mulheres entreolharam-se.

O senhor Silva, o carpinteiro que passara a noite inteira a construir os caixões, cerrou o punho mas engoliu em seco. Ricardo deu volta aos caixões como quem inspeciona mercadoria danificada. E as flores, onde as foram cortar? Do campo? Isto nem parece funeral de gente, mais parece de cão. Parou entre os dois caixões, lançou um olhar à aldeia reunida e soltou uma frase que gelou o sangue a todos.

Nem mortos deixam de ser vergonha. O silêncio mudou de textura. De respeito, tornou-se fúria contida. Esperança, ajoelhada junto ao caixão, olhos inchados de tanto chorar, levantou a cabeça e disse com voz trémula de ódio: Tem respeito, Ricardo. São teus pais. Ele nem a olhou. Tirou do bolso o telemóvel, viu as horas, suspirou como se perder ali o tempo fosse o maior dos aborrecimentos.

Nisto um carro preto parou à beira da estrada arenosa. Da porta, saiu uma mulher jovem, magra, com uma pasta de cabedal e um envelope castanho na mão. Avançou entre as campas, certa dos próprios passos, até chegar ao grupo. Ricardo olhou-a de alto a baixo, não a conhecia de lado nenhum. Ela não lhe dirigiu palavra. Falou ao ouvido do padre Domingos, que anuiu com expressão grave.

Ricardo fixou o envelope. Pela primeira vez nesse dia, o sorriso morreu-lhe nos lábios, sentiu gelo nas veias por um instante mas logo voltou ao seu ar altivo. Não sabia que aquele envelope com o nome dele escrito mudaria para sempre tudo o que tinha como certo.

Mas para percebermos como chegámos aqui um homem a rir-se ao funeral dos próprios pais, à espera do que traz um envelope fechado precisamos recuar muitos anos, até uma casa de adobe em Trás-os-Montes, onde um menino de pés descalços sonhava em fugir do único sítio onde alguém o amava verdadeiramente.

A casa dos Campos ficava ao fim de um caminho de terra batida, não constava em mapa nenhum paredes de taipa, telhado de chapa, rodeada de oliveiras e sobreiros, porta de madeira que nunca trancava, uma janela tapada por cortina de linho rendada por Dona Matilde.

Dentro, o chão era terra batida, uma mesa com três cadeiras desirmanadas, um altar à Senhora de Fátima cheio de velas e um fogão a lenha onde Matilde fazia feijoada, pão-de-ló e, quando havia sorte, umas febras secas. Para Matilde e António, aquela casa era tudo. António tinha erguido cada parede com as próprias mãos, carregado cimento do largo da aldeia, moldado todos os detalhes como quem constrói o castelo de um sonho adiado.

Ele via ali tudo o que a vida lhe negara em criança, tudo o que jurara conquistar para dar aos seus. Um lar onde ninguém mais lhe ia roubar o chão debaixo dos pés. Matilde compreendia. Amava-o e aprendera que riqueza é ver valor no que outros desprezam. Mas Ricardo nunca entendeu. Desde miúdo, sentia-se deslocado. Via os colegas na escola, com mochilas novas, ténis sem buracos, lancheiras recheadas de nomes que só conhecia de ouvir dizer.

Ele ia com sandálias remendadas do pai, saco de plástico em vez de mochila, dois pães com chouriço embrulhados num pano. Ouviam-se risos pelos corredores. Lá vem o pobrezinho do António! diziam. Ricardo cerrava os dentes, baixava os olhos, e sentia dentro de si uma coisa a apodrecer.

Um episódio jamais esqueceu. Na escola, pediram a cada aluno para levar um presente no Dia da Mãe. Os outros trouxeram flores compradas, caixas embrulhadas, cartões bonitos. Ricardo trouxe um guardanapo de linho bordado por Matilde com as iniciais dele, embrulhado em papel de jornal porque não havia outro. Quando caminhou até à frente da sala, um miúdo gritou: Parece um trapo de limpar panelas! A turma inteira riu. A professora mandou calar, mas o mal estava feito. Ricardo sentou-se com o guardanapo agarrado, sentindo o estômago a arder de vergonha.

Em casa, Matilde só perguntou se correu bem. Ele disse Sim sem a encarar, sumiu-se lá fora, olhou o monte mordendo os lábios para segurar as lágrimas. Ele não sabia que Matilde passara três noites a bordar aquele guardanapo à luz de velas. Esse guardanapo nunca voltou para casa. No dia seguinte, Ricardo atirou-o ao lixo no caminho para a aula.

Mais tarde, com cerca de dez anos, voltou para casa a chorar. Ia haver passeio à cidade do Porto, custava cem euros uma fortuna para a família. Pôs-se perante o pai, que estava a remendar uma cadeira. Pai, preciso de dinheiro para ir no passeio. O olhar sereno de António não vacilou. Pousou a cadeira e respondeu, calmo: Não há. Aprendes mais aqui do que em qualquer cidade. Ricardo engoliu seco, não insistiu, foi para a cama calado. Mas aquela noite, olhando o tecto a pingar quando chovia, jurou a si próprio: sairia dali, teria dinheiro, nunca seria como o pai.

Promessa que se fez veneno: vergonha, raiva, desprezo. Sempre que lhe negavam algo porque não havia dinheiro, outra pedra era empilhada no muro entre ele e os pais… Sem saber, a escassos quilómetros, num escritório discreto em Bragança, uma jovem advogada geria contas, terrenos e investimentos em nome de uma sociedade pertencendo apenas a um homem: António Campos, o mestre dos remendos, sempre a dizer que não havia dinheiro.

Ricardo nunca soube que o pai nunca fora pobre. A verdade só o apanharia, cruel e tardia, muitos anos depois.

A saída foi numa manhã fria de março, já com 19 anos. Não houve abraço, despedida, nem palavras. Mochila velha com três mudas, papéis do Registo Civil e um bilhete de autocarro para Lisboa, pago com trocos ganhos ao fim de semana a empacotar na mercearia.

Matilde estava na cozinha quando o viu sair, secou as mãos ao avental, recostou-se na ombreira, viu o filho descer o caminho sem dizer nada. Não implorou, não chorou à vista dele; simplesmente murmurou: Que Nossa Senhora te proteja, meu filho. Ricardo nem olhou para trás, ergueu a mão ao longe, seguiu até desaparecer no pó do caminho.

António dava milho às galinhas, ouviu passos e, depois, o silêncio. Não saiu à porta. Ficou quieto, punhado de milho parado, olhos cravados no chão. Matilde aproximou-se e disse baixinho: Já foi. António acenou só: Vai voltar. Quando perceber, volta. Mas não voltou.

Em Lisboa, Ricardo descobriu que a raiva era combustível. Trabalhou como estafeta, ajudante de obras, descarregador de armazém. Dormia num quarto partilhado; comia uma vez ao dia. Cada noite repetia: Nunca serei como o meu pai. Aos cinco anos, abriu a própria empresa de construção civil. Em dez anos, escritório no Areeiro, três carrinhas com o seu logótipo, apartamento com vista para a Avenida da Liberdade tudo financiado até ao último cêntimo.

Por fora, homem de sucesso. Por dentro, castelo de cartas: endividado, arrogante e a esconder as falhas. Enterrava cada vez mais fundo o miúdo de sandálias rotas, e gostava disso: sentir que o passado não existia, que já ninguém o reconhecia.

No primeiro ano, ligou à mãe uma vez. Estou bem, mãe, estou a trabalhar. Matilde chorou de alegria. No segundo ano, ligou duas vezes, conversas curtas e ásperas. No terceiro, deixou de ligar. Matilde nunca deixou de tentar. Todos os domingos às sete, marcava o número do Ricardo do telefone do padre Domingos. Chamava, caía no voicemail. Ela deixava sempre um recado: Sou tua mãe. Só queria saber de ti Espero por ti. Amo-te. Ricardo ouvia os recados entre jantares caros com sócios, apagava-os em silêncio ou com um sorriso cínico.

António enviava cartas à mão, letra tremida em papel de caderno, enviadas para o escritório do filho. Coisas pequenas: o tempo, as chuvas, a oliveira a crescer no quintal. Nunca pedia nada, nunca reclamava, só queria que Ricardo soubesse que havia vida à espera dele ali. Ricardo recebia os envelopes, via a letra do pai, rasgava-os e punha no lixo. Anos e anos. Oito anos de silêncio. Oito anos de mensagens apagadas, de velas acesas todas as noites por Matilde só pedindo um milagre: o filho um dia voltar.

Não sabia ela que, quando esse dia chegasse, já não estaria lá para vê-lo. E aquela chamada nunca atendida foi a última.

A doença da mãe chegou como chegam as tragédias nos sítios sem médico ou hospital: de repente. Primeiro o cansaço, Matilde pensou ser dos anos. Depois tosse, mais tarde, dores no peito. Quando chegou à clínica da vila, o diagnóstico era frio como o chão: pulmões perdidos, tratamento impossível, o tempo a esgotar-se.

Esperança, vizinha de sempre, mudou-se quase para casa dos Campos. Chegava de madrugada, fazia-lhe chá, ajudava nos banhos, trocava lençóis, punha panos quentes no peito. Os próprios filhos, já adolescentes, sabiam tratar de si. Dona Matilde precisa de mim agora, dizia ela, e os filhos entendiam.

As tardes eram as piores. Matilde sentava-se à janela, olhando a estrada, esperando que o filho aparecesse entre a poeira. Todos os dias, a mesma pergunta contida: E hoje, Esperança? Hoje ele virá? Esperança sorria com pena: Talvez, Dona Matilde, talvez.

António ajudava, trazia lenha, buscava medicamentos, mas havia uma tristeza a crescer no olhar. Não era só doença, era ausência de Ricardo. Era saber que Matilde estava a morrer e o filho nem ligava. O padre Domingos tentou o impossível ligou ao filho três vezes na mesma semana.

Na primeira caiu no voicemail. Na segunda, atendeu uma secretária: o senhor Campos estava em reunião. Na terceira, foi Ricardo. O padre começou: Ricardo, é o padre Domingos a tua mãe está muito doente. Ricardo interrompeu-o com voz gelada: Padre, com o devido respeito, não tenho nada a ver mais com essa terra. Se precisam de dinheiro, falem com outra pessoa. E desligou.

Foi a chamada que selou tudo. O padre ficou sentado, telefone na mão, olhando o altar, e rezou como há muito não rezava por ninguém. Matilde piorou em dezembro. O frio do nordeste trespassava-a, a tosse era contínua e funda. Esperança dormia numa cadeira ao lado, tapada, acordava sempre que a doente se mexia.

Certa noite, Matilde acordou agitada, chamando por Ricardo como se o visse. Esperança segurou-lhe as mãos. Já chegou, Dona Matilde, está aqui ao seu lado. Pode descansar. Matilde sorriu e fechou os olhos. Esperança ficou ali na escuridão a chorar baixinho de raiva contra um filho que nem sabia que a mãe o via em sonhos.

Na última noite, Matilde pegou na mão de Esperança, sussurrou: Foste a filha que Deus me deu quando perdi o filho. Esperança não respondeu. Apertou apenas a mão, deixando cair as lágrimas em silêncio. Antes de partir, pediu que lhe chegassem a fotografia antiga Ricardo, aos seis anos, a sorrir com dentes desalinhados em frente à casa de barro. Matilde apertou o retrato ao peito, fechou os olhos e num sopro murmurou: O meu filho

Esperança fechou-lhe os olhos, ajeitou a mantilha, pôs-lhe a foto entre as mãos, saiu em silêncio pela noite, atravessando o caminho de terra para chamar o padre. Chorou sem fazer barulho como choram as mulheres que aprenderam a não incomodar o mundo com as suas dores.

Matilde partiu esperando pelo filho, mas ele estava demasiado ocupado vivendo uma vida que ela não reconheceria. O funeral foi como tudo na sua vida: simples. Caixão de pinho feito pelo senhor Silva, um ramo de flores silvestres colhido pelas crianças do lugar, missa na capela dita pelo padre Domingos, voz embargada. Todos estavam presentes, menos Ricardo.

António não chorou, não falou, ficou imóvel. Quando o caixão desceu à terra, ficou a olhar o vazio como quem vê o fim do mundo. Esperança tocou-lhe no ombro, Venha para casa, sugeriu. António recusou, Fico cá. Ficou ao lado da sepultura até as estrelas virem.

Nessa noite, entrou em casa, sentou-se na cadeira de Matilde onde ela bordava, rezava, olhava pela janela à espera do filho e nunca mais se levantou. Esperança levou-lhe comida, intocada na mesa. No dia seguinte, caldo que ficou intocado. Ao terceiro dia, abriu a porta e encontrou António sentado, olhos fechados, fotografia da boda serrada ao peito, rosto em paz. O médico da vila disse que foi do coração, mas todos sabiam: António morreu quando Matilde se foi e já não tinha razão para ficar.

O padre Domingos encontrou, debaixo da almofada, um envelope endereçado à doutora Teresa Silva e uma nota trémula: Para quando chegar a altura. Guardou-o, ligou a Teresa e ligou a Ricardo uma última vez. Os teus pais morreram. Funeral sexta-feira.

Ricardo ouviu o recado ao ajeitar a gravata no espelho do apartamento em Lisboa. Parou um instante, depois voltou ao seu ritual vestir-se, colocar o relógio de mil euros, manter o dia como se nada. Mas foi ao funeral. Não por amor, nem remorso, mas porque num canto da mente acendeu-se a palavra herança.

Chegou à aldeia num SUV preto alugado. Não quis arriscar o seu próprio carro nos buracos da estrada de terra. Estrago a suspensão, dissera à secretária ao marcar o bilhete. Saiu do SUV, óculos escuros, fato de luxo custando o que meia aldeia ganhava em um ano. Sapatos logo cheios de terra.

No cemitério, dois caixões lado a lado sobre a terra, flores do campo, velas acesas ao vento, cerca de trinta pessoas. O silêncio cortou-se quando Ricardo entrou. Não cumprimentou ninguém. Foi direto aos caixões, tirou os óculos com gesto teatral. Inspecionou as madeiras, as flores, as velas, e soltou uma gargalhada curta, seca. Isto é inacreditável, abanando a cabeça, morreram como viveram, sem nada.

Algumas mulheres benzeram-se, um velho cuspiu no chão. Ricardo bateu no pinho com os nós dos dedos, como quem testa porta barata. Nem verniz puseram. Isto foi o melhor que conseguiram? O senhor Silva avançou, mas a mulher conteve-o: Deixe-o, Deus se encarrega. Ricardo continuava: O calor, o pó, o fedor, as roupas do meu pai Uma camisa mais remendo do que pano. E ria. Ria sozinho.

Uma mulher velha murmurou alto: Dona Matilde rezou todas as noites para o filho voltar. Veja o que Deus lhe mandou. Ricardo fingiu não ouvir, endireitou a gravata, viu as horas no relógio caro. Mas ia chegar o momento da verdade.

Esperança não aguentou mais. Limpou as lágrimas com as costas das mãos, ergueu-se à frente de Ricardo. Menor, magra, mãos calejadas e olhos vermelhos, fitou-o de frente, fazendo-o recuar meio passo. Já acabou? lançou com voz firme Já se fartou de se rir? Ricardo devolveu-lhe o desprezo: E você, quem é?

Eu fui quem fechou os olhos à tua mãe enquanto ela morreu a pedir por ti. Dei de comer ao teu pai quando deixou de querer viver. Eu estive cá, Ricardo, todos os dias, enquanto tu vivias brilho e luxo em Lisboa a brincar de senhor importante. A voz de Esperança trémula, mas firme. A tua mãe morreu com o teu nome na boca. O teu pai morreu com a tua foto nas mãos. E tu chegas aqui a rir dos caixões deles? O silêncio era absoluto. Ricardo abriu a boca, mas nada saiu. Por um instante, algo passou no olhar: talvez vergonha, dor, talvez um eco da voz da mãe, mas logo vestiu os óculos, compôs o blazer e disse: Não vim aqui para discutir. Vim resolver o que tenho e sair.

Nesse momento, o carro preto estacionou. Teresa Silva saiu com o envelope. Caminhou entre as campas, postura irrepreensível, ar determinado. Falou baixo com o padre Domingos, depois virou-se para todos:

Boa tarde. Sou Teresa Silva, advogada e representante do património de António Campos. Dono António deixou instruções para a leitura pública do testamento, aqui, perante a família e comunidade, no dia do funeral.

Ricardo cruzou os braços, meio sorriso. Património, testamento. Eis a palavra esperada. Talvez um terreno, talvez uma conta velha com milhares. Nada de relevante, mas pelo menos algo para cobrir os custos da viagem.

Teresa abriu a pasta, tirou a certidão e leu: Eu, António Campos, em pleno uso das minhas faculdades, declaro como última vontade o seguinte Sou proprietário de: 400 hectares de terras agrícolas nos concelhos de Mogadouro e Miranda; três imóveis urbanos em Bragança; investimentos financeiros no valor de 4.800.000 euros; uma conta poupança com saldo de 2.300.000 euros.

Ricardo descruzou os braços, o sorriso congelou. Sete milhões de euros. O pai, sempre de roupa remendada, tinha sete milhõesA mente de Ricardo girava: com isso podia pagar dívidas, salvar a empresa, a casa da Liberdade, tapar buracos, reestruturar créditos, voltar a respirar. Uma fome nova iluminou-lhe o rosto. Como filho único, toda a herança é minha. murmurou, ansioso.

Mas Teresa continuou: Declaro que a totalidade dos meus bens, sem excepção, será doada ao Orfanato São José da Serra instituição a quem devo a vida e formação. Esta decisão é irrevogável, registada em cartório a 14 de setembro. O sorriso de Ricardo desapareceu lentamente, como vela a esgotar-se. Lábios, olhos, toda a expressão ficou vazia. O quê? foi tudo o que disse.

A totalidade dos bens do seu pai já está legalmente transferida para o orfanato, repetiu Teresa, impassível. A doação foi assinada em vida, não cabe contestação. Ricardo olhou para Teresa, para o padre Domingos, depois para o povo, agora em silêncio de pena e não de raiva. Viu os caixões, as flores do campo e por fim não conseguiu dizer nada. Tentou, mas a voz saiu fraca: Mas eu sou o filho.

Teresa fixou-o: António sabia bem disso. Deixou também uma carta para si. Prefere ouvir agora, ou em privado? Ricardo fitou o envelope. Todos os olhos postos nele. Tentou soar forte, a voz falhou: Leia

Teresa retirou do envelope uma folha dobrada de caderno, escrita a esferográfica azul, letra tremida igual às cartas que Ricardo sempre deitava fora. E começou a ler:

Ricardo, meu filho, se ouves isto é porque já parti. E se já parti, é porque a tua mãe se foi primeiro e eu sem ela não sei viver. Só soube contar isto ao padre Domingos e à Doutora Teresa. Não nasci nesta aldeia, nunca tive pais. Fui deixado no Orfanato São José ao nascer, embrulhado num pano velho, sem nome. As irmãs deram-me António, porque entrei em junho, Campos pelo nome de uma delas.

No orfanato aprendi tudo ler, rezar, trabalhar. O amor não é o que temos, é o que damos. Ensinaram-me a coser roupa, plantar batatas, não depender de nada. Quando saí aos 16, jurei duas coisas: ter uma vida digna e um dia devolver ao orfanato tudo o que recebi.

Trabalhei toda a vida, comprei terras enquanto ninguém queria, poupei tostão a tostão. Sim, tive dinheiro até mais do que imaginas mas nunca o toquei. Esse dinheiro já tinha destino: para as crianças do orfanato onde cresci, para que nenhuma sinta nunca que não é querida.

Eu sei que te falhei, filho. Sei que passaste vergonhas que nenhum miúdo merece. Mas achei que se te desse amor, tempo, mãos, exemplo chegaria. Enganei-me ou talvez tenhas sido tu a recusar ver. Eu dei-te amor, Ricardo. Tu respondeste com silêncio.

Nunca te faltou pai faltou-te ver. Por isso, o dinheiro irá para quem sabe amar, para quem come pão seco a agradecer. Não te escrevo com ódio, mas com a tristeza mais funda, pois amei-te sempre e amarei até ao fim. Mas amor não é só sentir: é estar. E tu não estiveste. Teu pai, António.

Teresa dobrou a carta, devolveu-a a Ricardo, mãos a tremer. Ele não levantou os olhos, nada disse. À volta, muitos choravam. Homens que nunca haviam chorado limpavam as lágrimas com a manga. Esperança soluçava agarrada a uma vizinha. O padre Domingos recitava uma oração imperceptível.

Ricardo, de pé, entre dois caixões, fato de luxo, envelope na mão e ali percebia que tudo quanto amealhara na vida não valia nada.

O povo foi desaparecendo. Um a um, passavam junto aos caixões, benziam-se, deixavam uma flor, tocavam a madeira como despedida, alguns olhavam Ricardo, outros não. Esperança foi das últimas a sair, olhou-o como se fosse irremediável, murmurou: Oxalá que um dia percebas o que tinhas. E partiu no caminho de terra, mantilha apertada ao peito.

Ricardo ficou sozinho, com os dois caixões, o envelope, e o vento agreste a soprar-lhe o rosto e a encher-lhe os olhos de pó. Ou pelo menos, assim se desculpou quando sentiu os olhos arderem. Sentou-se na terra, junto à campa aberta da mãe, com o fato coberto de poeira e os sapatos enterrados no barro.

O telemóvel tocou. Era o banco: Senhor Campos, precisamos falar da reestruturação do crédito da sua empresa. Os pagamentos estão três meses atrasados. Desligou. Voltou a tocar a empresa de leasing das carrinhas. Outro toque a administradora do condomínio da casa de Lisboa. Cada chamada, um tijolo a cair do castelo de vento que construíra. Empresa afogada em dívidas, a casa no Areeiro com quatro meses sem pagar, as carrinhas alugadas, fatos, jantares, viagens de cartão, pura encenação mentira sustentada com teimosia, só que a mentira do pai escondera um património, a de Ricardo não escondia nada.

Desligou o telefone, olhou os caixões de pinho os mesmos que desprezara uma hora antes. Agora via as mãos do senhor Silva a trabalhar de madrugada, as flores do campo apanhadas por crianças, as velas acesas. Via o que negara a si mesmo durante anos.

Viu a roupa remendada do pai, os calções de linho, as sandálias velhas: não porque não houvesse dinheiro para mais, mas porque para António Campos, nascido num trapo junto à porta de um orfanato, riqueza nunca foram coisas foram pessoas: Matilde, a aldeia, as crianças do orfanato, o filho ausente.

Ricardo tirou do bolso as chaves do carro alugado, olhou-as e atirou-as à terra sem cuidado. Sentiu passos atrás. Era o padre Domingos, que se sentou ao lado dele no chão, calando-se muito tempo. Não o julgou. Depois, tirou do bolso uma fotografia pequena, gasta. O teu pai quis que tivesses isto. Ricardo pegou nela de mãos trémulas: era ele, seis anos, em frente à casa pobre, sorriso enorme e desalinhado, descalço, t-shirt pela anca, e atrás dele Matilde, de avental e mãos de farinha, António de chapéu inclinado, olhos semicerrados pelo sol ambos a olharem para Ricardo como se ele fosse tudo no mundo. Era.

Ricardo apertou a foto junto ao peito, dobrou-se para a frente e ali, no chão duro do cemitério, entre os caixões dos únicos que o amaram sem condições, chorou. Chorou como não chorava há trinta anos: pelas chamadas nunca atendidas, cartas rasgadas, recados apagados, pelo pão com chouriço embrulhado num pano, pelos cem euros do passeio, pelo guardanapo bordado, pela tosse da mãe nas noites frias, pela cadeira vazia onde o pai esperou a morte. Chorou pelo que teve e nunca viu que tinha.

E o vento alentejano continuou a soprar, levando o pó, as flores secas, e o eco de uma gargalhada que nunca mais se ouviria. Porque Ricardo Campos quis ser rico a vida toda mas só quando perdeu tudo entendeu o que era ter verdadeiro tesouro.

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O Filho Chegou ao Funeral a Rir dos Pais… Sem Imaginar o Que o Advogado Carregava Naquele Envelope…