O coração do gato batia surdo no peito, os pensamentos estavam dispersos, a alma doía. O que poderia ter acontecido para que a dona o entregasse a estranhos, por que ela o deixou?
Quando Leonor recebeu, como presente de inauguração de casa, um britânico preto como a noite, passou alguns minutos sem reação
O seu modesto T1, comprado com muito esforço, ainda estava por organizar. Havia outros problemas que necessitavam da sua atenção.
E, de repente, um gatinho. Recuperando do choque, olhou para os olhos dourados do bichinho, suspirou, sorriu e perguntou à pessoa que o trouxe:
É gato ou gata?
Gato!
Muito bem, vais ser o Fred, disse ela, dirigindo-se ao pequeno felino.
Ele abriu a boquinha e soltou um submisso Miau
*****
Logo percebeu que os britânicos eram criaturas absolutamente tranquilas. Já lá iam três anos, Leonor e Fred viviam em verdadeira sintonia. Mais ainda, com o tempo, provou-se que Fred tinha uma alma sensível e um enorme coração.
Recebia Leonor com alegria à porta todos os dias, aquecia-a nas noites frias, encostava-se a ela enquanto veem filmes na televisão e seguia-a curioso sempre que limpava a casa.
A vida ficou mais colorida ao lado do gato. Dava gosto chegar a casa sabendo que alguém esperava por ela, alguém com quem podia rir, chorar e, acima de tudo, alguém que a compreendia com um simples olhar.
Podia pensar que agora era só viver feliz, mas
Recentemente, Leonor começou a notar dores no lado direito. Inicialmente pensou tratar-se de um músculo puxado, depois culpou as comidas gordurosas. Quando as dores aumentaram, Leonor foi ao médico.
Ao ouvir o diagnóstico e saber do que a esperava, Leonor chorou durante horas, enterrando o rosto na almofada. Fred, sentindo a dor da dona, deitou-se ao seu lado e tentou reconfortá-la com o seu ronronar melodioso.
Sem se aperceber, adormeceu ao som das vibrações do Fred. Na manhã seguinte, resignada ao destino, decidiu não contar nada à família, dispensando olhares de pena e ajudas embaraçadas.
Tinha uma ponta de esperança de que os médicos conseguiriam ajudá-la. Propuseram um tratamento que poderia melhorar a situação.
Agora, surgiu a questão de onde deixar o Fred. Convencida intimamente de que o pior poderia acontecer com a sua doença, Leonor decidiu procurar um novo lar e bons donos para o Fred.
Pôs um anúncio na internet, garantindo que daria o gato de raça a uma família cuidadosa.
O primeiro que telefonou quis saber porque ela daria o gato adulto, e Leonor, sem saber bem porquê, inventou que estava grávida e que, nessa fase, desenvolveu alergia ao pelo do gato.
Três dias depois, Fred saiu em sua transportadora com todos os seus pertences rumo a uma nova casa, enquanto Leonor dava entrada no hospital
Dois dias depois, ligou aos novos donos para saber de Fred. Desculparam-se uma centena de vezes e explicaram que o gato fugiu na própria noite em que chegou e que não o conseguiam encontrar.
Seu primeiro impulso foi sair do hospital correndo para buscar o gato. Pediu à enfermeira de serviço para sair, mas esta a censurou e mandou-a de volta à enfermaria.
A companheira de quarto reparou na angústia e perguntou o que se passava. Leonor, chorando, contou-lhe tudo.
Não te aflijas já, minha rapariga, disse a senhora idosa e magra, amanhã vem cá uma especialista famosa de Lisboa. Eu também tenho doença séria, até o meu filho queria transferir-me para outra clínica, ele tem dinheiro, é empresário, mas eu recusei.
Como ele conseguiu esta visita, não faço ideia, mas conseguiu. Vou pedir à doutora para te consultar também, pode ser que não seja assim tão mau, disse ela, acariciando carinhosamente o ombro de Leonor.
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Mal saiu da transportadora, Fred percebeu que estava numa casa estranha. Uma pessoa desconhecida estendeu a mão para o acariciar
Os nervos do gato falharam, e ele bateu com força na mão antes de fugir para um canto escuro.
Ó Paulo, deixa-o sossegado, que ele acalme primeiro, ouviu Fred a voz suave de uma mulher, mas aquele não era o tom da sua dona.
O coração do gato batia surdo no peito, pensamentos descontrolados, a alma sofria. O que teria acontecido para Leonor o entregar a estranhos; porque o tinha abandonado?
Os olhos dourados procuraram pela sala, aterrorizados. Avistou uma janela entreaberta. Num instante, Fred lançou-se pela divisão e saltou para fora!
Felizmente era só o segundo andar e havia relva cuidada debaixo da janela. Foi ali que começou o regresso de Fred a casa
*****
A especialista era uma mulher simpática, com pouco mais de quarenta anos. Apresentou-se como Maria Paula, leu atentamente o processo de Leonor e pediu que ela se deitasse de lado na marquesa.
Examinou e pressionou demoradamente, perguntou onde doía, como doía. Depois voltou ao processo. Repetiu procedimentos em aparelhos médicos.
Leonor não esperava boas notícias. Voltou para o quarto onde a senhora de idade esperava.
Então, o que disseram? perguntou ela.
Ainda nada, disseram que vão passar por cá.
Está bem. Eu não tive tanta sorte, confirmaram o diagnóstico, lamentou a senhora.
Lamento imenso e obrigada por tudo, Leonor respondeu, sem saber como confortar alguém perante tal fatalidade.
Meia hora mais tarde, Maria Paula apareceu com outros médicos.
Leonor, trago boas notícias. A tua doença tem tratamento, já marquei o início do procedimento. Fica aqui duas semanas, faz o tratamento e ficas bem, disse-lhe sorrindo.
Após a saída dos médicos, a senhora do quarto afirmou:
Que bom! Fico feliz por poder fazer uma última boa ação antes de partir. Sê feliz, minha rapariga, despediu-se ela.
*****
Fred não conhecia nenhuma estrela guia, nem precisava. O gato seguia o seu instinto felino pelo regresso a casa. A caminhada para casa trouxe perigos e surpresas engraçadas.
Sem nunca ter andado na rua, o nobre britânico virou um caçador aguerrido, com os instintos apurados durante um só dia.
Evitando avenidas movimentadas, cruzamentos e carros, Fred rastejou, correu, saltou quando fugia de cães, trepou árvores tudo para alcançar o seu objetivo
Num pátio sossegado encontrou-se cara a cara com um gato velho e experiente.
Este não hesitou, reconheceu logo um estranho. Com um miar alto, atacou Fred, que, transformado de aristocrata em bandido, não recuou.
O confronto foi breve. O chefe local dos gatos fugiu para os arbustos, deixando para trás uma orelha rasgada.
Era natural; o rival queria mostrar quem mandava. Mas Fred só pensava em voltar para casa, e nada o impediria.
Continuou a jornada. Recordando instintos ancestrais, Fred aprendeu a dormir em árvores, escolhendo forquilhas seguras e confortáveis.
Ai, que vergonha, Fred aprendeu a comer restos do lixo, e a roubar comida das gatas de rua, alimentadas por moradores piedosos.
Certo dia enfrentou uma matilha. Eles encurralaram-no numa árvore frágil e tentaram alcançá-lo aos saltos, latindo furiosos.
Os humanos reunidos pelo alvoroço afugentaram os cães. Uma senhora até tentou ficar com Fred, chamando-o com fatias de chouriço.
A fome e o medo toldaram-lhe os sentidos, então desceu para ela e deixou ser acariciado e levado ao colo. Mas
Depois de descansar e comer num lar quentinho, Fred lembrou-se de onde queria ir, fugiu atrás da mulher, aproveitou a abertura providencial da porta do prédio e continuou o seu caminho para casa
*****
Após a alta médica, Leonor voltou a casa. Na cabeça ecoavam as palavras de ânimo da senhora do hospital. Claro que estava radiante o diagnóstico grave não se confirmou, tinha saúde.
Mas o coração doía, Fred fazia falta. Não conseguia imaginar voltar para um apartamento vazio, sem ninguém para recebê-la.
Mal chegou, Leonor ligou aos antigos adotantes e pediu a morada exacta. Depois de visitar o prédio, soube como Fred fugira, e decidiu seguir o rasto.
Diziam-lhe que era impossível, que já tinham passado duas semanas, que um gato doméstico não sobrevive tanto tempo na rua, mas ela recusou acreditar.
Leonor caminhou, olhou para cada pátio, inspecionou jardins vizinhos, garagens. Tentava pensar como um gato que nunca vira a rua. Chamava por Fred, espreitava vãos e caves.
Quando se aproximava de casa, percebeu que o gato tinha desaparecido sem deixar rasto. Não seria possível que, apenas seguindo instinto, um animal sem referência de cidade, conseguisse regressar ela própria tinha demorado duas horas a pé.
Chegou ao seu bairro de cabeça baixa, lágrimas a escorrer e o peito apertado de saudade e dor. Através do véu das lágrimas percebeu que do outro lado da rua vinha, na sua direção, um gato preto.
Um qualquer gato preto, pensou. Parou, olhou melhor. Reconheceu. Saltou e gritou Fred!
O gato não correu para ela; sem forças, sentou-se, semicerrando os olhos de felicidade, murmurou baixinho: Cheguei!Leonor ajoelhou-se sem se importar com o cascalho na calçada. Estendeu os braços com delicadeza, chamando pelo nome do amigo perdido. Fred hesitou, cambaleante, depois avançou aos poucos, reconhecendo a voz querida. Finalmente, deixou tombar o corpo magro no colo da dona, como quem entrega de volta tudo o que ficou perdido o amor, o lar, a esperança.
Ela envolveu-o, sentiu o ronronar suave vingar no peito, misturar-se ao pulsar do seu próprio coração, e naquele instante percebeu que nenhum medo, nenhuma solidão era maior que o reencontro.
Carregou Fred para casa. No caminho, aprenderam juntos que para os afetos verdadeiros não há distância insuperável, nem dores irremediáveis. O gato e a dona reconquistaram cada canto do pequeno T1, pintando-o, finalmente, com cores de alegria e eternidade.
E todas as noites, quando Leonor apagava a luz, ouvia o sussurro feliz de Fred: “Estou aqui. E nunca mais me perco.”







