O cavalheiro—homem de negócios foi ao restaurante sem carteira para me testar quanto à minha interesseira. Naquela hora não me importei… Veja o que fiz…

O restaurante para onde o Gustavo me convidou para o segundo encontro respirava ostentação: luz suave, ambiente acolhedor, empregados movendo-se silenciosamente entre as mesas, quase como sombras. Ele encaixava-se perfeitamente naquele cenário fato caro, relógio de destaque, e aquele sorriso presunçoso de quem está habituado a ser o centro de atenção.

Escolhe o que quiseres disse ele com indiferença, nem sequer abriu o menu. Odeio quando uma mulher se restringe.

A frase, digna de um príncipe generoso nas histórias, soou bem, mas algo ali me deixou inquieto. Talvez fosse o olhar avaliador dele ou o entusiasmo com que falava sobre as ex-namoradas, que, segundo Gustavo, só viam nele uma carteira.

Escolhi uma salada de pato e um copo de vinho branco. Gustavo pediu um prato de bife, tartar, uma garrafa de vinho tinto dispendioso. Falar sobre negócios, lamentar a superficialidade das pessoas, filosofar sobre valores e conexão espiritual Era o que dominava a mesa dele. Eu ouvia, concordava com a cabeça, mas sentia-me num exame, como se estivesse a qualquer momento prestes a ser confrontado com uma pergunta traiçoeira.

Teatro de um só

Quando o empregado trouxe a conta, numa pasta preta de pele, Gustavo continuou o monólogo. Enquanto discorria sobre o declínio da moralidade, procurou com certa preguiça no bolso interior do casaco, depois nos bolsos dos calções, depois deu palmadinhas por todo o lado, com a expressão a passar de confiante para teatralmente atrapalhada.

Bolas murmurou, olhando-me directamente nos olhos. Acho que deixei a carteira no escritório ou no carro.

Fez um gesto de impotência, mas não se preocupou de verdade. Nem pediu ao empregado para esperar, nem tentou resolver o assunto pelo telefone com uma transferência. Limitou-se a olhar para mim.

Que situação, continuou. Precisas de ajudar-me? Pagas tu agora, eu devolvo depois. Ou pago eu no próximo jantar, com juros.

Nessa altura, percebi claramente: não era um acaso nem um esquecimento. Era um teste construído por ele, algo que ele próprio tinha comentado meia hora antes.

Já tinha ouvido histórias semelhantes em fóruns e novelas pouco prestigiadas, mas nunca pensei vivenciar isto pessoalmente, e ainda vindo de um homem adulto, aparentemente bem-sucedido.

A lógica dele era simplista: se a mulher paga pelos dois sem protestar, é boa, conveniente, pronta a ajudar e a cuidar. Se recusar, é materialista, caçadora de dinheiro. Ali, já não via um empresário, mas sim um manipulador inseguro, a tentar brincar ao examinador.

Gustavo estava convencido que tinha ganho. No seu mundo, a oportunidade de ser parceiro de um bom partido devia levar-me a pagar a conta sem hesitar.

Frieza calculada

Abri a mala devagar, mantendo a calma. Gustavo relaxou visivelmente, seguro de que o plano tinha funcionado.

Claro, sem problema, disse suavemente, chamando o empregado.

Pode dividir a conta, por favor, falei com firmeza. Pago o meu, e o senhor paga os seus pedidos.

O sorriso dele sumiu imediatamente.

Como assim? sussurrou, inclinando-se para mim. Não tenho carteira.

Compreendo, assenti, aproximando o telemóvel do terminal. Mas somos apenas conhecidos. Pagar por mim é aceitável. Já cobrir o jantar de um homem que me convidou para um restaurante caro e pediu os pratos mais caros, desculpa, não é minha responsabilidade. És adulto, certamente vais arranjar uma solução.

O empregado hesitou, com o olhar entre nós. Gustavo ficou vermelho, e o brilho sofisticado desapareceu, revelando só a rudeza.

Estás a falar sério? bufou. Por causa de uns euros? Já te disse que devolvo tudo. Só estava a testar-te.

E testaste, respondi, levantando-me da mesa. Sou alguém que não permite ser manipulado.

Já estava a caminhar para a saída, mas senti que faltava um último toque. Ele ficou ali sentado, com a conta por pagar, irritado e perdido, sem carteira.

Voltei à mesa, tirei da carteira alguns euros amarrotados e umas moedas, o típico troco do fundo da mala.

Ah, acrescentei. Se a carteira está no carro, não tens dinheiro nem para o táxi?

Deixei o dinheiro ao lado do copo dele.

Fica para o metro. Não te preocupes, chegas a casa. Considera isto minha contribuição para os teus estudos da alma feminina.

Algumas pessoas nas mesas ao lado olharam. Gustavo parecia ter levado uma bofetada.

Saí para a rua.

Aquele jantar custou-me apenas uma salada e um copo de vinho um preço baixo para perceber a tempo a verdadeira personalidade de alguém e poupar anos de vida. Espero que ele tenha aprendido algo, mesmo que pessoas assim raramente mudem.

E vocês, o que fariam no meu lugar: salvariam o esquecido ou manteriam uma posição honesta, mesmo que dura?

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