O casamento estava marcado para a próxima semana quando ela me disse que não queria casar. Já estava…

O casamento seria dali a uma semana quando ela me disse, com uma voz que parecia sair de detrás de um nevoeiro de linho, que não queria casar. Todos os tostões já tinham sido gastos o salão em Cascais, a papelada pronta na Conservatória, as alianças de ouro presas num guardanapo de linho, até parte da festa do bacalhau com todos pagos e alinhados como soldados de papel. Meses e meses a cortar tickets, abrir envelopes, ligar para tias e primos e primos das tias.

Durante toda a nossa relação, acreditava que fazia o que era certo. Trabalhava de manhã até às tantas, e mesmo assim, todos os meses separava vinte por cento do ordenado para ela para a cabeleireira, para unhas de gel ou para alguma fantasia feita à última da hora. Não por ela não trabalhar tinha o seu próprio salário, gastava como queria, com aqueles tiques de independência tão típicos. Eu pagava tudo porque, no meu peito, parecia que assim é que devia ser um homem, um companheiro. Nunca lhe pedi dinheiro para a renda da casa. Liquidei saídas, cafés na Brasileira, jantares no Cais do Sodré, viagens rápidas ao Gerês, tudo.

Um ano antes do casamento, fiz algo desmedido propus levar toda a família dela à praia de São Martinho do Porto. Não só os pais ou irmãos, mas sobrinhos de riso fácil e até dois primos afastados da Beira. Éramos uma caravana desconexa de dezassete almas. Para fazer acontecer, trabalhei horas extra, cortei nos sapatos novos, guardei cada cêntimo como quem guarda um segredo. Quando aquele verão chegou, paguei a estadia numa pensão antiga, o comboio, o peixe grelhado na areia tudo. Ela parecia feliz, a família dela agradecida. Ninguém desconfiava que para ela, no fundo, nada daquilo tinha significado.

Quando me disse que queria separar-se, falou que eu era demais. Que exigia demasiado carinho, atenção, proximidade. Que tinha vontade de abraçá-la, de lhe mandar mensagens, de saber se dormira bem, e que ela sempre fora fria, um inverno limpo onde os abraços não vingam. Disse-me que esperava coisas que ela nunca me poderia dar.

Disse-me ainda algo nunca antes comentado que, se pudesse, nunca teria aceite o pedido de casamento. Aceitou porque insisti, porque puxei a família dela para o palco. Fiz-lhe o pedido num restaurante ao pé da Sé, à frente das tias e dos primos. Para mim, um gesto bonito; para ela, uma armadilha doce. Explicou que não conseguiu recusar com todos a olhar em silêncio e tachos a bater lá atrás.

Cinco dias antes do civil no Cartório, com a vida pronta num envelope de renda, decidiu, enfim, confessar tudo. Disse que se sentia pressionada, como quem veste um fato de outro corpo. Que eu tinha dado demais e, afinal, isso a fazia sentir-se presa, em dívida, sem ar. Preferia partir do que fingir que aquele mundo era o dela.

Depois desta conversa, ela saiu pela porta como num sonho estranho. Não houve gritos, nem reconciliações de novela, nem tentativas para remendar nada. Ficaram os contratos, as contas pagas, os risos prometidos e um casamento cancelado, a pairar como nuvem baixa por cima da cama. Ela não mudou de opinião. Tudo terminou ali, como termina um sonho ao acordar.

Naquela semana fora do mundo, percebi: ser o homem que paga, resolve, que está sempre lá, não significa, nem num país de fado, que alguém queira mesmo ficar ao teu lado.

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O casamento estava marcado para a próxima semana quando ela me disse que não queria casar. Já estava…