O Aniceto, que se ofereceu para me levar até à casa dos meus pais, revelou-se terrivelmente vesgo. Acabou por me largar ao pé da Casa do Gaiato, grande tanso!

O Joaquim, aquele que ficou de levar-me até à casa dos meus pais, acabou por ser terrivelmente vesgo. Largou-me à porta do antigo orfanato, tal qual galinha depenada. E desde então, tudo começou a sair ao lado.

Só lá pelos meus quarenta anos consegui, finalmente, sair do buraco para o qual aquela ave despistada me tinha lançado. Levantei uma casa nos arredores de Coimbra, arranjei a Madalena por mulher, comprei um carro usado, um Opel Corsa com mais anos que juízo. Restava plantar qualquer coisa e criar alguém.

Criar, criaríamos um, eu e a Madalena. E nem pensávamos em outro.

Naquela manhã chuvosa de outono, justo sobre plantar, crescer e futuras colheitas divagava eu, enquanto deixava o café fazer-se no bule. Um corrente de ar fazia dançar calmamente as minhas cuecas largas penduradas no estendal da varanda. Curioso como arranjei roupas de homem de família antes sequer de ter uma família. Ironia dos tempos.

Ouvi uns toques na janela do terraço. Miudagem armada outra vez em valentes a atirar pedras aos pombos? Uns valentes marotos, estes petizes. Fazia-lhes falta um cego de olhos tortos, mas em vez dum a sereno, tinham de sobra talento para asneira.

Novamente, alguém bate. Depois outra e ainda outra. E era o terceiro andar! Quem raios estaria ali?

Arrastei-me até à janela e puxei a cortina. Lá estava ele, o mesmo Joaquim, vesgo, da lenda da minha infância, a dar voltas no meu terraço.

Vai-te embora, criatura! gritei, assustado. O pão com marmelada saltou da minha mão direto ao azulejo.

Ó Manuel, meu caro, desculpa lá enfiou a cabeça fininha pela porta entreaberta . Admito a culpa, pois claro, admito. Dá-me um puxão, mas pelo lado direito, de preferência, que ali tenho mais asa.

Desaparece! tentei corrê-lo, agarrando aquele pescoço magro com as duas mãos.

Não faças essa figura, ó Manel tossiu, deixa-me explicar tudo.

Ainda dás em fala-barato, é? resmunguei . Dou-te um nó nessas penas, pá!

Vim cá pedir desculpa, carago…

Chegas tarde, pá, com esse bico comprido.

Nesse instante a campainha fez-se ouvir, insistente. Era a Madalena de regresso.

Anda daí para fora despachei o Joaquim, empurrando-lhe o corpo desajeitado para o terraço . E que desapareças antes que eu volte cá fora.

Virei-me no automático e corri até à porta.

Perdoa, ó Manel! ainda lhe ouvi, enquanto esticava o pescoço pela janela . Juro que remendei o erro!

A Madalena entrou em casa a transbordar de felicidade, os cabelos colados às bochechas, os olhos a brilhar como só vi quando ganhámos cinco escudos na raspadinha. Teria ela cruzado também com o Joaquim?

Antes que eu perguntasse qualquer coisa, atirou o chapéu-de-chuva para um canto e lançou-se-me ao pescoço.

Quatro! Quatro! gritou tão alto que ecoou pela casa.

Quatro o quê? olhei para ela sem perceber.

Vamos ter quadrigémeos! não se calava, radiante, a Madalena. Quatro bebés nossos!

Foi aí que liguei os pontos as palavras do Joaquim, o milagre dos quatro. Saí disparado para o terraço, tentando ainda apanhar o velho vesgo pelo rabo.

Não consegui. Só o vi levantar voo, lento na chuva.

Ó caramba! Espera aí, pá! Ó bico-torto!

Remendei tudo! ouvi ao longe, por entre as nuvens espessas.

Virei-me. A Madalena estava atrás de mim. Chorava de felicidade. E naquela manhã cinzenta, pela primeira vez desde o orfanato, senti-me realmente em casa.

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O Aniceto, que se ofereceu para me levar até à casa dos meus pais, revelou-se terrivelmente vesgo. Acabou por me largar ao pé da Casa do Gaiato, grande tanso!