O Amor de Pai e Mãe: Presentes, Surpresas e Aventuras entre Pais, Filhos e Avós num Natal Português …

Os filhos são como flores no jardim da vida gostava a minha mãe de repetir. O meu pai, a rir, acrescentava sempre:
No jardim do cemitério dos pais, numa alusão às traquinices, birras e à confusão constante das crianças.

Hoje, sentei finalmente os miúdos no táxi, aliviado mas feliz. A Leonor tem quatro anos, o Mateus só um e meio. Passaram dias fantásticos com os avós: bolachinhas, abraços, histórias e até aquelas pequenas liberalidades que só os avós sabem dar, mais do que em casa.

Também eu fiquei genuinamente contente com a visita. Os meus pais, as minhas irmãs, sobrinhos aquela casa é abrigo sem perguntas. A comida da mãe, impossível de recusar. A árvore de Natal cheia de luzes e enfeites daqueles antigos, mas cheios de carinho. Os brindes eternos do meu pai, longos mas sempre sentidos. Prendas da mãe, escolhidas com amor e atenção.

Por um instante, senti-me outra vez um rapaz. Só me apetecia dizer: Obrigada por existirem, mãe e pai.

Este ano, a Maria e eu quisemos dar-lhes um presente especial, não por dever, mas em gratidão. Pelo meu lar feliz, pelo afeto e pelo cuidado que recebemos, eu e as minhas irmãs. Pela confiança com que aceitaram a Maria na família, entregando-lha o mais precioso: o seu rapaz. Pela força da família, pela fé no nosso caminho, pela presença em cada passo importante.

Sempre sonhei dar ao meu pai um carro confessou um dia o António, meu cunhado. Mas nunca cheguei a tempo
Fez uma pausa e continuou, decidido:
Mas vamos poder dar ao teu!
A Maria sorriu-lhe com aquele olhar de quem tem amor, gratidão e respeito.

Como combinado, fui até casa com os miúdos. Levei caixas de saladas caseiras, carne assada, doces: tudo feito por nós, com carinho.

O Mateus entregou um enorme ramo de rosas à avó tão grande que quase o derrubava. Abracei o meu pai, dei-lhe um beijo, senti o cheiro quente da casa.

Então e o António? Porque é que não veio? perguntaram logo.
Nesse instante, o telefone tocou.
É ele disse a Maria, a sorrir. Está atrasado, disse para irmos começando.

As crianças já corriam para a sala. Debaixo da árvore alta e colorida havia caixas e caixinhas, cada uma com o nome do destinatário, que o Pai Natal trouxe.

À Leonor, claro, calhou a maior parte. Numa caixa: uma carruagem mágica da Cinderela. Noutra, um par de cavalos brancos com crinas douradas. Até uns sapatinhos de cristal para a princesa. Veio ainda um vestido esvoaçante e rodado, luvas compridas com pedrinhas brilhantes. Acessórios, um espelho encantado, maquilhagem de brincar, conjuntos criativos, livros

Ao Mateus coube uma caixa enorme com um parque de estacionar de vários andares: carros miniatura subiam de elevador e deslizavam pela rampa em espiral. Trazia mais: um dinossauro com olhos luminosos, arco e flechas, piscina de bolas e um saco cheio de bolas coloridas, uma pistola espacial que brilhava em todas as cores. Uma montanha de livros para pintar, lápis e marcadores mágicos.

Não esqueceram a Maria! Numa caixinha com laço, uns brincos de ouro a brilhar, a refletem as luzes natalícias.

Na mesa, em cima de uma travessa, estava o seu bolo favorito Formigueiro. Com nozes, passas, fruta cristalizada e chocolate. Igualzinho ao da infância.

À parte, debaixo da árvore, estavam ainda caixas para o António. Expressamente proibido abrirem sem o genro.

Dei o nosso presente à mãe um frasco de perfume francês e à pai uma pulseira de prata com trama original. A Leonor presenteou os avós com um retrato deles próprio, engraçado, atabalhoado como um desenho policial, mas tão carinhosamente feito que só houve sorrisos e gargalhadas.

Faltava, então, o presente maior!

Cerca de meia hora depois dos brindes iniciais e da voragem das prendas, a Maria pôs os brincos, que começaram a fulgir nos seus cabelos, realçando-lhe a felicidade no olhar.

A Leonor olhou de relance e perguntou:
Mamã, puseste esses brincos para eu te dizer que ficas gira?
Pus mesmo, filha.
Estás linda! sentenciou a Leonor. E eu! E o pai também! Até o Mateus! gargalhadas renovadas na sala.
E o António, onde anda ele?
Então, chegou o momento. A luz do portão acendeu-se, abriu-se o portão da garagem e, com estrondo festivo, entrou no pátio um carro branco, grande, reluzente de novo.

Saímos todos barulhentos, entre risos e arrepios ligeiros daquele frio lisboeta.

Lá estava ela: a máquina nova, com balões presos aos espelhos e ao capô.
O António saiu do volante, calmo, sem discursos. Aproximou-se do meu pai, entregou-lhe as chaves.
É seu de coração.
E abraçou-o como homem forte, seguro, sem teatro. O meu pai recuou um passo, a sorrir incrédulo.
Oh, filhos Não posso aceitar
Mas já o sentávamos ao volante. Passou a mão pelo volante, olhou para o painel com luzes de nave espacial. O cheiro a couro novo e sonhos de viagem pairava.
Limpou os olhos olhos que poucas lágrimas conhecem.
Vocês são doidos murmurou. Depois levantou-se e abraçou-nos, a mim, à Maria, aos netos, à mulher.

O Natal foi um sucesso.
Ficámos todos de coração cheio. Aqueles dois dias deram alegria às crianças e aos adultos. Mas tudo tem o seu tempo era hora de regressar.

Na manhã seguinte, António foi trabalhar. O meu pai levou-o no carro novo confiante, rejuvenescido, parecia um jovem sem preocupações. Fui espreitá-los, a sorrir. O presente seguia o seu destino, tal como quisemos.

Depois do almoço, chamei um táxi. As malas vinham mais leves, o peito mais cheio. A Leonor abraçou a avó mais uma vez, o Mateus acenou ao avô, bem apertado ao seu carrinho novo para a viagem.

Entrámos no táxi. O caminho estava calmo. As crianças, exaustas e felizes, adormeceram instantaneamente, coladas uma à outra no banco de trás.

Já perto de casa, pedi ao motorista uma paragem numa mercearia:
Vou só buscar fraldas e uma garrafa de água.
Demorei cinco minutos. Ao voltar a sentar-me, o coração caiu-me aos pés.
Os miúdos não estavam lá!
O condutor conversava com uma mulher desconhecida, sentada à frente.
Não percebi balbuciei.
A mulher olhou de lado, desconfiada:
Quem é esta?!
O taxista ergueu os ombros:
Não sei! E para mim: Quem é você? De que precisa?
Mas vocês estão loucos?! Onde estão os meus filhos?!
Mas tu és maluquinho?! começou a mulher aos gritos, batendo-lhe com a mala. Tens filhos e não me contas?
Então mas põe qualquer um no carro?! gritei eu também. Os meus filhos, onde estão?!
Uns três ou cinco minutos de perfeito caos: berros, acusações, chapadas no ar, injustiça absoluta.

De repente, alguém abre a porta. Um homem curva-se e diz serenamente:
Minha senhora, este não é o seu carro. O seu táxi ficou mais à frente.

O mundo parou. Saí furioso, bati a porta, corri para o táxi semelhante parado uns metros depois.
Abri a porta.
No banco de trás, os meus filhos dormiam tranquilos. Dois anjinhos, intocados.
Respirei como quem volta do precipício. Sentei-me, fechei a porta e só disse:
Podemos seguir.

Nesse momento, desatei a rir. Um riso nervoso, libertador. O taxista também se ria, batendo na perna, agradecido pelo fim feliz tragédia evitada, mas história para sempre.
Olhei para os meus filhos adormecidos e entendi com força: nós, pais, somos cansados, por vezes distraídos, outras bem-dispostos e calmos. Mas basta um risco à volta dos nossos filhos, e brota em nós o leão adormecido.
Sem hesitações, sem pensar, sem medo. Só importa protegê-los.
Assim é o amor.
Sereno enquanto tudo está bem, indestrutível se algo ameaça os nossos filhos.

Nunca esqueço: os filhos são de facto as flores do nosso jardim, e o nosso amor por eles é o verdadeiro milagre silencioso da vida.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

O Amor de Pai e Mãe: Presentes, Surpresas e Aventuras entre Pais, Filhos e Avós num Natal Português …