Apesar de um início meio atribulado, o meu marido Filipe tornou-se um homem culto, inteligente e bem-sucedido tudo graças ao carinho e à dedicação incansável da sua avó, Dona Susana.
Confesso que, quando conheci a avó do Filipe, fiquei de boca aberta com a sua generosidade e o coração enorme que tinha. Era evidente que o Filipe era o menino dos seus olhos, tão visível nas pequenas coisas do dia-a-dia que quase dava para sentir a ternura a pairar no ar. Vê-la mimá-lo era quase tão reconfortante como um pastel de nata acabado de sair do forno. Claro que, quando nasceu a nossa filha, a alegria foi tal que nem numa noite de Santo António em Lisboa se via felicidade assim. E como homenagem à avó Susana (que, aliás, quase conseguiu convencer-nos a batizar a menina com Bacalhau, de tanto que gosta de tradições), chamámos a nossa pestinha de Susana.
Ali em casa a vida corria com aquela harmonia típica portuguesa: uns dias ríamos, outros discutíamos sobre o preço das sardinhas, mas havia sempre calor humano na mesa. Só que tudo virou de pernas para o ar num belo dia, quando um senhor estranho apareceu à nossa porta, dizendo ser o pai do Filipe. Mal entrou, começou logo a destilar um festival de disparates e insultos, como se estivesse num arraial a lançar petardos, e não nos largava, feito eco chato no elevador.
Nervosa, liguei imediatamente para o Filipe: Despacha-te a vir para casa, isto está a aquecer mais que o forno da padaria! Quando o Filipe chegou, tratou logo de mandar o visitante passear para outras bandas, garantindo que o homem não deixasse mais rasto do que chuva num concerto do Tony Carreira. Mas o festival ainda não tinha acabado: o senhor e a esposa apareceram no emprego do Filipe a exigir pensão alimentícia, como se estivessem a pedir um empréstimo no banco. Felizmente, não colou: ficou provado que o pai nunca tinha lhes dado sequer um euro nem uma moeda de dois cêntimos nem sequer um obrigado e boa sorte ao Filipe.
Ainda assim, não ficaram satisfeitos. Insistiram em aparecer lá por casa com os filhos, como se fossem pedir açúcar ao vizinho, à procura de alguma ajuda. Para não ser apanhada de surpresa outra vez, instalei câmaras de segurança mais cuidado do que feijoada guardada para o dia seguinte. Resultou: durante os quatro anos seguintes, nunca mais nos deram chatice. Nem um telefonema, nem uma visita, nada. E sinceramente, depois de terem deixado o filho tão novo sozinho numa casa vazia, sem uma mão amiga ou um prato de sopa, não havia simpatia que resistisse.
Mas, entre tudo o que aconteceu, a nossa família permaneceu mais forte e unida do que nunca principalmente devido ao carinho e aos sábios conselhos da avó Susana. A sua influência é tão grandiosa que se fosse medida, dava para encher um estádio do Benfica. Todos os dias somos gratos por tê-la connosco. E assim, juntos, encaramos o passado com cabeça erguida e damos valor ao amor que nos mantém ligados. Porque se há coisa que nunca falta em família portuguesa, é amor e um bom prato de arroz de pato!







