Nora precisa acordar duas horas mais cedo e deitar-se duas horas mais tarde do que a “sogra”

Na véspera das férias, o meu marido sugeriu que passássemos o verão na casa de campo dos pais dele, ali algures perto de Leiria. Somos quatro na família: o nosso filho, António, tem nove anos e passa os dias de verão como um pintarroxo, solto e elétrico; a nossa bebé, Matilde, tem sete meses e todos achámos que o ar puro do Ribatejo seria melhor para ela do que o calor abafado da cidade de Lisboa.

O meu marido, José, garantiu-me que os pais estariam radiantes por terem os netos por perto; toda a gente sabe como é complicado lidar com crianças pequenas, e por isso não iriam exigir demasiado de mim. Eu achei que seria uma boa maneira de estarmos juntos e disse sim. Mas, como pude perceber depois, estava redondamente enganada

José e o meu sogro, Manuel, mal quiseram ficar na quinta. Rapidamente voltaram para casa e para os seus trabalhos em Lisboa, aparecendo na casa de campo só ao fim de semana, e aí esperavam sempre pela comida posta na mesa, pela casa arrumada, e em geral que tudo estivesse preparado para que pudessem relaxar dos seus dias na cidade. Durante a semana, ficava só eu, as crianças e a minha sogra, Dona Fernanda.

O António só precisava de uns minutos para conseguir virar toda a casa do avesso; estava sempre a pedir-me atenção, e eu não o podia deixar sozinho nem por um instante. A Matilde, ainda tão pequenina, exigia cuidados constantes para além disso, eu precisava de comer e dormir regularmente, ou perdia o leite. O stress naquele lugar era, estranhamente, maior do que na cidade; e a promessa de desfrutar a natureza virou um feitiço.

Logo no início, Fernanda incumbiu-se da horta e das estufas, enquanto eu ficava encarregue da casa e da cozinha. Criámos um sistema para tomar conta dos miúdos: ia alternando os turnos de vigilância com ela. Como dava de mamar à Matilde pela noite, deitava-me cedo, antes das vinte e uma horas, e a minha sogra ainda ficava a trabalhar entre couves e tomateiros. Todas as noites, mal adormecia os dois, perguntava-lhe se precisava de algo. Ela sacudia a cabeça e dizia que estava tudo bem.

Engoli em silêncio todas as fadigas domésticas daquele verão lusitano, convencida de que tínhamos uma relação cordial e respeitosa.

Foi então que, num desses sábados, José pediu-me para passearmos pelo pinhal e confessou que sua mãe estava magoada comigo. Fernanda sentia-se exausta da jardinagem e, segundo ela, faltava-lhe a minha ajuda ela sentia que eu passava o dia na ronha. O José ainda citou o que ela dizia: uma boa nora tem de acordar pelo menos duas horas antes da sogra e ir para a cama duas horas depois.

Além disso, Fernanda sentia-se incomodada porque, depois das sestas, eu não arrumava imediatamente as camas dos miúdos, e isso ia contra o seu rigor de higiene rural.

Talvez seja verdade que não sou mulher para a lida perfeita, mas não consigo entender como é que se espera que me desgaste tanto na terra só para agradar alguém. E tudo me parecia tão surreal; havia colinas a ondular como lençóis, os cheiros das sopas misturados com o vento, vozes que ecoavam nos campos como sussurros de antigamente, e eu girava pela casa de campo entre sonho e vigília, sempre sem saber o que vinha a seguir.

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Nora precisa acordar duas horas mais cedo e deitar-se duas horas mais tarde do que a “sogra”